sábado, 24 de maio de 2008

A Justificação do pecador. Romanos 3.21-31

2º Domingo após Pentecostes, Romanos 3.21-31

Mensagem: Rm 3.28. A justificação do pecador pela graça de Cristo é a doutrina central da Escritura Sagrada. Com esta doutrina, a Igreja fica de pé ou cai, isto é, se esta doutrina é ensinada corretamente a Igreja Cristã permanece firme; se esta doutrina é deturpada, a Igreja Cristã também é deturpada. Acontece, no entanto, que todas as igrejas cristãs e também não cristãs falam, de certa forma, a respeito dessa doutrina, mas são poucas que a ensinam corretamente. Por isso, vamos examinar, à base de nosso texto, a doutrina da justificação de pecador, pela graça de Cristo.
1) Que é justiça conforme a lei?
2) O que é justiça conforme a graça?
3) Qual o proveito desta doutrina?

1. A justiça conforme a lei. - Em primeiro lugar, precisamos compreender o que é a lei de Deus, sem o que não compreenderemos a doutrina da justificação do pecador. É interessante notar que Lutero não descobriu somente o Evangelho, mas ele descobriu o verdadeiro sentido da lei de Deus, por isso o Evangelho lhe foi a boa nova da salvação.
Deus estabeleceu a Lei e determinou o que é justo e não justo, pois ele tem direito de dar a lei, exigir obediência e castigar o transgressor. Deus inscreveu esta lei no coração das pessoas que criou. Infelizmente, Adão e Eva desobedeceram a Deus, pecaram. O pecado os corrompeu. A lei inscrita em seus corações foi parcialmente apagada. O homem foi expulso do paraíso. Agora não temos mais o conhecimento perfeito desta lei. Temos um conhecimento rudimentar dela. Sabemos que não devemos mentir, roubar e matar, mas a compreensão mais profunda e completa dessa lei o homem desconhece. O apóstolo Paulo afirma: Eu não sabia que cobiça é pecado, se a lei não me dissesse: Não cobiçarás. (Rm 7.7) Por essa razão, Deus deu sua lei, novamente, desta vez escrita em duas tábuas, entregues a Moisés. Temos esta lei na Bíblia e explicada em nosso Catecismo Menor. A lei nos revela a absoluta santidade e justiça de Deus. Todos nós seremos julgados por Deus, conforme esta lei. Ninguém poderá se desculpar diante de Deus, dizendo: Eu não sabia.
Deus é absolutamente santo e exige de nós santidade absoluta. Ele disse: A alma que pecar, essa morrerá. (Ez 18.20) Esta lei condena todos nós. Somos réus da eterna condenação. Lemos em Romanos: Ora, sabemos que tudo o que a lei diz aos que vivem na lei o diz, para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus. Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado. (v.19,20) Ninguém é justificado (declarado justo, inocente ou perdoado) diante de Deus mediante obras da lei, por suas boas obras. Não há distinção. Como? Isto significa que não há diferença, quer seja um cristão ou um grande bandido, seja uma pessoa de bem que auxilia as pessoas ou grande assassino? Sim, quando nos colocamos diante de Deus, não há diferença. Diante da lei de Deus todos nós somos culpados e réus da eterna condenação, do inferno. Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Esta é a realidade.

