Isaías 25.6-9. Páscoa
Introdução
Aleluia! Jesus ressuscitou! Ele triunfou sobre nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. Páscoa é a maior festa da cristandade. É dia de júbilo pela vitória. Neste dia - já diziam nossos pais - não adoramos de joelhos, mas de pé e de fronte erguida, como aqueles que festejam e jubilam pela grande vitória, a maior que o mundo já conheceu.
Mas, o que é feito dessa festa? Parece que a cristandade a esqueceu e não a conhece mais. Substituíram a verdadeira alegria, por coisas fúteis. Os cultos não estão bem freqüentados, neles não se nota mais a explosão de júbilo pela vitória, esta alegria e esperança da ressurreição e vida eterna.
Há necessidade de conscientizarmo-nos dos acontecimentos da Páscoa e seu significado para nós, para que o júbilo volte às tendas dos fiéis.
1. O que aconteceu?
Após a terrível queda de Adão e Eva em pecado, estando eles desesperados, temendo as conseqüências de sua desobediência, Deus se aproximou deles amorosamente e lhes anunciou salvação. Inacreditável.
Deus lhes prometeu que se colocaria ao lado deles e lutaria por eles. Ele lhes mandaria um Salvador que os libertaria do domínio do pecado, do poder da morte e da escravidão de Satanás. Esta boa nova trouxe consolo a Adão e Eva e a milhares de pessoas em suas angústias e sofrimentos neste vale de lágrimas. Muitos dos descendentes de Adão e Eva, infelizmente, não creram e pereceram.
Para poder executar a salvação prometida e conservar esta notícia viva na humanidade, Deus teve que intervir diversas vezes no curso da história. No tempo de Noé, Deus interveio pelo dilúvio. Por ocasião da construção da torre de Babel, Deus interveio castigando a humanidade com a confusão das línguas. Depois chamou a Abraão, para formar de sua descendência o povo de Israel, através do qual nasceria o Salvador da humanidade.
Mesmo este povo desobedeceu muitas vezes a Deus e foi infiel. Deus teve que castigar os israelitas diversas vezes. Quando reis e sacerdotes se corrompiam, Deus despertou profetas para chamar o povo ao arrependimento. O profeta Isaías foi um deles. Ele viveu entre os anos, 745 a 695 a.C. Ele viveu num tempo de grande decadência de Israel. Coube-lhe a árdua tarefa de chamar o povo de volta a Deus e caso não lhe dessem ouvidos, anunciar-lhes o severo juízo de Deus, o cativeiro Babilônico. O povo não lhe deu ouvidos, nem quando anunciou o castigo que estava por desabar em cima deles.
E então, para que o povo não desesperasse, no cativeiro babilônico, sob o severo juízo, Deus revelou ao profeta uma sublime mensagem do evangelho, isto é, que apesar de toda a infidelidade de Israel, Deus cumpriria sua promessa de salvação. Ele traria o povo de volta do cativeiro, e os estabeleceria em Israel. Eles reconstruiriam o templo e os muros de Jerusalém. Pois ali Deus queria executar sua promessa de salvar a humanidade por seu Filho Jesus Cristo. E Deus revelou a Isaias como isso se processaria. Revelou-lhe o sofrimento e a vitoriosa ressurreição. Haveria alegria e júbilo nas tendas dos justos, isto é, dos fiéis.
2. A festa da vitória.
Isaías descreve esta vitória. Em primeiro lugar (v.6), como introdução, em termos materiais de uma grande e alegre festa, com boa comida e bons vinhos. E destaca: a) Deus está preparando esta festa, por seu Filho Jesus Cristo, no monte em Jerusalém, no qual Cristo será crucificado, como substituto de toda a humanidade, para conquistar perdão, vida e salvação. Esta salvação será para Israel e todos os povos. Isto é um detalhe importante, e um consolo para os aflitos em sua angústia, para lhes mostrar a esperança, a grande alegria e felicidade que os espera no futuro.
Em segundo lugar, ele mostra em que consiste esta vitória. Primeiro, Deus destruirá a coberta que envolve todos os povos, e o véu que está posto sobre todas as nações. (v.7) Que coberta e que véu são estes? É a cegueira natural que nos impede ver a grande salvação que nos é anunciado pelo Evangelho. Para tanto Deus enviou seu Espírito Santo que chama pelo Evangelho e ilumina com seus dons. Para que todo o que nele crê não pereça mas tenha a vida eterna.
