quinta-feira, 20 de março de 2008

Páscoa: Cristo ressuscitou! Aleluia!

Páscoa

Páscoa, feriado. Só!? Não! Páscoa é a grande festa, o júbilo pela vitória de todas as vitórias. A vitória de Cristo sobre pecado, morte e Satanás. Sua vitória é nossa vitória. Páscoa é a festa das festas, pela qual todas as outras festas cristãs se orientam. Páscoa é a festa na qual nossos pais não ajoelhavam, pois é festa de júbilo. Festa na qual todos procuravam estar presentes no culto e os enfermos e idosos, impossibilitados de estarem no culto, quando ouviam o bater dos sinos, jubilavam e oravam juntos em casa. Mas, o que é feito desta festa? Quem ainda compreende e comunga esta alegria e esperança?
Infelizmente, mesmo muitos cristãos, já não intendem mais o significado da páscoa. Pois, as concepções a respeito da ressurreição são as mais variadas. Uns só acreditam na imortalidade da alma e outros a negam. Muitos negam a ressurreição, outros pensam numa nova criação, e falam até em reencarnação, etc.
Por tudo isso é importante revermos o significado da doutrina da ressurreição. Queremos fazê-lo mediante a pergunta do nosso Catecismo Menor:

Por que a ressurreição de Cristo é tão consoladora para nós?
Vamos rever o
1. o fato histórico,
2. o consolo,
3.e de como este consolo se torna nosso: pela fé.

1. História. – Em primeiro lugar vamos relembrar a história da Páscoa. É uma história impressionante. Cada evangelista a descreve de um ângulo diferente. Os quatro evangelhos, no entanto, forma um todo.
a) Inimigos. – Impressionante notar que os inimigos de Cristo foram os primeiro que relembraram a afirmação de Jesus de que ele ressuscitaria no terceiro dia. Esta palavra os deixou intranqüilos. Pediram a Pilatos que colocasse guardas no sepulcro, com a desculpa de que os discípulos poderiam roubar o corpo. E ao ouvirem a notícia da ressurreição, não duvidaram, nem correram para o sepulcro, mas planejaram imediatamente destruí a verdade por meio de mentiras. E continuam assim até hoje.
b) A ressurreição. - No terceiro dia após sua morte, no primeiro dia da semana, o nosso domingo, de manhã, Jesus foi vivificado. Isto é, ele uniu sua alma ao seu corpo, pois ambos estavam unidos à natureza divina. Vivificado, Jesus desceu ao inferno para proclamar sua vitória a Satanás. Ele saiu da sepultura sem mover nada. Estando a sepultura vazia, Jesus enviou um anjo para que removesse a pedra, para que todos pudessem ver que ele ressuscitara. O anjo desceu como um relâmpago do céu e com um estrondo, um tremor de terra, removeu a pedra. Os soldados caíram desmaiados. Recobrando os sentidos, fugiram apavorados. Eles foram direto aos fariseus anunciar o acontecido.
c) Os discípulos. Enquanto isso, os discípulos estavam atrás de portas e janelas trancadas, cheios de medo. Não lembravam as palavras da ressurreição. Mas, algumas mulheres, que haviam acompanhados Jesus, foram cedo à sepultura. Saíram, provavelmente, de duas casas diferentes e se encontraram no meio do caminho. No caminho lembraram-se da grande pedra diante da sepultura e se perguntavam: Quem nos removerá a pedra? Chegando mais perto, Maria Madalena viu que a pedra do túmulo fora removida. Apavorada com o fato, ela voltou imediatamente para o anuncia-lo a Pedro. Enquanto isso, as outras mulheres foram até o sepulcro. Ali foram avisadas por anjos de que Jesus ressuscitara. Os anjos lhes disseram: Porque procurais o vivo entre os mortos? (Infelizmente muitos ainda hoje o procuram entre os mortos). As mulheres voltaram correndo. No meio do caminho Jesus se manifestou a elas. Depois se manifestou à Maria Madalena, a Pedro, e ao cair do dia aos discípulos de Emaús, à noite a todos os discípulos, e uma semana depois novamente a todos e a Tomé. E na Galiléia, durante 40 dias, Jesus apareceu várias vezes a muitos discípulos e uma vez a mais de 500 pessoas.
É impressionante notar que os inimigos não duvidaram a ressurreição, enquanto os discípulos custaram a crer. Mas isto é consolo para nós e confirma a veracidade da ressurreição. Cristo de fato ressuscitou. Isto é a base de nossa fé cristã, nossa alegria e nossa esperança.

2. Por que a ressurreição é tão consoladora para nós? E qual é este consolo?
Para compreendermos esta consolação, precisamos relembrar o nosso estado sob a lei. Deus é santo e disse: Santo sereis, porque eu o Senhor vosso Deus sou santo (Lv 19.2). E: A alma que pecar, essa morrerá (Ez 18.20). Nenhum pecador verá a minha face, sem que morra (Êx 33.11). A lei exige, ameaça e condena. Ela não conhece misericórdia. Nascemos sob o jugo da lei. Nascemos pecadores, réus da eterna condenação, Pois, não há justo nenhum sequer (Rm 3.10). Esta lei foi inscrita em nossos corações, mesmo que parcialmente apagada pela queda em pecado, nosso consciência nos acusa. E Deus quer que ouçamos sua palavra, na qual sua lei brilha com fulgor, como forte luz, para aguça nossa consciência.
Mas, o que acontece? Não se medita na lei. Há uma fuga dela. Não se quer ouvir a lei. As pessoas preferem viver num falso positivismo, iludindo-se a si mesmas, dizendo: Não sou tão mau assim. Não sou pior do que os outros. Ou então: Que culpa tenho eu, nasci pecador. Deus não vai castigar todos. Deus é amor. Outros procuram sufocar a voz de sua consciência, etc. Enganam-se. Quando sua consciência acordar e compreenderem a seriedade da lei de Deus, vão desesperar. Pois diante da acusação da lei não encontramos consolo em nenhum lugar, a não ser quando em verdadeiro arrependimento nós nos refugiamos na graça de Cristo. Quando o coração é tomado pelo medo de Deus, do juízo de Deus, da morte, tudo em nossa volta perde seu valor. Nem vida, nem saúde, nem riqueza nem divertimentos poderão nos consolar. Só em Cristo encontramos verdadeiro consolo, porque só ele cumpriu perfeita a lei de Deus, só ele tomou nossos pecados sobre si e pagou por eles, acalmando a ira de Deus. Só nele encontramos verdadeiro consolo contra as acusações da lei e de nossa consciência. “Ele foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação” (Rm 4.25). Isto é daquele que realmente se arrepende e confia na graça de Cristo, que suplica perdão a Deus e se apega confiante no evangelho. Pois quem não crê, já está julgado e condenado, enquanto não crer. Mas quando nós nos voltamos a Cristo, então podemos jubilar com o apóstolo Paulo: Quem nos condenará? É Deus quem nos justifica. (Rm 8.34).
E mais. Na luz da palavra de Deus, vemos que Cristo não salvou somente nossa alma, mas a nós como pessoa de corpo e alma. Fomos criados corpo e alma, não para viverem separados, mas unidos eternamente. Assim como pela queda, corpo e alma foram afetados pelo pecado, também pela obediência e morte vicária de Cristo, corpo e alma foram redimidos. Mesmo que a plena redenção do corpo esteja reservada para o futuro, a saber, o dia do juízo final, o dia da grande ressurreição da carne, é um fato consumado, pois a morte já foi vendida.
Ao Jesus ressuscitar com o seu corpo, o mesmo corpo que fora deitado na sepultura, prova que também seremos ressuscitados. Ele mesmo disse: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente” (Jo 11.25,26).
E o que vem a ser esta ressurreição da carne? O que significa quando confessamos no Credo Apostólico: Creio na ressurreição da carne? Niceno: Espero a ressurreição dos mortos. Apologia XVII: “E que ressuscitará todos os mortos.” Cremos que Deus levantará do pó da terra o meu corpo. E este será o meu corpo, os meus olhos, a minha pele, como confessou Jó (Jo 19.25). Mas agora liberto de todo o pecado e de tudo o que o pecado estragou. Este corpo será revestido com novas qualidades para a vida com Deus. O apóstolo Paulo chama isto de “corpo espiritual”, não no sentido do que não tivesse mais corpo, mas as qualidades são agora espirituais, e será revestido de glória, seremos semelhantes a Cristo. Esta é nossa fantástica esperança. Não cremos numa reencarnação, mas na ressurreição da carne. Para vivermos com Cristo em glória eterna. Maravilhoso, inimaginável.