2. Justiça conforme a graça. - Mas, agora! diz nosso texto. Isto interessa a nós que não temos justiça própria, que somos pecadores, que estamos sob a ira e condenação de Deus e trememos diante dela. Mas, agora, assinala uma esperança.
v. 21. Mas, agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas. Que justiça é essa? Uma justiça, sem lei. Jesus, nosso irmão na carne, cumpriu a lei e pagou pela culpa da humanidade. Esta verdade já foi amplamente anunciada e espelhada no Antigo Testamento, por Moisés e os profetas. Os sacrifícios de animais no templo em Jerusalém apontavam para o sacrifício de Cristo. Jesus, como substituto de toda a humanidade, cumpriu a lei, pagou a culpa, venceu nossos inimigos e agora, nos oferece livre e gratuitamente o perdão, sem a exigir de nós o cumprimento da lei. Por isso o apóstolo pôde escrever:
v. 24. Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus. Justificado, isto é, em Cristo nós pecadores somos declarados justos, isto é, perdoados, sem que nós tenhamos cumprido a lei de Deus. Como? Jesus acertou as contas da humanidade com o Pai. Em Cristo há, agora, completo perdão dos pecados. Em Cristo há a redenção, o resgate.
v. 25. A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça. A justiça que vale diante de Deus é a justiça que Cristo conquistou. Esta justiça, Jesus oferece pelo Evangelho, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pela fé, isto é, quando uma pessoa reconhece seus pecados, reconhece que transgrediu a lei de Deus e é réu da eterna condenação, quando lamenta ter ofendido a Deus – o que chamamos de contrição, de arrependimento - e aceita e confia plenamente na promessa do Evangelho, na boa nova do perdão em Cristo, Ele é aceito por Deus, é declarado perdoado, justificado. Esta justiça age para trás e para frente. Jesus carregou todos os pecados, desde o primeiro homem Adão até o último que há de nascer.
v. 26. E justificador daquele que tem fé em Jesus. A salvação foi conquistada para todos. É oferecida a todos. E o que confia no Evangelho, tem o que o Evangelho oferece, dá e sela, perdão, vida e eterna salvação. Mas aquele que não se arrepende e não confia na graça de Cristo, e continua nos seus pecados ou aquele que procura justificar-se diante de Deus por suas obras, permanece sob a condenação da lei.
v. 27. Onde a jactância? Jactância é orgulho. Uma pergunta interessante do apóstolo, após falar do amor de Deus. Por que essa pergunta? Por que esta pergunta aqui? É que o orgulho é um dos grandes pecados que impede a fé, que corrói a fé. Todos nós somos por natureza orgulhosos. A pessoa mais pervertido, o maior bandido procura alguma coisa de que se orgulhar. Mas, o orgulho é um problema especialmente de nós cristãos? Quem não conhece a história do fariseus que colocando-se de pé no templo de Deus, orou assim: Graças te dou, ó Pai, por que não sou como os demais! (Lc 18.9-14) Quem não conhece esse pensamento. É a razão do sinergismo, a teoria de que a salvação é feita a dois, uma parte por Deus e outra por nós. Gostamos de nos orgulhar de nossos feitos, de nossas obras, e como cristãos olhar para os outros e dizer: Como podem. Eu jamais faria isto, etc. Mas diante da lei de Deus, não temos nada de que nos orgulhar, absolutamente nada. Nem em relação à fé, dizendo: Mas eu aceitei, eu cri, eu deixei o pecado, eu faço o bem. A teologia do “eu” de nossos dias, tão comum e enaltecida em muitos cânticos. Não. Pois mesmo nossas melhores obras, são todas imperfeitas e manchadas de pecado, e precisam ser purificadas pelo sangue de Cristo. Não temos nada a nos orgulhar diante de Deus.
v. 28. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei. Sem as obras da lei, por graça. Se nossa salvação dependesse de uma só obra, jamais teríamos certeza da salvação. Graças a Deus, somos salvos sem as obras da lei. Quando olhamos para Deus, quando vamos a Deus, vamos de mãos vazias, pois todas nossos feitos, por mais bonitos, estão manchados de pecados. Diante de Deus só subsistiremos mediante a graça de Cristo, sem as obras da lei.
Na hora da morte, quando teremos que comparecer diante do tribunal de Deus para sermos julgados, não teremos nada a apresentar: nem nosso culto, nosso esforço, nossa piedade, tudo isso, de nossa parte é imperfeito e manchado de pecado. Só a graça de Cristo. Só poderemos subsistir diante do trono de Deus vestido com o manto branco da justiça de Cristo. Por isso Paulo sublinha: Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei, quer seja judeu ou gentio. Mas aqui surge uma pergunta:
v. 31. Anulamos, pois, a lei, pela fé? Não, de maneira nenhuma, antes confirmamos a lei. Anulamos a lei? Não! Pelo contrário, mostramos a inteira validade da lei. Confessamos que a lei nos condena e que por ela não podemos subsistir diante de Deus. Diante do santo Deus só podemos subsistir pela graça de Cristo. Isto não significa que não damos atenção à lei, que podemos pecar à vontade, porque a graça de Deus cobre tudo. Não. Pelo contrário. Renascemos, somos aceitos como filhos de Deus, somos herdeiros da vida eterna, detestamos o pecado, amamos a lei de Deus e nos esforçamos diariamente no cumprimento da lei, no amar a Deus e ao próximo. Vejam, por isso, qual o proveito da graça.