Em segundo lugar afastará o véu que está posto sobre todas as nações. (v.7) Este véu é a morte que tem poder sobre as pessoas por causa do pecado. Isaías jubila dizendo: Tragada foi a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Deus as lágrimas de todos os rostos, e tirará de toda a terra o opróbrio do seu povo, porque o Senhor falou. (v.8) Esta vitória sobre a morte o apóstolo Paulo descreve maravilhosamente em sua epístola, lida há pouco. Esta vitória Jesus proclamou dizendo: Eu vivo e vós vivereis. (Jo 14.19) Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, inda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente. (Jo 11.25)
Nosso Catecismo Menor levanta a pergunta: Por que a ressurreição de Cristo é tão consoladora para nós? E responde: A ressurreição de Cristo é tão consoladora para nós, porque ela prova incontestavelmente: 1° que Cristo é o Filho de Deus e verdadeira a sua doutrina; 2° que Deus Pai aceitou o sacrifício de seu Filho para a reconciliação do mundo; e 3° que todos os fiéis ressuscitarão para a vida eterna.
Que imenso consolo. Temos perdão, temos paz com Deus Pai, a porta do céu nos está aberta, aguardamos a ressurreição, o novo céu e a nova terra, onde reinarão justiça e paz eternamente.
Como isso se espelha no dia a dia? a) A certeza do perdão pelos méritos de Cristo é um grande consolo no dia-a-dia. b) Se passarmos por sofrimentos, como por exemplo, doenças terminais, muitas dores, pobreza, revoluções e guerras, ou as aflições da velhice, sabemos que Deus nos assiste, nos fortalece e que estes sofrimentos são por pouco tempo, pois rumamos para a vida eterna, o lar eterno, e aguardamos o grande dia da ressurreição da carne.
Isto nos fortalece também no cuidado ao próximo. Todo esse trabalho não é em vão, por causa da ressurreição. Isso nos dá força para tanto, como a esperança da vida eterna deu força ao malfeitor na cruz, para suportar os últimos suplícios da crucificação.
Que este consolo, esta paz e esperança se revele em nosso dia a dia, para que as pessoas em nosso derredor percebam que vivemos a partir da vitória em direção da vitória final com a volta gloriosa de Cristo, na qual esperamos a ressurreição e a criação do novo céu e da nova terra, na qual habitará justiça. Para ali habitarmos com Cristo, de corpo e alma por toda a eternidade. Jubilemos e confessemos bem alto: Creio na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.
São Leopoldo, 03/04/2009
Horst R. Kuchenbecker.
terça-feira, 7 de abril de 2009
Isaías 52.13-53.12. Sexta-feira Santa
Sexta-feira Santa
Estimados em Cristo!
Estamos reunidos para contemplar a paixão e a morte de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Suplicamos a Deus Espírito Santo que nos ilumine para entendermos corretamente a paixão e a morte de Cristo, para notar bem a causa de sua morte, que são nossos pecados, e a bênção de sua morte, que é a nossa salvação. Que o Espírito nos fortaleça e firme na fé e na vida santificada.
O texto, que nos serve de base, é do profeta Isaías 52.13 – 53.1-12. Ele o escreveu 800 anos antes do nascimento de Jesus. Isaías descreve o sofrimento de Jesus de forma tão impressionante que parece estar ele ao pé da cruz em meio à multidão, presenciando os acontecimentos.
Ao meditarmos sobre a paixão de Cristo, precisamos ter certos cuidados. Muitas vezes destacamos a ação dos líderes religiosos da época, do sumo sacerdote, dos fariseus e anciões do povo que condenaram Jesus, a ação de Pôncio Pilatos, seus soldados e do povo que gritou: Crucifica-o! Isto é importante, mas não acertamos o ponto se só olhamos para a ação dessas pessoas. Precisamos, sobre tudo, focalizar aquele que está atuando aqui, e este é Deus Pai com seu Filho Jesus Cristo que voluntariamente se submete à vontade do Pai. Pois, Jesus não foi uma vítima das circunstâncias ou do ódio das pessoas. Ele se entregou voluntariamente em obediência ao Pai, por amor à humanidade. Por isso precisamos manter que quem está agindo aqui e dirigindo tudo é Deus Pai. “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (2 Co 5.19).” Só então compreenderemos a verdadeira grandeza desses acontecimentos.