3. Pela fé esta vitória se torna nossa.
Como esta vitória, este consolo, esta esperança se torna minha? Como posso ter certeza de que tudo isso será realmente meu?
Talvez um pequeno exemplo: O que o malfeitor, que foi condenado à morte e está preso deve fazer ao receber a notícia: Você pode sair. Um amigo pagou-lhe a fiança. Você está livre. Tal pessoa sem dúvida pulará de alegria e aproveitará a porta que lhe foi aberta para sair. Nada mais ele precisa fazer do que pular de alegria e sair da prisão.
O que acontecerá, no entanto, se o malfeitor disser ao carcereiro: Não aceito esta fiança e rejeitar o presente? Esta oferta talvez ficará, por um tempo, à sua disposição e se não a aceitar a porta se fechará par sempre.
Cristo salvou a todos. Chamamos isto de salvação objetiva. E nos confiou a palavra da reconciliação, dizendo: Deixai-vos reconciliar com Deus. E todo aquele que dá ouvidos à palavra de Deus, se arrepende de seus pecados e confia na graça de Cristo, este tem o que as palavras lhe oferecem, dão e selam. A saber: perdão dos pecados, vida em comunhão com Deus e a esperança da vida eterna, da ressurreição da carne para a vida eterna na glória de Deus. Mas quem não o crer, também será ressuscitado, mas para a eterna condenação.
Esta graça aceita por fé, tem enormes conseqüências em nossa vida. Opera em nós uma vida nova. Dá-nos força para lutarmos por vida santificada, para amarmos a Deus e o próximo.

Conclusão
Porque a ressurreição é tão consoladora?
1. Ela prova incontestavelmente que Cristo é o verdadeiro Filho de Deus e verdadeira a sua doutrina; 2. Que Deus Pai aceitou o sacrifício de seu Filho
3. Que, assim como Cristo ressuscitou, nós também ressuscitaremos.
Jubilamos com o poeta sacro: A Cristo coroai, a vida nos doou, e, a fim de dar-nos salvação, da tumba triunfou. Cantemos seu poder: morreu, mas ressurgiu, a vida eterna nos ganhou e a morte destruiu.
A Cristo coroai, dos tempos é Senhor, e do universo imenso é Deus, eterno Criador. A o grande Redentor, que deu-nos salvação, eternamente tributai louvor e adoração! (HL 122.3,4).
(http://kuchenbecker.blogspot.com) São Leopoldo, 18/03/2008
Horst R. Kuchenbecker

segunda-feira, 17 de março de 2008

Ao pé da cruz. Sexta-feira Santa

Sexta-feira Santa

2 Coríntios 5.19: Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, deixai-vos reconciliar com Deus.

Sexta-feira Santa é sem dúvida alguma o dia mais importante da história da humanidade. Neste dia aconteceu o maior crime já cometido neste mundo: A criatura crucifica seu Criador. Ao mesmo tempo é o dia mais jubiloso para a humanidade, pois neste dia, Jesus, o Filho de Deus paga, com o derramar do seu santo e precioso sangue divinal, o resgate a Deus Pai pela culpa da humanidade. Pelo entrar na morte, venceu a morte.
Por essa razão a cristandade tem celebrado esse dia com silêncio meditativo e ao mesmo tempo com reverente júbilo e paz no coração.
Vamos colocar-nos, por alguns minutos, ao pé da cruz, para meditar sobre o amor de Deus, revelado em Cristo Jesus, destacando especialmente

A gloriosa morte de Cristo.
1) Os acontecimentos que a cercaram.
2) A pessoa que ali morre.
3) Os frutos desta morte.

1)Os acontecimentos que a cercaram a morte de Cristo. - Nesta Sexta-feira Santa, três condenados foram conduzidos pelas ruas de Jerusalém, carregando cada qual a sua cruz, rumo ao Calvário. Chegados ao monte, os condenados foram impiedosamente pregados e fixados nas cruzes que foram erguidas. Aparentemente eram três miseráveis condenados a esses suplícios, muito comuns na época.
Erguidas as cruzes, notamos que a atenção principal volta-se ao homem que estava no centro. A multidão, reunida para este espetáculo, zombava dele e gritava: Se és Filho de Deus, desce da cruz. Ajudou ao outros e não pode ajudar-se a si mesmo! Notava-se também que esse homem sofria calado, enquanto os outros dois, conforme relato de historiados da época, gritavam de dor, amaldiçoavam a Deus e seus algozes.
De repente Jesus abriu sua boca e exclamou: Pai perdoa-lhe, porque não sabem o que fazem! Incrível! De seu coração brotou profundo amor para com seus inimigos, a ponto de orar por eles. Mas não somente por eles, mas em favor de toda a humanidade. É este seu amor e sua oração que ainda hoje nos protegem, para que Deus não nos castigue de imediato, mas nos concede tempo para arrependimento.
O primeiro resultado dessa sua oração foi a conversão de um dos malfeitores, que arrependido reconhece a Jesus como o Messias prometido, o Salvador da humanidade. E assim, mesmo em sua total indignidade, confiante neste Salvador, suplica: Lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E Jesus lhes responde: Hoje estarás comigo no paraíso.
Pouco depois, vendo Jesus o sofrimento de sua mãe, pede a seu discípulo João que cuide dela, mostrando assim seu profundo amor filial.
Ao meio dia, o sol escureceu. Houve trevas sobre a face da terra. Há registros nos anais de Roma, na Grécia e no Egito desse acontecimento. Algo muito extraordinário e assustador. A criatura escondeu seu rosto de diante do profundo sofrimento do seu Criador.
Após três horas de escuridão, Jesus exclamou: Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste. Lutero escreveu: “Deus por Deus desamparado, quem o compreenderá.” O Filho de Deus sofreu os horrores do inferno, o abandono de Deus em nosso lugar. Estamos diante do profundo mistério da salvação.
Então exclamou: Tenho sede! Jesus que disse: Aquele... que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, (Jo 4.14) está padecendo sede, a fim de poder dar-nos da fonte da água da vida. (Ap 21.6) E após sugar de uma esponja um pouco de vinagre que lhe alcançaram, exclamou em alta voz:
Está consumado! A maior obra nesta terra estava consumada. A obra da salvação da humanidade. Por seu sofrer e sua morte de cruz, Jesus reconciliou a humanidade com Deus. Desta reconciliação toda a Trindade participou. O Filho unigênito de Pai pagou a conta das culpas da humanidade ao Pai, acertou com o Pai a dívida da humanidade, pagando ele próprio, pelo cumprir da lei, pelo sofrer na cruz e pelo entrar na morte. Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo. E nós podemos cantar: Agora temos salvação por graça e por bondade. As obras não nos salvarão, são vãs na adversidade. Na fé confiamos em Jesus, que tudo fez por nós na cruz, sofrendo em humildade (HL 373.1)
Então disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E inclinando a cabeça expirou.
Neste momento houve um forte tremor de terra. Sepulcros se abriram. Mortos foram ressuscitados, mas permaneceram reverentes nas sepulturas até que Jesus ressuscitasse no primeiro dia da semana.
Eram três horas da tarde. Hora do sacrifício da tarde. A grossa cortina de seis centímetros de espessura, que separava no templo o lugar chamado Santíssimo do Santo, rasgou-se de alto abaixo, para indicar o fim do Antigo Testamento, o fim dos sacrifícios e das leis cerimoniais e o início do Novo Testamento, que proclama a salvação por graça pela fé em Cristo Jesus. Extraordinários sinais envolveram a morte de Cristo. Por isso perguntamos: Quem era este que morreu na cruz?