3. Qual o proveito dessa graça, dessa justificação sem lei? E então, qual o resultado do perdão em nossa vida, no dia a dia? A respeito disse o apóstolo Paulo fala em outro capítulo. Os próximos textos abordarão este assunto. Aqui um pequeno resumo. Lemos em 5.1: Justificados, pois, mediante a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é a primeira grande bênção prática na vida. Paz. Paz de consciência, que reorienta todo nosso pensar e viver. E mais, o apóstolo pergunta: 6.1: Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum... Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal... (v. 12)... mas oferecei-vos a Deus como ressurrectos dentre os mortos, e os vossos membros a Deus como instrumentos de justiça. (v. 13). A segunda bênção é que, reconciliados com Deus, na qualidade de filhos de Deus pela fé, temos prazer em viver como filhos de Deus, guiados pelo Espírito Santo. Não coagidos, não contra gosto. Conforme a fé, conforme nosso novo homem, nós temos prazer na lei de Deus. O Espírito nos guia a amarmos a Deus e ao próximo. Esta vida santificada, por estarmos ainda na carne pecaminosa, tem fraquezas e quedas. A justificação do pecador é perfeita a santificação é imperfeita. Diariamente lutamos contra o pecado em nós e as tentações de fora. Temos altos e baixos. Até que desçamos à sepultura, e nossa carne pecaminosa é definitivamente sepultada, para ressuscitar, no grande dia, livre do pecado.
Que sublime consolo, que maravilhosa esperança. Amém.
São Leopoldo, 17/05/2008
Horst R. Kuchenbecker
Mateus 7.15-23. Os falsos profetas

Em nosso evangelho, Jesus nos conclama: Acautelai-vos dos falsos profetas. Olhando em nosso derredor, notamos que são muitos, todos eles com a Bíblia na mão, afirmando serem mensageiros fiéis de Deus. E, como não é fácil distinguir de primeira vista entre joio e trigo, não é fácil distinguir entre profetas verdadeiros e falsos. Falsos profetas causam muita confusão. E podemos dizer que não há maior escândalo do que este: A tremenda divisão da igreja cristã, causada por falsos profetas.
Pelo Velho Testamento vemos que falsos profetas atormentaram o povo de Deus desde o seu início e continuam a atormentá-lo. Será assim até o dia do juízo final.
A causa da existência de falsos profetas não devemos procurar em Deus. A causa é o próprio Satanás, o pai da mentira. Ele engana as pessoas, procurando desviar do caminho ao céu. Falsos profetas são seus mensageiros.
Mas por que Deus permite isso? Satanás e seus seguidores na verdade já estão julgados, mas eles têm ainda certa liberdade de ação até o dia do juízo final. A nós cabe, apegados à verdade, examinar e lutar contra toda a falsidade.
Por outro, Deus se vale deles para provar os fiéis. O apóstolo Paulo afirma: Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornam conhecidos em nosso meio. (1 Co 11.19) Deus também usa os falsos profetas para castigo aqueles que são levianos para com a verdade e ingratos ao amor de Deus. O apóstolo Paulo escreveu aos Tessalonicenses: E com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira. (2 Ts 2.10,11)
Vejamos, pois, a sincera admoestação de Jesus: Acautelai-vos dos falsos profetas.