Isto nos leva de imediato à pergunta: Como é possível harmonizar aqui a fúria humana, toda a incompreensão, a inveja, o ciúme, o ódio e a crueldade com o amor de Deus? Será Deus o autor de tudo isto? Não, Deus não é o autor do pecado. Isto procede do diabo e de seus servos, as pessoas. Eles são responsáveis por suas ações e terão de responder por isso diante de Deus, como Judas por sua traição. A onisciência de Deus não é a causa do pecado. Mas Deus governa e usa tudo para um fim proveitoso. Também aqui precisamos dizer: “Todas as coisas cooperam para o bem dos que temem e amam a Deus” (Rm 8.28). Pois seus inimigos não puderam ir um milímetro além do que Deus lhes permitiu.
Por isso, a história da paixão mostra o profundo amor do santo e justo Deus para com a humanidade. Este amor que é “loucura” para a razão humana (1 Co 1.23). Nossa razão não o pode captar. O mistério é grande demais. Só podemos prostrar- nos em humilde adoração diante dos acontecimentos e suplicar que Deus nos firme na fé.
Mas vamos ao texto. O texto de Isaías é profundamente consolador. Conta-se que um fiel servo de Deus, ao agonizar com dores do câncer, pediu que colocassem um crucifixo na parede do seu quarto, de tal forma que pudesse vê-lo sempre. E disse: Isto é uma pregação completa que me consola, me enche de esperança e me dá força nos momentos de dor. Realmente assim é este texto do profeta Isaías. Ele nos coloca ao pé da cruz de Cristo.
Com brevidade, queremos analisar cinco pontos: 1) Quem é Servo sofredor? 2) Qual a grandeza do seu sofrimento? 3) Qual a profundidade de sua indizível paciência? 4) Qual a verdadeira causa do seu sofrer? 5) Qual o fruto do seu penoso trabalho?
1. Quem é o Servo sofredor? - O texto fala do sofrimento do “meu Servo”. Este Servo é Jesus, o eterno e unigênito Filho de Deus. Só ele foi capaz disso.
Alguns têm contestado esta afirmação de Isaías. Mas não tem como contestar. O próprio Jesus e os apóstolos confirmam ser esta uma profecia referente a Jesus (Jo 12.37,38; Lc 22.37; Mc 15.28; At 8.32-35; Mt 8.17).
Jesus não foi um sofredor como os malfeitores ao seu lado, dos quais se dizia: “Eles recebem o que seus atos merecem.” Jesus, o Servo sofredor, nunca fez injustiça alguma (v.9).
Jesus não foi um simples mártir que, não sendo compreendido, sofreu por uma causa justa, como muitos mártires cristãos.
Jesus também não foi um revolucionário social que queria reformar a sociedade do seu tempo e por isso foi odiado pelas autoridades eclesiásticas e civis.
Ele é, como Deus o afirma: “O meu servo” (v.4), o Filho amado de Deus, em quem Deus se apraz. Ele desceu voluntariamente à mais profunda miséria humana, por amor à humanidade. Por isso se afirma dele: “Olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse” (v.2). O fato de Jesus ser o “Servo”, o eterno Filho de Deus, dá às suas dores e ao seu sofrimento um sentido bem especial, um valor eterno.
2. Qual a grandeza do seu sofrimento? – Toda a vida de Jesus, desde sua concepção até sua morte e sepultamento, foi um sofrimento.
Temos muitos sofrimentos no mundo. Há pessoas que sofrem desde o nascimento até sua morte, como por exemplo, os excepcionais. Ou pessoas que nascem em grande pobreza e vivem a vida em grande sofrimento até ao fim. Mas nada se compara ao sofrimento de Jesus, o Filho de Deus, que saiu de sua glória celestial e veio ao mundo, humilhou-se a ponto de ser concebido na virgem Maria, uma jovem piedosa, mas que tinham o pecado original e sua natureza pecaminosa. Quando o profeta afirma: “Nenhuma beleza havia que nos agradasse” (v.2). “Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado” (v.10). “Por juízo opressor foi arrebatado” (v.8), o profeta mostra que o sofrimento não foi somente em seu corpo, mas também em sua alma, como Jesus o afirma: “A minha alma está triste até a morte” (Mc 14.34). Ele tomou sobre si os pecados da humanidade e Deus Pai derramou sobre ele, nosso substituto, toda a ira divina. Por isso, ele exclamou na cruz: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste”. Isto expressa sofrimento infernal que ele estava suportando. Não há no mundo sofredor que se possa igualar a ele. É zombaria alguém dizer: Sofro como Cristo.