2)A pessoa que ali morreu. - Nós o sabemos e o confessamos no Credo Apostólico. É Jesus, “verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, meu Senhor.” O apóstolo João escreveu: Nisto se manifestou o amor de Deus em nós, em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para vivermos por meio dele. (1 Jo 4.9) Não podemos esquecer que ali não sofreu simplesmente um homem. Se Jesus fosse simplesmente um homem, de nada nos adiantaria seu sacrifício. Mas ali sofreu o verdadeiro Filho de Deus, que foi feito pecado por nós (2 Co 5.17). Ele morreu pelos nossos pecados. (1 Co 15.3) Em Cristo Deus sofreu por nós. Por isso o apóstolo Pedro afirma: Matastes o autor da vida (At 3.15) E o apóstolo Paulo afirmou: Crucificastes o Senhor da glória. (1 Co 2.8) Jesus também não morreu por simples esgotamento físico. Ele próprio entregou sua alma às mãos de Deus. Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. (Lc 23.46) Pois Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando (atribuindo) aos homens as suas transgressões. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos. (Romanos 5.19 RA) Aqui está o Filho de Deus, Deus e homem, sofrendo a culpa da humanidade, para nos conquistar a eterna salvação. E por que teve de sofrer tanto?
Ao pé da cruz, ouvindo a palavra de Deus, aprendemos o que o coração humano está corrompido pelo pecado. Quer sejamos pessoas religiosas, com vida honrada, que se esforçam pelo bem, ou pessoas malvadas que se alegram e vivem em pecados, o coração humano de todos está corrompido pelo pecado. O apóstolo Paulo afirmou: O pendor da carne é inimizade contra Deus. (Romanos 8.7 RA) E nós o sentimos diariamente. Por outro somos lembrados que o pecado não é somente errar o alvo, mas ofensa a Deus. O pecado nos torna réus da ira de Deus. E o escritor aos Hebreus afirma: Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. (Hebreus 10.31 RA) Só o sacrifício do Filho de Deus foi capaz de reconciliar a humanidade com Deus. E quais são os frutos deste sacrifício?

3)Os frutos desta morte. O profeta Isaías afirma: Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. (Isaías 53.11 RA) Qual é este fruto? Vamos valer-nos da definição de nosso Catecismo Menor. “De que Cristo me remiu? Cristo me remiu, isto é, me libertou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo. Ele obteve a vitória sobre o pecado, a morte e Satanás.” Como? O pecado não continua grassando no mundo cada vez mais. A morte não ceifa diariamente milhares de vida? Satanás não atua de forma cada vez mais agressiva neste mundo? Sim. Como poderemos, então, afirmar que eles foram vencidos e derrotados?
Deus nos confiou a palavra da reconciliação. Esta salvação nos é oferecida em sua Palavra e por seus sacramentos. Por meio de sua palavra Deus nos chama poderosamente ao arrependimento e à fé na graça de Cristo. Esta graça, no entanto, é resistível e rejeitável. Quem rejeita a palavra da salvação, quem não se arrepende de seus pecados e não confia na graça de Cristo, permanece sob o domínio do pecado, do poder da morte e de Satanás. Mas quem crer é libertado.
Mas, que libertação é essa? Não sentimos nós cristãos o pecado atuar violentamente em nossos próprios corações? Não sentimos as tentações de Satanás? Não trememos diante da morte com todos os seus horrores, dores e sofrimentos? Sim.
Nossa natureza carnal não muda, dela brotam diariamente tentações. O mundo em nosso derredor nos tenta. Milhares de cristãos são, por causa de sua fé, presos, judiados, desterrados e mortos. Estamos expostos a sofrimentos e injustiças. A luta é árdua. Mas, temos a vitória. Nosso Catecismo o define assim, Cristo nos libertou: a) do pecado: da dívida, do castigo e do domínio do pecado; b) da morte: não preciso temer a morte temporal, porque a morte eterna não tem mais poder sobre mim; c) de Satanás: Cristo venceu o diabo, de modo que este não me pode acusar mais e eu agora posso resistir vitoriosamente às suas tentações. – Continuamos a ser tentados, mas somos consolados com o perdão nas fraquezas e quedes. A morte nos faz tremer, porque se rompe o laço mais íntimo em nós, o laço entre corpo e alma, mas somos consolados com a certeza de que Cristo transformou nossa morte em porta para o lar celestial. O diabo ruge em nosso derredor, mas podemos resistir vitoriosamente e ele não tem mais o direito de nos acusar diante do Pai.
Jubilosos nós entoamos o canto dos santos anjos, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra... Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos. E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram. (Apocalipse 5.9-14 RA)
Assim adoramos hoje com todos os salvos e todos os anjos. Amém.
São Leopoldo, 16/03/2008
Horst R. Kuchenbecker

As Sete Palavras de Jesus na Cruz

As sete palavras de Jesus na cruz

As últimas palavras de uma pessoa são, normalmente, guardadas e relembradas com carinhos por familiares e amigos. Não há, no entanto, palavras mais importantes do que as últimas sete palavras de Jesus, pronunciadas na cruz.
São exatamente sete, o número que na Bíblia tem um significado sagrado.
Outra curiosidade é que a primeira, a quarta e a última palavra são endereçadas a Deus, sendo que a primeira e a sétima a Deus Pai. Nas três primeiras, Cristo está preocupado com outros, nas quatro últimas consigo mesmo.
Quando, em que hora, estas palavras foram pronunciadas? Cristo foi crucificado, às 9h da manhã de sexta-feira (Mc 15.25). Do meio dia até às três da tarde houve trevas, uma grande e incomum escuridão. (Mc 15.33-37) Jesus ficou mais ou menos seis horas na cruz, que podem ser divididos em três períodos: primeiro período, à luz do dia, segundo período, na escuridão, (Lc 23.44) terceiro período, breve, após a escuridão até a morte. As primeiras três palavras foram pronunciadas no período da luz, a quarta palavras no período das trevas, as últimas três no período final.