1. Jesus proferiu estas palavras após o Sermão da Montanha. Neste sermão Jesus se dirigiu especialmente a seus discípulos, mostrando-lhes como devem viver. No Sermão da Montanha, portanto, Jesus não ensino como alguém se torna um discípulos, mas como seus discípulos devem viver neste mundo, bem como a luta que terão que enfrentar diante de muitas tentações. No final do sermão, Jesus dá a seus discípulos uma última admoestação: Acautelai-vos, isto é, cuidado. Neste caminho há muitos perigos, há falsos profetas. Quem já leu e conhece o livro: O Peregrino de Buyan tem nele alguns exemplos muito claros. Cumpre ser cauteloso e examinar tudo à luz da palavra de Deus e de nossas Confissões, cujo conteúdo temos resumido em nosso Pequeno Catecismo.
2. Falsos profetas. Este é um termo pouco usado em nossos dias. Hoje se afirma o seguinte: Não existe verdade absoluta. Cada um tem um pouco de verdade. Não podemos condenar ninguém. O que importa é ser tolerante em amor. Esta é uma das últimas e simpáticas vestimentas de Satanás, pela qual procura conquistar os corações.
Jesus afirma: Falsos profetas existem. São uma realidade e nos tempos finais, nos quais vivemos, se multiplicarão como o vemos em nossos dias. E eles vêm “vestidos com pele de ovelha”, isto é, com a aparência de serem bons cristãos, de serem do rebanho de Cristo, quando na verdade são do rebanho de Satanás. Por isso a advertência: Acautelai-vos. Examinais. Provai os espíritos. O apóstolo Paulo adverte os coríntios e escreve: Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar; porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras. (2 Co 11.13-15) A história da Igreja Cristã nos mostra muitíssimos exemplos desta verdade. O maior exemplo é o do Papa da Igreja Católica. Ele se diz representante de Cristo aqui na terra. A respeito dele o apóstolo escreveu o seguinte: O homem da iniqüidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus. (2 Ts 2.3,4) O homem da iniqüidade que se levanta contra tudo que se chama Deus, ora, o centro da religião cristã é a graça de Cristo. Exatamente contra esta doutrina central o Papa levanta sua voz e perseguiu e persegue os verdadeiros filhos de Deus. O Concílio de Trento (1545) resolveu: Se alguém disser ser a fé justificadora... ou que somente esta confiança na graça de Cristo salva: Seja anátema, isto é, amaldiçoado. (Trento, Sessão, VI, Cânon 12) Esta afirmação até hoje não foi revogada.
Por outro, Jesus adverte: Porque surgirão falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. (Mt 24.24) Não temos tudo isso em nosso derredor? Cada qual apregoando ter mais poder do que o outro, anunciado que cura tudo e que já ressuscitou até mortos.
3. Como reconhecê-los? Jesus responde: Pelos seus frutos os conhecereis. Quais são os frutos dos profetas? Estes frutos são seus ensinos, sua doutrina. Assim como o fruto do trabalho de um marceneiro são os moveis que ele fabrica, os frutos de um pedreiro a casa que constrói, os frutos de um pregador são seus ensinos adornados por sua vida. E Jesus afirma em nosso evangelho: Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade. (Mateus 7.21-23 RA) Uma palavra impressionante de Jesus. Pregadores com muito amor, poder de fazerem milagres e Jesus lhes diz: Não vos conheço. Portanto, as aparências podem enganar. Importa que os julguemos conforme suas mensagens, duas doutrinas.
E as doutrinas centrais da Escritura nossos pais o expressaram assim: Somente a Escritura, somente por graça, somente pela fé. E destas a doutrina da graça, da justificação pela graça de Cristo, à qual nos apegamos pela fé, que é dom de Deus é a parte central. De forma que a Escritura é interpretada de forma “cristocêntrica”. Em tudo Cristo é o centro. Se alguém deturpa a graça de Cristo, perturba a clareza do ensino da justificação pela graça de Cristo.
Estas doutrinas nós as temos claramente expostas em nosso Catecismo Menor, com mais pormenores na Confissão de Augsburgo e ainda com mais detalhada na Fórmula de Concórdia. Em outras palavras: Deus, em sua grande bondade, nos concedeu o ensino claro para podermos discernir entre verdade e erro.
Não nos deixemos enganar por chavões como: Doutrina não importa, o que importa é a sinceridade e o amor. Ou: Doutrina não importa, o que importa é que cada um pratique sua religião com sinceridade. Sim, amor, sinceridade, como frutos da fé dão testemunho da veracidade de nossa fé, pois a fé sem as obra é morte. Mas olhando de fora, simples frutos podem enganar.
O que importa, portanto, conforme a palavra de Jesus é: Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. (João 15.7 RA) Nesta palavra queremos permanecer.
Humildemente pedir que Deus nos conserve sua palavra e seus ensinos, aos quais queremo-nos apegar em estudo diário e meditação.
Estas verdades queremos proclamar sob oração para a salvação de muitos. E adornar com nossa vida santificada, para que o mundo possa reconhecer de quem somos filhos. Amém.
São Leopoldo, 19/05/2008
Horst R. Kuchenbecker