3. Qual a profundidade de sua indizível paciência? – Dor e sofrimentos são algo horrível. Quando somos acometidos de dor surge em nós uma revolta. Há murmúrio. Há protestos. Há desespero. Mas de Jesus é dito: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Isaías 53.7 RA). Jesus foi de livre e expontânea vontade para o martírio e a cruz, por amor a ti e a mim. Ele sofreu calado e paciente. Só podemos contemplar e adorar com profunda gratidão.
4. Qual a verdadeira causa do seu sofrer. – Isaías afirma: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si” (v.4). “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” (v.5). “Por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido” (v.8).
A verdadeira causa do seu sofrimento foram os pecados da humanidade, os meus e os teus. Isto foge à nossa compreensão. Isto está oculto à razão humana. Ao pé da cruz vemos a grande santidade de Deus e a verdadeira gravidade do nosso pecado. O pecado é ofensa a Deus. E para poder ser perdoado, precisava ser pago. Por isso Deus afirma: “Ao Senhor agradou moe-lo” (v.10). Vejam aqui a atuação de Deus Pai. Ele o moeu. Pessoas perguntam muitas vezes: Por que este caminho? Não haveria outro? Não! A santidade de Deus exigia cumprimento da lei e pagamento pelos pecados, pois “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hebreus 9.22 RA). O Filho voluntariamente disse ao Pai: Eu vou. Deus age em profundo amor para com a humanidade. O profeta afirma: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (v.5).:“Pois Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2 Co 5.19).
Assim o Cordeiro de Deus, Jesus, morreu voluntariamente pelos pecados da humanidade. Nem o Pai nem o Espírito Santo morreram pela humanidade, mas somente Jesus Cristo, que, como nosso irmão na carne, por uma única oferta, reconciliou a humanidade com Deus, como o afirma o escritor aos hebreus: “Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hebreus 10.14 RA).
5. Qual o fruto do seu penoso trabalho? - O profeta Isaías o destaca com grande precisão. “Pelas suas pisaduras fomos sarados” (v.5). “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito. O meu Servo, o justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos” (v.11). “Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte e com os poderosos repartirá ele o despojo” (v.12).
O fruto do seu penoso trabalho é a reconciliação da humanidade com Deus (Rm 5.11; 2 Co 5.19). Para expressar isto a Bíblia usa palavras como: expiar (Dn 9.24), propiciação (Jo 2.9), resgatar (Mt 20.28), salvar (Mc 10.41), remir (Tg 2.14). Há, agora, perdão para todos. Todos foram salvos, resgatados, redimidos (salvação objetiva). Só Deus foi capaz de realizar esta obra.
Esta salvação não é aplicada à humanidade automaticamente, mas oferecida, aplicada e selada por meios, a saber, pela palavra de Deus e os sacramentos. O apóstolo afirma: “Ele nos confiou a palavra da reconciliação” (2 Co 5.19). Por meio desta palavra o Espírito Santo chama, ilumina e congrega, conduz ao reconhecimento de nossos pecados e da culpa que pesa sobre todos nós. Mostra-nos o Salvador Jesus e opera a fé em todos os que não lhe resistem obstinadamente. A fé é a mão que recebe e se apega à graça de Cristo. Pela graça de Cristo somos declarados perdoados e justos. (Ap IV.72) (salvação subjetiva). Pela fé voltamos à comunhão com Deus para viver uma vida com Deus neste mundo e na eternidade.
Sublime amor de Deus em Cristo Jesus. Como agradecer a Deus por tamanho amor? Queremos louvá-lo e proclamar este amor de Cristo por palavras e obras. Amém.
São Leopoldo, 03/04/2009
Rev. Horst R. Kuchenbecker
Estimados em Cristo!
Estamos reunidos para contemplar a paixão e a morte de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. Suplicamos a Deus Espírito Santo que nos ilumine para entendermos corretamente a paixão e a morte de Cristo, para notar bem a causa de sua morte, que são nossos pecados, e a bênção de sua morte, que é a nossa salvação. Que o Espírito nos fortaleça e firme na fé e na vida santificada.
O texto, que nos serve de base, é do profeta Isaías 52.13 – 53.1-12. Ele o escreveu 800 anos antes do nascimento de Jesus. Isaías descreve o sofrimento de Jesus de forma tão impressionante que parece estar ele ao pé da cruz em meio à multidão, presenciando os acontecimentos.