As sete palavras no Antigo Testamento:
1. A primeira palavra, Jesus ora por seus inimigos. Isto foi o cumprimento das palavras do profeta Isaías 53.12: E pelos transgressores intercedeu.
2. A segunda palavra, na qual promete o paraíso a um dos malfeitores, é o cumprimento de Isaías 53.10,11: E prolongará os seus dias... Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma.
3. A terceira palavra reflete seus dever para com sua mãe. (Ex 20.12)
4. A quarta palavra é do Salmo 22.1. Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?
5. A quinta palavra é o cumprimento do Salmo 69.21: Por alimento me deram fé, e na minha sede me deram a beber vinagre.
6. A sexta palavra pode ser relacionada ao Salmo 22.31: Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez.
7. A sétima é do Salmo 31.5: Nas tuas mãos entrego o meu espírito.
Numa análise das sete palavras constatamos o seguinte: as primeiras três palavras revelam sua profunda compaixão; a quarta e quinta, seu árduo trabalho; a sexta e sétima seu triunfo.

Análise:

1ª. Palavra – Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. (Lc 23.34)
Era a hora das trevas. (Lc 22.53) Homens honrados e letrados, autoridades civis e eclesiásticas, e também o povo que tanto foi beneficiado por Jesus, todos gritavam: Crucifica-o! Crucifica-o!
Eis o retrato do coração humano. O homem, após a queda de Adão e Eva, tornou-se escravo de Satanás. Ele é inimigo de Deus. Vive em constante rebeldia contra o seu Criador. Está sujeito à condenação. Por isso o apóstolo Paulo exclamou: Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? (Romanos 7.24 RA)
Enquanto os homens zombam ao pé da cruz, o que Deus Pai estaria pensando? Jesus conhece o coração do Pai e vê como a ira do Pai se acende, então exclama, como que para barrar a ira divina: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. (Lucas 23.34 RA) Não os castigues em teu furor. Eles estão cegados por seu ódio. Dá-lhes tempo para arrependimento. Que amor!
Esta oração nos tem protegido até hoje. Se Deus nos castigasse imediatamente quando pecamos onde estaríamos? Quantas vezes já experimentamos este amor? Quantas vezes Jesus nos abriu os olhos e então nos consolou com sua graça. Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.

2ª. Palavra – Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso. (Lucas 23.43 RA)

Salvo na última hora, como um tição tirado do fogo.
Dois judeus que, quando crianças, foram instruídos na palavra de Deus. Mas Satanás conseguiu enreda-los na juventude e afasta-lo do caminho de Deus. Enveredaram pelo caminho do crime. Terminaram miseravelmente na cruz. No seu desespero, zombam de Jesus como os demais. Um deles, no entanto, ouvindo as palavras de Jesus, observando o seu comportamento, lembrando o que aprendera quando criança chegou ao reconhecimento da verdade. Em profundo arrependimento confessa Jesus como Rei. Suplica por perdão. Sua fé brilha numa ação missionária em relação ao seu companheiro, a quem adverte. Suporta pacientemente as dores da crucificação. Jesus o recebe. O absolve de seus pecados e lhe promete o céu aberto. Hoje estarás comigo no paraíso. A morte não é o fim. Há vida após a morte.
Tudo isso, Jesus nos oferece ainda hoje em sua Palavra e por seus sacramento. Bem-aventurados os que dão ouvidos a palavra de Deus e não se escandalizam nela, mas crêem. Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.


3ª. Palavra - Mulher, eis aí o teu filho... Eis aí tua mãe. (Jo 19.26,27)

Jesus cuidou dos seus até a última hora. Ele amou sua mãe e encarregou seu “discípulo amado” para cuidar dela. O discípulo João aceitou a incumbência e cuidou dela. Pois José seu pai, provavelmente já havia falecido e seus irmãos só vieram a crer mais tarde. Conta a história que João foi residir com ela em Éfeso, onde ela faleceu.
O amor revela-se, em primeiro lugar, na vida familiar e na vida da congregação. Pois, se alguém não tem cuidado dos seus, e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente. (1 Timóteo 5.8 RA) Foram os cristãos que, por amor a Cristo, criaram hospitais, lares para crianças órfãs, excepcionais, bem como lares para abrigar indigentes e idosos.
Nós o fazemos até hoje na confiança da graça de Cristo que supre nossas necessidades. Jesus disse: O Rei (Jesus), respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes. (Mateus 25.40 RA) Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão. (1 Coríntios 15.58 RA) Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.


4ª. Palavra - Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46; Mc 15.34)

Desamparado. Coisa terrível. Hoje temos muitos desamparados. Mas o pior desamparo, a maioria por enquanto nem sente, é ser desamparado por Deus. O pecado nos separa de Deus. O profeta afirma: As vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. (Isaías 59.2 RA) Mas quando damos ouvidos à palavra de Deus, o Espírito Santo pela lei nos convence de pecado. Então a pessoa começa a sentir o que significa ser desamparado por Deus. Chamamos isto de o terror de consciência.
A fim de nos reconciliar com Deus, Jesus suportou a ira divina e as dores infernais, o ser desamparado por Deus. Deus por Deus desamparado, quem o compreenderá? Estamos diante do grande mistério da salvação. Este é o mistério do amor de Deus. Jesus foi desamparado, para que toda a pessoa que confiar na graça de Cristo não seja mais desamparado por Deus. O apóstolo Paulo afirma: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. (2 Coríntios 5.19 RA) Só podemos adorar e agradecer. Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.


5ª. Palavra - Tenho sede! (Jo 19.27)

Deus criou o mundo para uma vida plena e harmoniosa, mas o pecado destruiu tudo. As conseqüências são o que vemos: angústia, aflições, sofrimentos e morte. Tudo isso é só o prelúdio do sofrimento que segue, o sofrimento eterno, no inferno, dos quais a sede é um dos sofrimentos principais, como o vemos na história o rico incrédulo (Lc 16.19-31)
Em seu amor à humanidade, Jesus entregou-se voluntariamente aos sofrimentos. Enquanto pessoas bebem da taça dos prazeres humanos, Jesus sofre sede, para nos trazer o perdão., Para que toda a pessoa que em sua angústia clamar a Jesus, possa receber perdão, e receber no cálice da Santa Ceia, em, com e sob o vinho o verdadeiro corpo e sangue de Cristo, dados e derramados para perdão dos pecados, como selo do pleno perdão dos pecados. Cumpre-se então o que Jesus disse à mulher no poço de Jacó, onde Jesus afirmou: aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. (João 4.14 RA) Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a água da vida (Ap 22.17) Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. (Jo 7.37,38) Grato ou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.

6ª. Palavra - Está consumado! (Jo 19.30)

A maior batalha de todos os tempos, travada neste mundo, chega ao fim. Jesus cumpriu toda a lei, toda a Escritura. Por seu sofrer e morrer na cruz pagou o preço pela salvação da humanidade. Reconciliou a humanidade com Deus. Esta era a razão pela qual ele veio ao mundo. Agora há perdão dos pecados, vida em comunhão com Deus e a esperança da vida eterna para toda a pessoa que arrependida de seus pecados confia nesta graça de Cristo. Pois diz nosso Catecismo: Quem crê nesta promessa de Deus tem o que estas palavras lhe oferecem, dão e selam, perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna... Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. (João 3.16,18-19 RA)
Que consolo. Em vão são todos os ensinos das falsas religiões. Vãs são todas as missas e sacrifícios que querem completar esta obra de Cristo. Não há o que completar. Está consumado. Que alegria. Com esta verdade que nós nos consolamos no batismo, na absolvição e na Santa Ceia. Pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie (Ef 2.8,9)
E, revigorados com a mensagem do perdão louvamos e servimos e amamos a Deus de coração, como filhos amados amam seu Pai amado.. Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.