domingo, 11 de maio de 2008

Estudo sobre a SS. Trindade

Estudo sobre a SS. Trindade
Chegamos ao fim do primeiro semestre no ano eclesiástico com as grandes festas da cristandade: Natal, no qual celebramos o amor de Deus Pai; Sexta-feira Santa, Páscoa e Ascensão, nas quais celebramos o amor do Filho e Pentecostes, na qual celebramos o amor do Espírito Santo.
No segundo semestre do ano eclesiástico, que começa com a festa da SS. Trindade, não temos festividades especiais, mas continuamos a meditar sobre o amor do Deus Triúno. Chamamos este período de o “Período da Trindade” ou: domingos após Pentecostes.
O primeiro domingo do segundo semestre é dedicado, de forma especial, à Santíssima Trindade. Esta doutrina é ensinada com muita clareza em toda a Bíblia, e não é uma evolução neotestamentária ou formulação dos Concílios Ecumênicos. As principais passagens do Antigo Testamento são: Gn 1.1-3, 26 (Jo 1.1-3), Elohim (plural); Nm 6.24; 2 Sm 23.2; Sl 33.6; 45.6,7 (Hb 1.8,9); Is 42.1; Is 48.16,17; Is 61.1. As passagens do Novo Testamento são: Mt 3.16-17; Mt 17.5; Mt 28.19; Jo 14.6; Jo 17.5,24; Rm 8.26,27; 2 Co 13.13; 1 Pe 1.2. Essas verdades foram magistralmente resumidas, após muitos estudos e orações nos três Credos Ecumênicos, e refletidos em nossa liturgia e em nossos hinos.
Vamos, pois, meditar na doutrina da Santíssima Trindade, analisando os Credos Ecumênicos.

Credos e Confissões
Credos e Confissões são nossa resposta à leitura da Bíblia, o testemunho fiel da fé, da doutrina, a bandeira que unifica os fiéis e uma barreira contra erros doutrinários. Santo Agostinho (a.D. 354-430) definiu os símbolos assim: Símbolo é uma regra de fé breve e grande: breve, pelo número de palavras; grande, quanto ao peso das sentenças.”

Deus
O assunto Deus está novamente em debate. Perguntas e mais perguntas são levantadas, tais como: Quem é Deus? Quantos deuses há? Como posso conhecer a Deus? É possível ter-se absoluta certeza sobre isso? Os meios de comunicação trazem para dentro de nossos lares as mais diferentes opiniões sobre Deus, religiões, doutrinas e cultos. Não é de admirar que as idéias da globalização despertam cada vez mais o espírito ecumênico no qual se afirma: Há um só Deus. Todas as religiões são boas, elas só diferem na forma. O mais importante na religião é o amor. E dentro do amor deve-se destacar a “tolerância”, isto é, o respeito pela verdade dos outros. Esta é a nova onda, já além do “ecumenismo”. Todas as religiões são boas. O amor exige tolerância, que é “ante missão”. Será essa a verdade? Será isso tudo tão simples? De primeira vista parece. Vamos tomar o versículo: Deus amou o mundo... (Jo 3.16) No árabe se lê: Alá amou o mundo. A palavra hebraica Elohim (plura), singular Eloha, tem como raiz Alá. A questão, no entanto, não é uma questão de nomes, mas está na compreensão da divindade. Islâmicos adoram Alá, judeus a Elohim ou Jeová, espíritas o Espírito supremo, as filosofias orientais veneram as forças da natureza: Budistas adoram um deus que é impessoal, Hinduístas afirma que todos nós somos deuses, parte de Deus. Todas estas religiões negam a Trindade. O Islã, que aceita os cinco livros de Moisés, afirma: Quem dá honras divinas a Jesus é Shirk, é idólatra e deve ser apedrejado. Todas as pessoas são unânimes em afirmar: Há um Deus somente.
Quem é então esse Deus? Como posso conhecê-lo? A natureza dá testemunho da excelência de Deus. Os céus proclamam a glória de Deus. (Sl 91.1) A consciência de cada pessoa dá testemunho da existência de Deus. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo. (Rm 1.10). Mas a natureza e nossa consciência não nos revelam quem é esse Deus. Homens não podem descobri-lo, nem pela ciência, nem pela filosofia. É preciso que Deus se revele. E Deus, em grande amor para com a humanidade se revelou. Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas. (Hb 1.1,2) Deus se revela à humanidade na Bíblia e somente na Bíblia. Ela é a inspirada palavra de Deus. Não só no sentido, mas palavra por palavra. Mesmo assim, Deus permanece um Deus abscondito (escondido). Nenhum pecador poderá ver sua face. (Ex 33.20) Ele só revelou o que precisamos saber para nossa salvação. À base da Bíblia, nosso Catecismo Menor afirma: “Deus é espírito; eterno, onipresente, onisciente, onipotente, santo, justo, verdadeiro, bondoso, misericordioso e gracioso (Cat. Menor, perg. 111). Jesus nos revela o Pai. Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? (João 14.9 RA). E: Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. (João 14.6 RA) Jesus nos revela o Pai. No seu batismo resplandece a Trindade. Ele disse: Eu e o Pai somos um. (João 10.30 RA). A respeito dele o apóstolo Paulo afirmou: E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos. (Atos 4.12 RA) Vamos, com oração, meditar no que Deus nos revela em sua palavra sobre sua pessoa e obra. Nossos pais resumiram isto, após lutas e orações, com muita clareza e precisão em Credos e Confissões.