Ao meditarmos sobre a paixão de Cristo, precisamos ter certos cuidados. Muitas vezes destacamos a ação dos líderes religiosos da época, do sumo sacerdote, dos fariseus e anciões do povo que condenaram Jesus, a ação de Pôncio Pilatos, seus soldados e do povo que gritou: Crucifica-o! Isto é importante, mas não acertamos o ponto se só olhamos para a ação dessas pessoas. Precisamos, sobre tudo, focalizar aquele que está atuando aqui, e este é Deus Pai com seu Filho Jesus Cristo que voluntariamente se submete à vontade do Pai. Pois, Jesus não foi uma vítima das circunstâncias ou do ódio das pessoas. Ele se entregou voluntariamente em obediência ao Pai, por amor à humanidade. Por isso precisamos manter que quem está agindo aqui e dirigindo tudo é Deus Pai. “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo (2 Co 5.19).” Só então compreenderemos a verdadeira grandeza desses acontecimentos.
Isto nos leva de imediato à pergunta: Como é possível harmonizar aqui a fúria humana, toda a incompreensão, a inveja, o ciúme, o ódio e a crueldade com o amor de Deus? Será Deus o autor de tudo isto? Não, Deus não é o autor do pecado. Isto procede do diabo e de seus servos, as pessoas. Eles são responsáveis por suas ações e terão de responder por isso diante de Deus, como Judas por sua traição. A onisciência de Deus não é a causa do pecado. Mas Deus governa e usa tudo para um fim proveitoso. Também aqui precisamos dizer: “Todas as coisas cooperam para o bem dos que temem e amam a Deus” (Rm 8.28). Pois seus inimigos não puderam ir um milímetro além do que Deus lhes permitiu.
Por isso, a história da paixão mostra o profundo amor do santo e justo Deus para com a humanidade. Este amor que é “loucura” para a razão humana (1 Co 1.23). Nossa razão não o pode captar. O mistério é grande demais. Só podemos prostrar- nos em humilde adoração diante dos acontecimentos e suplicar que Deus nos firme na fé.
Mas vamos ao texto. O texto de Isaías é profundamente consolador. Conta-se que um fiel servo de Deus, ao agonizar com dores do câncer, pediu que colocassem um crucifixo na parede do seu quarto, de tal forma que pudesse vê-lo sempre. E disse: Isto é uma pregação completa que me consola, me enche de esperança e me dá força nos momentos de dor. Realmente assim é este texto do profeta Isaías. Ele nos coloca ao pé da cruz de Cristo.
Com brevidade, queremos analisar cinco pontos: 1) Quem é Servo sofredor? 2) Qual a grandeza do seu sofrimento? 3) Qual a profundidade de sua indizível paciência? 4) Qual a verdadeira causa do seu sofrer? 5) Qual o fruto do seu penoso trabalho?
1. Quem é o Servo sofredor? - O texto fala do sofrimento do “meu Servo”. Este Servo é Jesus, o eterno e unigênito Filho de Deus. Só ele foi capaz disso.
Alguns têm contestado esta afirmação de Isaías. Mas não tem como contestar. O próprio Jesus e os apóstolos confirmam ser esta uma profecia referente a Jesus (Jo 12.37,38; Lc 22.37; Mc 15.28; At 8.32-35; Mt 8.17).
Jesus não foi um sofredor como os malfeitores ao seu lado, dos quais se dizia: “Eles recebem o que seus atos merecem.” Jesus, o Servo sofredor, nunca fez injustiça alguma (v.9).
Jesus não foi um simples mártir que, não sendo compreendido, sofreu por uma causa justa, como muitos mártires cristãos.
Jesus também não foi um revolucionário social que queria reformar a sociedade do seu tempo e por isso foi odiado pelas autoridades eclesiásticas e civis.
Ele é, como Deus o afirma: “O meu servo” (v.4), o Filho amado de Deus, em quem Deus se apraz. Ele desceu voluntariamente à mais profunda miséria humana, por amor à humanidade. Por isso se afirma dele: “Olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse” (v.2). O fato de Jesus ser o “Servo”, o eterno Filho de Deus, dá às suas dores e ao seu sofrimento um sentido bem especial, um valor eterno.
2. Qual a grandeza do seu sofrimento? – Toda a vida de Jesus, desde sua concepção até sua morte e sepultamento, foi um sofrimento.