7ª. Palavra - Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! (Lc 23.46)


7. Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. (Lc 23.46) Estas palavras pronunciadas com voz forte e clara, mostras que Jesus estava no controle de toda a situação e de sua vida, mesmo de sua morte. Ele tinha tudo em suas mãos. Ele não faleceu porque as forças físicas do seu corpo se haviam esgotado. Ele entregou voluntariamente sua alma nas mãos do Pai. Numa árvore o paraíso, o céu foi perdido; numa árvore, a cruz, o paraíso foi reconquistado.
Todo o momento da morte é de certa forma também para nós cristãos um momento de aflição, pois nela se rompe o laço mais íntimo em nós, o laço que une corpo e alma. A morte não é algo natural. Ela se intrometeu por causa do pecado, é salário do pecado. (Rm 6.23) Não fomos criados para a morte, mas para a vida.
Somente pela fé na graça de Cristo podemos enfrentar este momento com esperança, e dizer com Jesus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E saber que passa da morte para a vida com Deus.
Não vemos a morte como uma libertação do espírito, com desprezo ao nosso corpo material. Não! Nós temos a certeza da ressurreição da carne. No dia do juízo final, quando Cristo retornar em glória para julgar vivos e mortos, então o corpo será ressuscitado, corpo e alma serão novamente unidos. Os crentes viverão em eterna felicidade com Deus, enquanto os incrédulos serão condenados de corpo e alma ao fogo eterna. Feliz quem morrer na fé no Salvador. Grato sou por tanto amor, meu bendito Salvador. Amém.
São Leopoldo, 16/03/2008
Horst R. Kuchenbecker

terça-feira, 11 de março de 2008

Humilhação de Cristo

Domingo de Ramos
Introdução
Neste domingo de Ramos, os textos nos convidam a olharmos para nosso Rei Jesus. O Rei que, em sua entrada triunfal em Jerusalém, vem humilde, montado num jumento. Somos convidados a observar a humildade de Cristo e sua paixão, seu modo de pensar e agir. E então, como filhos de Deus pela fé na graça de Cristo, suplicar que o espírito de Cristo nos dirija. Ou como diz o nosso texto: Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.

Vejamos:
1° Qual foi este sentimento de Cristo?
2° Como este sentimento nos dirige?
3° A exaltação final.

1° Tende em vós o mesmo sentimento de Cristo. Qual foi este sentimento?
Que espírito domina nosso século? Qual a principal causa das dificuldades no relacionamento dos casais no matrimônio, na educação dos filhos, no relacionamento de patrão e empregados? Sem dúvida o nosso egoísmo e nossa vaidade. Cada qual procurando se sobrepor ao próximo para obter vantagens.
Desde a queda do homem em pecado - e este pecado foi o orgulho, o querer ser como Deus - nascemos com o pecado original, cujo centro é o egoísmo. Este pecado nos separou de Deus e abala continuamente nosso relacionamento com o próximo. Para salvar-nos desta situação, Jesus veio ao mundo. E ele fez o contrário do que Adão e Eva. Ele se humilhou profundamente. Em que consistiu esta humilhação?
Jesus é verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e verdadeiro homem, nascido da virgem Maria. Desde sua concepção, Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Duas naturezas distintas e inseparáveis, em uma só pessoa.
Esta verdade desencadeou grandes discussões na igreja cristã. Muitas denominações cristãs, afirmam que o finito não é capaz de reter em si o infinito. Isto é, que Jesus homem não pode reter o Jesus Deus. Mas em Jesus, estas duas naturezas estão unidas de forma distinta e inseparável, Jesus é Deus e homem. Deus, gerado do Pai desde a eternidade e homem nascida da virgem Maria.
Mas, em que, então, consistiu a humilhação de Cristo? Não no fato de ter-se tornado homem, pois ainda hoje ele é verdadeiro homem. Como homem, ele tinha o direito de na terra fazer pleno uso de seus poderes e de sua majestade divina. E aí aconteceu o grande milagre e mistério da humilhação de Jesus.
Diz o nosso texto: “Pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus.” Vejam bem: “Subsistindo em forme de Deus.” Ele era Deus e em nenhum momento de sua vida deixou de sê-lo. “Mas ele não julgou como usurpação o ser igual a Deus.” Usurpar é roubar. Esta palavra precisa ser compreendida neste contexto. Numa mais detalhada poderíamos dizer: Embora sendo Jesus verdadeiro Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que ele deveria apegar-se, ou ostenta-lo, como um ladrão que ostenta ou se orgulha de seu roubo.
Vejam, quando alguém vai à luta, ele ostenta sua força e suas armas, para impressionar o inimigo. Ele esbraveja contra o inimigo. Ele enche seu peito de orgulho. Vemos isto, por exemplo, no esporte e nas guerras. Jesus o verdadeiro Deus, não se valeu do seu poder. Ele não veio para mostrar e ostentar seu poder e sua majestade. Ele veio não para julgar, mas para salvar a humanidade, e para isso se subordinou à vontade do Pai. Jesus se humilhou. Nosso Catecismo Menor o define assim: “A humilhação de Cristo consistiu em não ter ele usado sempre e inteiramente a majestade divina, comunicada à sua natureza humana” (CM, perg. 155). Ele não usou sempre e inteiramente seu poder e sua majestade divina. Só vez por outra deixou transparecer seu poder divino quando fez milagres, curou, andou sobre o mar, acalmou a tempestade. No mais, andou tão humilde que as pessoas que o viam julgavam ser ele um mortal qualquer, como todos os outros. Devido a seus milagres, alguns o consideraram no máximo ser um profeta. Só aos discípulos Jesus revelou sua glória e eles confessaram: “Tu és o Cristo, o filho unigênito de Deus.”
Jesus não só se humilhou, mas adotou a forma de servo. Ele foi o mais humilde e sofredor de todos os servos, até a morte de cruz. “Homem de dores, que sabe o que é sofrer” (Is 53.3), de quem as pessoas escondem o seu rosto. Impressionante! Que imenso amor, Jesus revelou à humanidade.
Este era o único caminho para nos salvar de nossa vaidade, de nosso egoísmo, de nossa insubordinação.
Em que consistiu então o sentimento de Jesus? Em ele não ter pensado em si, mas se sacrificado em amor ao próximo.
O mundo fala muito de humildade, mas nada entende. Humildade só se aprende ao pé da cruz, junto ao Salvador que se despojou de sua glória e se tornou servo de todos, por amor.

II - Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus. Como este sentimento entra e nosso coração e nos dirige?
Quando reconhecemos, à luz da lei de Deus, os nossos pecados, este nosso egoísmo, nosso orgulho, nossa vaidade, que é o cerne do pecado original e o quanto isto nos separou de Deus e nos lançou sob a ira de Deus, sendo a causa de todas nossas dificuldades, especialmente no relacionamento com Deus e o próximo. Quando vamos arrependidos a Cristo para lhe suplicar perdão. E quando ouvimos as palavras: Tem bom ânimo filho, teus pecados estão perdoados. E precisamos ouvir isto semana após semana na absolvição e lembrar isto todos os dias da semana. A paz de Deus inunda nossa alma, nos consola e nos reergue. E, consolados e erguidos, olhamos para Cristo que por seu Espírito, passa dirigir nossa mente, nossos sentimentos e nosso agir. Ele implanta em nós “o mesmo sentimento que houve também nele.” Esta humildade, este verdadeiro amor que serve e não se sobrepõe ao outro, mas se subordina em verdadeiro amor serviçal. Que não pensa em si, nem procura o que é seu, mas procura o bem do próximo e serve.
“Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.” Para compreendê-lo melhor, precisamos nos apegar aos meios da graça. Ouvir a palavra de Deus, pela qual o Espírito de Cristo fala ao nosso coração, tanto para repreensão, para consolo, como para mostrar a direção a seguir e o que fazer. Sim, a fé atua pelo amor. Por isso oramos a pedimos que o Espírito nos faça compreender esta palavra e nos dê forças para tanto. O apóstolo Paulo diz: Nada façais por partidarismo, ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. (v.3,4). Uma outra tradução: “Nada façam por ambição egoísta ou vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.” (v.3,4).
Este sentimento de Cristo nos é mostrado especialmente no evangelho. Ali aprendemos aos pés de Jesus como nos relacionar com as pessoas, no matrimônio, na educação dos filhos, na vida profissional, na sociedade. É verdade que este sentimento de Cristo, no qual o nosso homem tem prazer, é, em nós, afrontado diariamente por nosso “velho homem”, nossa natureza carnal. Vivemos em constante luta. Temos altos e baixos. É preciso lutar e nesta luta nós nos voltamos sempre a Cristo e sua graça que consola, ergue e nos fortalece.

III – Após o que, Jesus foi exaltado.
Após sua profunda humilhação até a morte e morte de cruz, Jesus ressuscitou dos mortos e subiu ao céu. Ele foi exaltado e recebeu um nome acima de todos os nomes. Ele hoje, como verdadeira pessoa humana está no pleno uso de todo o seu poder e de sua majestade divina. E como rei possui os três reinos: o Reino do poder, da graça e da glória. E aqueles que são fiéis a ele reinarão com ele serão exaltados e reinarão eternamente.
O apóstolo escreve: Somos filhos de Deus, mas ainda não se revelou o que havemos de ser. Nós estamos ainda no estado de humilhação. Mas quando ele nos chamar, seremos exaltados, para vivermos com ele em glória eterna. Vem, senhor Jesus. Amém.
São Leopoldo, 08/03/2008
Horst R. Kuchenbecker

terça-feira, 4 de março de 2008

João 11.1-53. A ressurreição de Lázaro

João 11.1-53. A ressurreição de Lázaro

Introdução

Diz o salmista: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam. (Salmos 23.4 RA) O apóstolo Paulo afirma: Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. (Filipenses 1.21 RA) São palavras consoladoras, mesmo assim a morte nos apavora, nosso corpo estremece diante de sinais da morte. Diante de uma dor, já crianças pequenas pergunta apavoradas: Vou morrer? E Deus repete mais de 300 vezes na Bíblia: Não temas! Por que isto é assim? Porque a morte não é algo natural. Ela é uma intrometida. É maldição sobre o pecado. Na morte, o laço mais íntimo entre corpo e alma é rompido. Por mais forte que sejamos na fé, a morte é nossa inimiga. Precisamos sempre de novo olhar para Cristo e lembrar: Não preciso temer, pois Cristo a venceu, e transformou a morte em porta para o céu. Mas para isso precisamos do constante amparo do Espírito Santo, que nos sustente na fé.
Vejamos como os familiares de Lázaro enfrentaram este momento da morte de seu querido irmão e os dias de luto.

História

Por ocasião da festa da inauguração do templo, Jesus estava em Jerusalém. A inimizade dos fariseus e escribas crescia contra Jesus. Eles queriam prender e apedreja-lo. Mas Jesus se retirou para além do Jordão às regiões da Peréia.
O inverno estava terminando e a Primavera à porta. Faltava um mês para a grande festa da Páscoa.
Então o evangelho dirige nossa atenção para Betânia, que fica há uns três km de Jerusalém, no outro lado do monto do Jardim Getsêmani. Ali morava Lázaro e suas duas irmãs. Jesus costumava hospedar-se ali quando vinha a Jerusalém. Eles o amavam e sabiam que Jesus os amava também.
Mas mesmo os queridos filhos de Deus não são poupados do sofrimento e da morte. Jesus tinha dito a seus discípulos: Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo. (João 16.33 RA) Sabemos quantas aflições traz a doença quando bate à nossa porta, tanto para o doente como para seus familiares. São correrias, remédios, orações. E muitas vezes a doença, como neste caso de Lázaro, não cede. Seu caso se agravou. Mandaram então um mensageiro a Jesus com a notícia: Senhor, está enfermo aquele a quem amas. (João 11.3 RA)
Ao Jesus receber esta notícia, disse a seus discípulos: Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado. (João 11.4 RA)

Para a glória de Deus.

Esta doença, este sofrimento e angústia, esta morte, são para a glória de Deus. Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, onisciente e onipotente sabe tudo e dirige tudo para a glória de Deus. Mesmo assim ele quer que levemos a ele nossas preocupações e aflições. Ele ordenou pelo salmista: Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás. (Salmos 50.15 RA) Isto vale para todos os filhos de Deus, sejam eles fortes ou fracos na fé. Queremos invocá-lo na alegria e na dor, no esplendor da vida ou no final da vida, e saber que tudo coopera para o bem daqueles que temem e amam a Deus. (Rm 8.28 RA) Não há um destino cego. Tudo o que acontece aos filhos de Deus tem a finalidade de mantê-los humildes, em espírito de arrependimento e de confiança na misericórdia de Deus, pois desta fé brota o louvor a Deus.

A seu tempo

Mesmo tendo recebido a notícia da doença de seu amigo Lázaro, Jesus não foi logo para Betânia, mas permaneceu ainda dois dias na Peréia. Os discípulos parece que não estranharam, pois sabiam da inimizade dos fariseus. Jesus esperou que Lázaro morresse.
Podemos imaginar quantas perguntas e angústias isto deve ter gerado nos corações de Maria e Marta. Jesus não vem, ainda não vem. Saudosos olhavam para a estrada. Mas nada. Por que não? O irmão veio a falecer. Que tristeza, que angústia. A cerimônia do sepultamento. Mesmo sendo eles tementes a Deus, sabemos como é difícil aceitar a realidade, a partida de um querido familiar. Eles eram uma família muito estimada. Muitos vieram de Jerusalém para consolar. Mas o que é consolo humano nestes momentos. Só Deus pode realmente consolar diante da morte.

Vamos...