O Credo Apostólico
Quando uma pessoa vinha de outras cidades para uma comunidade cristã, dizendo ser cristão, ela era perguntada sobre sua fé. A pessoa respondia, normalmente, com frases tomadas das cartas dos apóstolos. Assim surgiu o Credo Apostólico.
Já no ano A.D. 150, o bispo Ignatius de Antioquia, aprisionado em Roma entre os anos 110 -117, e condenado à morte pelo imperador Trajano, menciona em suas cartas, fórmulas confessionais. Existiam várias em lugares diferentes. No segundo século já encontramos o Credo Apostólico mais ou menos na forma atual.
O Credo Apostólico prima pela exposição positiva das principais e essenciais verdades bíblicas sobre o Deus triúno e seu amor revelado em Cristo, o Filho de Deus. O Pai, criador e mantenedor de todas as coisas; Jesus Cristo, Salvador da humanidade, o Espírito Santo, doador da vida.

Credo Niceno
Em Roma o rei Constantino (a.D. 312-337) assumiu o trono do império romano. O império estava dividido. Ele foi simpatizante do cristianismo. Deixou-se batizar pouco antes de sua morte. Queria unir o império e também as religiões. Para sua tristeza notou a divisão do cristianismo. Convocou então o primeiro concílio Ecumênico, para Nicéia, Turquia, onde ele tinha um palácio. Ali hospedou os 3oo bispos do seu vasto império. O bispo Ario (a.D. 256-336) de Alexandria, África, defendeu que Jesus, o Verbo (Jo 1.1) é chamado de filho de Deus só figurativamente. O pastor Atanásius (a.D. 296-373) se opôs. Os debates foram longos. A discussão girou em torno dos termos: semelhante ao Pai (homoi-ousios) ou da mesma essência do Pai (homo-ousios), segurido pelopróprio imperador. No dia 19/06/325 o Credo Niceno foi aceito, e Ario condenado. Destacamos as palavras: E um só Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os mundos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas... ”
A falsa doutrina de Ario, no entanto, voltou a brotar. Surgiram novos debates e estudos. O segundo Concílio ecumênico, a.D. 381, em Constantinópola (hoje, Istambul), rejeitou estes erros novamente, fazendo o acréscimo: “que procede do Pai”. A mesma matéria foi reafirmado no Concílio de Toleno, na Espanha, em A.D. 589, recebendo o seguinte acréscimo: “o qual procede do Pai e do Filho (latim: filioque).”
Após isso, surgiram outros debates em torno da pessoa de Cristo, que levaram à formulação do Credo Atanasiano, cuja autoria foi, por um engano histórico, atribuído a Atanásio de Alexandria (a.D. 296-337). Mais tarde notou-se que Atanásio só escrevia em grego, mas o Credo foi elaborado em latim.
O Credo Niceno clarificou a pergunta sobre o Logos (Verbo, Jesus), a palavra que emana do Pai, afirmando que Jesus é realmente Deus, da substância do Pai. Mas a pergunta sobre a “pessoa” de Jesus e o relacionamento entre as duas pessoas, a divina e a humana entre si, permaneceram abertas e geraram muitas outras perguntas e discussões. As perguntas que mais absorveram os debates foram: Quanto à pessoa de Cristo, a encarnação e a união das duas naturezas em Cristo. As confissões respondem: A união existe desde a concepção. Maria deu à luz ao Filho de Deus, (theotokos = mãe de Deus), não só à natureza humana de Cristo, mas ao “Logos”. As Confissões afirmam que Maria deu à luz ao “Logos” (Jo 1.14), ao Filho de Deus (Gl 4.4; Rm 9.5), ao “ente santo” (Lc 1.35), ao qual Isabel chama de “o meu Senhor”(Lc 1.43). Outros diziam que a divindade perpassava a natureza humana, como por exemplo o fogo perpassa o ferro incandescente. Também esse erro foi rejeitado. Cristo não é um ser duplo, com duas pessoas, como os nestorianos (Nestorius, bispo em Constantinopola (a.D. 428) e Êfeso (a.D. 431) afirmavam, nem um ser composto de meio termo, que seria nem só divino, nem só humano. Mas Cristo é uma pessoa, divino-humana. Cristo é uma só pessoa, que tem uma completa natureza divina e uma completa natureza humana. As duas naturezas estão unidas de modo a constituírem uma pessoa, uma individualidade. De sorte que há um Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