Temos muitos sofrimentos no mundo. Há pessoas que sofrem desde o nascimento até sua morte, como por exemplo, os excepcionais. Ou pessoas que nascem em grande pobreza e vivem a vida em grande sofrimento até ao fim. Mas nada se compara ao sofrimento de Jesus, o Filho de Deus, que saiu de sua glória celestial e veio ao mundo, humilhou-se a ponto de ser concebido na virgem Maria, uma jovem piedosa, mas que tinham o pecado original e sua natureza pecaminosa. Quando o profeta afirma: “Nenhuma beleza havia que nos agradasse” (v.2). “Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado” (v.10). “Por juízo opressor foi arrebatado” (v.8), o profeta mostra que o sofrimento não foi somente em seu corpo, mas também em sua alma, como Jesus o afirma: “A minha alma está triste até a morte” (Mc 14.34). Ele tomou sobre si os pecados da humanidade e Deus Pai derramou sobre ele, nosso substituto, toda a ira divina. Por isso, ele exclamou na cruz: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste”. Isto expressa sofrimento infernal que ele estava suportando. Não há no mundo sofredor que se possa igualar a ele. É zombaria alguém dizer: Sofro como Cristo.
3. Qual a profundidade de sua indizível paciência? – Dor e sofrimentos são algo horrível. Quando somos acometidos de dor surge em nós uma revolta. Há murmúrio. Há protestos. Há desespero. Mas de Jesus é dito: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Isaías 53.7 RA). Jesus foi de livre e expontânea vontade para o martírio e a cruz, por amor a ti e a mim. Ele sofreu calado e paciente. Só podemos contemplar e adorar com profunda gratidão.
4. Qual a verdadeira causa do seu sofrer. – Isaías afirma: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si” (v.4). “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” (v.5). “Por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido” (v.8).
A verdadeira causa do seu sofrimento foram os pecados da humanidade, os meus e os teus. Isto foge à nossa compreensão. Isto está oculto à razão humana. Ao pé da cruz vemos a grande santidade de Deus e a verdadeira gravidade do nosso pecado. O pecado é ofensa a Deus. E para poder ser perdoado, precisava ser pago. Por isso Deus afirma: “Ao Senhor agradou moe-lo” (v.10). Vejam aqui a atuação de Deus Pai. Ele o moeu. Pessoas perguntam muitas vezes: Por que este caminho? Não haveria outro? Não! A santidade de Deus exigia cumprimento da lei e pagamento pelos pecados, pois “sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hebreus 9.22 RA). O Filho voluntariamente disse ao Pai: Eu vou. Deus age em profundo amor para com a humanidade. O profeta afirma: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele” (v.5).:“Pois Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo” (2 Co 5.19).
Assim o Cordeiro de Deus, Jesus, morreu voluntariamente pelos pecados da humanidade. Nem o Pai nem o Espírito Santo morreram pela humanidade, mas somente Jesus Cristo, que, como nosso irmão na carne, por uma única oferta, reconciliou a humanidade com Deus, como o afirma o escritor aos hebreus: “Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (Hebreus 10.14 RA).
5. Qual o fruto do seu penoso trabalho? - O profeta Isaías o destaca com grande precisão. “Pelas suas pisaduras fomos sarados” (v.5). “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito. O meu Servo, o justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos” (v.11). “Por isso eu lhe darei muitos como a sua parte e com os poderosos repartirá ele o despojo” (v.12).
O fruto do seu penoso trabalho é a reconciliação da humanidade com Deus (Rm 5.11; 2 Co 5.19). Para expressar isto a Bíblia usa palavras como: expiar (Dn 9.24), propiciação (Jo 2.9), resgatar (Mt 20.28), salvar (Mc 10.41), remir (Tg 2.14). Há, agora, perdão para todos. Todos foram salvos, resgatados, redimidos (salvação objetiva). Só Deus foi capaz de realizar esta obra.
Esta salvação não é aplicada à humanidade automaticamente, mas oferecida, aplicada e selada por meios, a saber, pela palavra de Deus e os sacramentos. O apóstolo afirma: “Ele nos confiou a palavra da reconciliação” (2 Co 5.19). Por meio desta palavra o Espírito Santo chama, ilumina e congrega, conduz ao reconhecimento de nossos pecados e da culpa que pesa sobre todos nós. Mostra-nos o Salvador Jesus e opera a fé em todos os que não lhe resistem obstinadamente. A fé é a mão que recebe e se apega à graça de Cristo. Pela graça de Cristo somos declarados perdoados e justos. (Ap IV.72) (salvação subjetiva). Pela fé voltamos à comunhão com Deus para viver uma vida com Deus neste mundo e na eternidade.
Sublime amor de Deus em Cristo Jesus. Como agradecer a Deus por tamanho amor? Queremos louvá-lo e proclamar este amor de Cristo por palavras e obras. Amém.
São Leopoldo, 03/04/2009
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