Após dois dias, Jesus disse a seus discípulos: Vamos outra vez para a Judéia. (João 11.7 RA) Os discípulos temeram e lhe disseram: Mestre, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá? (João 11.8 RA) Jesus lhes respondeu: Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz. (João 11.9-10 RA) Por estas palavras proverbiais Jesus estava dizendo o seguinte: Enquanto durar o meu tempo – chamado aqui de dia - em que devo atuar na terra, ninguém pode me fazer nada. Isto vale também para todos os fiéis. Ninguém poderá fazer mal aos discípulos, só o que e quando Deus o permitir. E acrescentou: Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo. (v.11)

Lázaro dorme

Os discípulos não entenderam. Então Jesus lhes disse: Lázaro morreu; e por vossa causa me alegro de que lá não estivesse, para que possais crer; mas vamos ter com ele. (João 11.14,15 RA)
Jesus sabe o que estava acontecendo e chama a morte de sono. A morte dos fiéis é um sono. A alma volta a Deus no céu, e corpo à terra, onde descansa até que Deus o desperte no último dia.
Mas os discípulos não entenderam. A razão humana é cega em coisas espirituais. Mesmo ouvindo as palavras claras de Jesus, não entenderam. Que paciência Jesus teve com seus discípulos e tem também com nós, para nos levar a crer o que está escrito. Então, Tomé, chamado Dídimo, disse aos condiscípulos: Vamos também nós para morrermos com ele. (João 11.16 RA)

Em Betânia

Quando após dias chegaram a Betânia, Lázaro já estava sepultado há 4 dias. Quando Marta soube que Jesus estava vindo, ela foi ao seu encontro e lhe disse: Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão. Mas também sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá. (João 11.21-22 RA) Ela inicia a conversa com uma pequena queixa: Se estivesses aqui. Mas acrescenta: Sei que quanto pedires a Deus, Deus to concederá. O que ela queria dizer com isso? Será que ela estava pensando na ressurreição? Em algo grandioso demais para ser expresso? Não sabemos. Jesus lhe responde: Teu irmão há de ressurgir. Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia. (João 11.23,24 RA) Assim Marta confessa sua fé na ressurreição no último dia. Jesus lhe diz: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto? (João 11.25-26 RA) E Marta respondeu: Sim, Senhor, respondeu ela, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus que devia vir ao mundo. (João 11.27 RA)
Quem crê, ainda que morra, viverá. Isto é, cristãos não morrem. Eles passam do crer para o ver. A morte é para eles uma porta ao céu. Num abrir e fechar de olhos eles estão diante de Deus, seu Pai celestial que os convida para entrar no júbilo celestial. Precisamos gravar isto bem em nossa mente, para aprendermos, pela graça de Cristo, a triunfar sobre a morte. E o corpo não ficará para sempre na terra, mas dada a palavra de ordem, no último dia, ressuscitará, para estarmos com Jesus de corpo e alma, no lar celestial. Por isso podemos cantar: Deus nos salva por amor; Jesus Cristo é vencedor, pois a morte destruiu, com poder o céu abriu. Aleluia! (HL 117.3)
Então Marta foi chamar sua irmã Maria e lhe disse: O mestre chegou e te chama. Jesus ainda estava fora da aldeia. Quando Maria levantou, a multidão de pessoas que estava na casa foram com ela, pensando que ela iria para a sepultura. Ao encontrar a Jesus, ela lhe disse as mesmas palavras que sua irmã tinha dito. O sofrimento era muito grande.

Jesus chora

Jesus agitou-se em espírito. Isto contra o causador de todo o sofrimento, o diabo, que abateu seu amigo Lázaro. Comovido, como verdadeira pessoa humana, Jesus chorou. Então perguntou: Onde o puseram, isto é, onde ele está sepultado.
Alguns da multidão que estavam ali, incrédulos, começaram a questionar: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer que este não morresse? (João 11.37 RA) Isto não era somente incredulidade, mas cruel zombaria. Interessante ainda hoje, no momento de sepultamentos, quando falamos da ressurreição e da vida eterna, normalmente não faltam os que entre os assistentes cochicham e zombam da mensagem da ressurreição.

A ressurreição

Então foram para a sepultura. Chegados ali, Jesus pediu para que retirassem a pedra. Marta objetou: Já cheira mal. Jesus lhe respondeu: Não te disse eu que se creres verás a glória de Deus? (v.40) Então retiraram a pedra. Jesus levantou os olhos e agradeceu ao Pai, dizendo: Pai, graças te dou porque me ouviste. Aliás, eu sabia que sempre me ouves, mas assim falei por causa da multidão presente, para que creiam que tu me enviaste. (João 11.41-42 RA) Jesus permitiu que tudo isso viesse sobre Lázaro, doença, sofrimento e morte, para que a multidão visse a ressurreição e glorificasse o Pai. Jesus recebeu o poder do Pai e também age por seu poder.
Então clamou em alta voz: Lázaro, vem para fora. O clamar em alta voz não era para que Lázaro ouvisse, mas para que a multidão, ali presente, ouvisse e se apercebesse de quem fez o grande milagre. De que ali estava o Messias, o Filho de Deus, aquele que tinha o poder sobre a morte. E Lázaro veio para fora. Jesus ainda ordenou: Desatai-o e deixai-o ir.
Nem podemos imaginar a cena. O espanto de uns, a alegria de outros. Os abraços dos familiares.
A notícia da ressurreição correu célere. A fúria dos fariseus que queriam matar a Jesus cresceu de sorte que Jesus já não andava publicamente entre os judeus, mas retirou-se para uma região vizinha ao deserto, para uma cidade chamada Efraim; e ali permaneceu com os discípulos, (João 11.54 RA) por mais algumas semanas até se cumprir o tempo para ir a festa em Jerusalém, onde seria crucificado.

Conclusão

Este belo evangelho nos traz profundo consolo. Jesus conhece nossas aflições. Ele ampara os seus. O que nos acontece não é puro acaso ou destino cego, mas são caminhos amorosos de nosso Pai celestial, que cooperam para a glória de Deus. Mesmo não compreendendo os caminhos de Deus, queremos permanecer apegados à sua Palavra. Olhar firmes para o autor e consumador de nossa fé e olhar para o alvo, a esperança da vida eterna. Pois todo o que vive e crê em Cristo, não morrerá eternamente. Amém.
São Leopoldo, 01/03/2008
Horst R. Kuchenbecker

Exequiel 37.1-14. O vale dos ossos secos

Ezequiel 37.1-14. O vale dos ossos secos.


Introdução

Como vai o trabalho da evangelização na Comunidade? O tempo quaresmal nos lembra que Cristo morreu por todos e quer que a boa nova da salvação chegue a todos pela pregação.
Muitas vezes desanimamos neste trabalho, dizendo: não adiante. As pessoas simplesmente não querem mais ouvir a palavra de Deus. E, além disso, como vamos-nos preocupar com os outros, se temos tantos problemas na própria família, nossos jovens que contestam as afirmações da Bíblia, e a baixa freqüência em nossos cultos. Isto sem falar de nossas minguadas ofertas, enquanto que as pessoas em outras religiões não receiam dar suas próprias vidas por suas ideologias e cultos errados.
Os textos desse domingo – no exemplo do povo de Israel - não só nos mostram a infinda misericórdia de Deus como também nos estimula a não esmorecermos nos trabalhos da proclamação do evangelho.