“Cremos, ensinamos e confessamos que o Filho de Deus, ainda que desde a eternidade foi pessoa particular, distinta e inteiramente divina, e destarte, com o Pai e o Espírito Santo, verdadeiro, essencial, perfeito Deus, assumiu, contudo, na plenitude do tempo, também uma natureza humana na unidade de sua pessoa, não assim que agora haja duas pessoas ou dois Cristos, mas assim que Jesus Cristo é, agora, numa pessoa, ao mesmo tempo verdadeiro, eterno Deus, nascido do Pai desde a eternidade, e verdadeiro homem, nascido da bem-aventurada Virgem Maria” (FC DS, Art VIII.6).
Essa união pessoal das duas naturezas em Cristo é um profundo mistério (1 Tm 3.16). Todavia, para dar-nos uma pálida idéia, a Escritura a compara com a união que existe entre corpo e alma. Nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade. (Colossenses 2.9 RA). As duas naturezas não estão misturadas, de modo a formarem um novo composto. Nem uma se transformou na outra, perdendo sua própria identidade. Mas, à semelhança de corpo e alma, permanecem distintas. Também não existem lado a lado, como duas tábuas coladas, sem comunhão e inter-relação. A semelhança de corpo e alma, a natureza divina de tal maneira permeia e penetra a natureza humana, e a natureza humana é de tal maneira penetrada pela natureza divina, que ambas as naturezas formam uma só pessoa. “A união das duas naturezas é tão estreita e inseparável, que uma já não pode ser concebida como existindo sem a outra ou separada dela, senão que ambas devem ser consideradas em todos os sentidos unidas, todavia de modo tal, que cada uma retêm seu caráter essencial e suas peculiaridades como antes, e permanece impermista com a outra ... De sorte que onde está o Filho de Deus, a natureza divina, aí está igualmente o Filho do homem, a natureza humana. Desde o momento em que o Verbo se fez carne (João 1.14), a carne não está sem o Verbo, e o Verbo não está sem a carne. As duas naturezas são inseparáveis, embora distintas.” (Sumário, p. 90)
Isto é importante ser mantido quanto à nossa salvação. Perguntamos: quem morreu na cruz? Nossas confissões respondem corretamente: Portanto, a divindade e humanidade em Cristo é uma só pessoa, a Escritura, por causa dessa união pessoal atribui também à divindade tudo o que sucede à humanidade, e vive-versa. (DS VIII.42) Com isso quero dizer: se não é o caso de Deus haver morrido por nós, mas apenas um homem, então estamos perdidos. Se, porém, a morte de Deus e deus morto estão na balança, ela desce e nós subimos como prato leve e vazio... (nós, perdoados e absolvidos, justificados, pela morte de Cristo) Em sua natureza Deus não pode morrer, como,porém, Deus e homem estão unidos em uma pessoa, é correto dizer: morte de Deus, quando morre aquele homem que é uma só coisa ou pessoa com Deus. Por isso Lutero afirma: Dizer Deus sofreu, Deus morreu não são meras palavras, e que não é assim de fato (DS VIII.44,45).
Assim distinguimos entre obras internas (opera ad intra) e obras externas (opera ad extra) da Trindade. As obras internas são: O Filho foi gerado pelo Pai... O Espírito Santo procede do Pai e do Filho... As obras externas são a criação e manutenção do universo, a salvação, o gerar a fé e conservá-la, o governar a Igreja, ou seja obras atribuídas especialmente ao Pai, a criação, ao Filho, a redenção, ao Espírito Santo, a santificação. Mas isto não exclui a participação de toda a Trindade em todas as obras, pois a essencial divina é uma.