A decadência de Israel

Israel foi o povo formado por Deus, pelo qual Deus prometeu levar enviar seu Filho unigênito para salvar a humanidade. Pois de Israel deveria nascer o Salvador. Israel deveria ser por seu culto, sua vida e a pregação da palavra de Deus uma luz no mundo.
Infelizmente, atraídos pelo mundo, caíram no amor ao mundo, à ganância, a luxúria e a imoralidade e provocaram a ira de Deus. Apesar das muitas advertências pelos profetas não se deixaram mover ao arrependimento e a volta a Deus. Então veio o castigo de Deus, o cativeiro babilônico.
No árduo sofrimento no cativeiro começaram a dar ouvidos à palavra de Deus e reconheceram seus pecados. Deus lhes disse: São casa rebelde. (Ez 3.22-27 RA) Eles caíram em profundo desespero. Diziam uns aos outros: Os nossos ossos secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados. (v.11) O que estas poucas palavras dizem nem podemos expressar em palavras. Ouvimos hoje expressões como: Estar no fundo do poço! A pessoa caiu em depressão profunda, etc. Esta dor que eles sentiram não foi somente a dor física da escravidão, mas sobre tudo a dor na alma. Eles sabiam ser castigo de Deus o que lhes estava acontecendo. Eles haviam desprezado a Deus e o provocado à ira. E o escritor da carta aos Hebreus já disse: Coisa horrível é cair nas mãos de Deus. (Hb 10.31) Agora era tarde. Não havia mais esperança. Nesses casos, por mais bem-vinda que seja a solidariedade humana com seus conselhos, nada pode fazer. Só Deus poderia ajudar. E Deus teve compaixão deles e lhes enviou o profeta Ezequiel com uma mensagem confortadora.

O profeta Ezequiel

O profeta Ezequiel viveu nos anos (592 – 570 a.C.) vivia em Judá. Pertencia a linhagem dos sacerdotes. Ezequiel era casado, mas sua esposa, devido a uma doença, faleceu cedo. Ele tinha 25 anos, quando o rei Nabucodonosor veio de derrotar o rei do Egito e passou por Jerusalém para sufocar ali uma rebelião. Por esta ocasião levou cativo para Babilônia o rei de Judá Jeoaquim (2 Cr 36.5-8), vários nobres e também a Ezequiel. Seis anos mais tarde, por causa de outra rebelião, o rei Nabucodonosor voltou e destruiu por completo Jerusalém e o templo. Derrubou as edificações e queimou tudo a fogo, levando o resto do povo cativo para a Babilônia.
Quando Ezequiel, já cinco anos no cativeiro, completou seus 30 anos de idade, Deus o chamou para ser profeta. Ele foi o pastor dos exilados.
O capítulo 37, que forma o nosso testo, é sem dúvida um dos capítulos mais empolgantes do Antigo Testamento.

A desolação

Em primeiro lugar coube a Ezequiel conscientizar, pela pregação da lei, como vemos nos primeiros capítulos do seu livro, os cativos de seu pecado e de sua situação, para levá-las a um verdadeiro arrependimento.
Então, certo dia, veio a mão do Senhor sobre o profeta e o levou em espírito a um vasto campo. Ali viu um vale cheio de ossos secos. – Este era o quadro de Judá no cativeiro babilônico. Mortos, sem forças e sem esperanças. Eles haviam rejeitado o amor de Deus. Eles incitaram Deus à ira. Agora tudo estava perdido. Eles mesmos diziam agora: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados. (v.11) O profeta Jeremias caracterizou a situação assim: Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá (Jr 17.9) Nosso coração pecaminoso, nosso velho homem, nos engana. Primeiro nos incita à autoconfiança, ao orgulho, ao amor ao mundo. Depois quando somos tocados pela palavra de Deus, para vermos a realidade, segue o desespero. Pois agora estava no chão.

A Promessa

Deus, no entanto, em sua grande misericórdia lhes anunciou misericórdia, perdão e lhes deu novas esperanças. Vejamos a visão que Ezequiel recebeu.
Deus perguntou ao profeta: Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos? Esta pergunta nossa razão faz seguidamente e enfrenta de forma incrédulo a palavra de Deus. Será possível. Isto não pode ser verdade. Isto é impossível. O profeta responde cautelosamente. Ele respondeu: SENHOR Deus, tu o sabes. (Ezequiel 37.3 RA) Então Deus lhe revela o seu amor, dá-lhe a resposta, a promessa de esperança. Assim diz o SENHOR Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele e porei em vós o espírito, e vivereis. E sabereis que eu sou o SENHOR. (Ezequiel 37:5-6 RA)

A ação de Deus

Esta é a graciosa ação de Deus. Ele não só reergue Israel materialmente como nação, ele age por seu Espírito e o restaura interiormente. Como toda essa ação de Deus se desenvolveu podemos ler no livro de Ester, do profeta Daniel no livro de Esdras e Neemias. Três vezes temos neste trecho a expressão: Então sabereis que eu sou o Senhor. (v. 6, 13, 14) A finalidade é buscá-los de volta à fé, à comunhão com Deus, a serem povo de Deus.
Tudo isso o Espírito de Deus realiza ainda hoje pela pregação da palavra de Deus. Profetiza a esses ossos, diz Deus. Profetiza. Anuncia a minha palavra. Israel deu ouvidos a voz do profeta. Arrependeram-se e confiaram na palavra de Deus. Esta foi a restauração espiritual. Mas Deus não ficou nisso. Ele prometeu também a restauração material, isto é, liberta-los do cárcere e conduzi-los de volta à sua terra e ali edifica-los como nação. (v.12,14) Este último versículo deixa claro que todo esse trecho fala da restauração espiritual e da restauração de Judá como nação. Mesmo que este trecho pode ser usado como símbolo da ressurreição de todos os crentes, ele em primeiro lugar fala a Israel no cativeiro.

Hoje

A nossa situação não é muito diferente. Confessamos no terceiro artigo do Credo Apostólico: Creio que por minha própria razão e força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, me iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. (Cat. Menor, 3° Artigo) Esta é a graciosa ação de Deus por seu Espírito que atua ainda hoje por palavra e sacramento.
Esta é nossa esperança também quando comunidades caem da fé, quando os membros se voltam para o mundo, quando cai a freqüência dos cultos, quando os jovens se desviam da fé e questionam a fé dos pais. O único meio é aprofundarmo-nos na palavra de Deus, orar e continuar com paciência e amor, mas também firmeza proclamar a lei, para que reconheçam seus pecados, e o evangelho para consolo.
Para isso buscamos orientação nos profeta que pregaram em tempos de decadência. Buscamos auxílio também em nossos pais como Dr. Walther, Luiz Harms, Johann Arndt. Com eles aprendemos como pregar lei e evangelho, como dividi-los corretamente, como aplicá-los. Por vezes pastores e membros perguntam e/ou buscam novos métodos e sugestões esperando deles resultados, algo que dê certo. Mas importa lembrar a ordem de Deus: Vai e prega. Este é o único caminho. Preparar bem os sermões. Permanecer na correta estrutura litúrgica com hinos que contém a palavra de Deus bem aplicada. Seguir os caminhos da correta instrução na Escola Bíblica, instrução de confirmandos e estudos bíblicos, pedindo a Deus em oração que em sua misericórdia abençoe sua palavra em nossos corações. E a seu tempo veremos a bênção. Muitas congregações, no passado, viram suas congregações renascerem pelo estudo do Catecismo Menor, da Confissão de Augsburgo e da Fórmula de Concórdia.
Este caminho deu certo no tempo do profeta Ezequias, na F
Reforma Luterana, na emigração dos saxões para os Estados Unidos para fugir ao racionalismo. E ainda hoje é verdade o que o profeta afirmou. Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus, e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra e a fecundem e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão o que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei. (Is 55.10,11) Amém.