Credo Atanasiano (Hinário Luterano, página 88)
O Credo Atanasiano é o terceiro e último dos credos ecumênicos. Ele surgiu por causa de um debate teológico (14). Desde o século 9 ele foi atribuído a Atanásio (15), mas esta teoria foi abandonada no século 17. Uma razão para isto foi que Atanásio só escrevia em grego e não em latim.
O contexto do Credo Atanasiano pressupõe a heresia proposta pelo Nestorianismo e Eutychianismo (16). O Credo apareceu e se originou em Gaul ou norte da África, conforme um comentário sobre os primeiros quatro concílios Ecumênicos. Trilhaas afirma que o assim chamado “Credo Atanasiano” é um longo catálogo de afirmações expondo a Trindade e a Encarnação (17). Conforme sua primeira afirmação (o que foi salvo) salvação e condenação estão ligadas a este conceito. É bem possível que contenham várias afirmações de Ambrosio e Augustinho. (18). No Credo Atanasiano, os que o confessam, encontram a doutrina da Trindade mais definida e desenvolvida do que no Credo Niceno e Apostólico. O último não dá uma doutrina formulada do dogma da Trindade no sentido, mas amplia a doutrina e ensina a divindade do Espírito Santo. Neve afirma que na primeira parte do Atanasiano é desenvolvida a doutrina da Trindade, por Agostinho: “Aqui temos a fórmula e guarda contra a evasão da doutrina e o ser divino ou essência das três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo (19).

O Credo Atanasiano, é o terceiro e último dos credos ecumênicos, aprovado, provavelmente no Concílio Calcedônio (a. D. 451) e reafirmado nos Concílios II e III de Constantinópola. (a. D. 553 e 681, 690) Ele surgiu por causa de um debate teológico, e foi atribuído inicialmente a Atanásio, mais tarde esta teoria foi abandonada, pois Atanásio só escrevia em grego e o Credo foi escrito latim. O Credo trata do mistério da Trindade com todo o respeito, firmado na Bíblia. Não procurou resolver pela razão o mistério, mas vai somente até onde a Bíblia o revelou, sem diminuir nem acrescentar, nem tentar harmonizar.
O Credo Atanasiano é o mais teológico dos três Credos. É chamado de o Credo Musical ou o Salmo didático, assemelha-se à Fórmula de Concórdia, entre as Confissões.

O que dizer das cláusulas condenatórias do Credo Atanasiano?
Um dos aspectos que destaca o Credo Atanasiano dos dois anteriores, são suas frases condenatórias no começo, meio e fim, que muitas vezes chocam até os nossos membros. Vejamos:
- Aquele que quiser ser salvo, antes de tudo deverá ter a verdadeira fé cristã. Aquele que não a conservar em sua totalidade e pureza, sem dúvida perecerá eternamente.
- Aquele, portanto, que quiser ser salvo, deverá pensar assim da Trindade. Entretanto é necessário para a salvação eterna crer também fielmente na humanação de nosso Senhor Jesus Cristo.
- Esta é a verdadeira fé cristã. Aquele que não o crer com firmeza e fidelidade, não poderá ser salvo.
A base bíblica para tal afirmação são as palavras:
- Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. (1 João 2.22-23 RA).
- E todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. (1 João 4.3 RA).
- Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida. Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus. (1 João 5.12-13 RA).
As verdades do Credo Atanasiano são doutrinas fundamentais. Isto precisa ser ressaltado em nossos dias, nos quais, num falso espírito ecumênico, muitos dizem: Há um só Deus. Pouco importa como alguém o chama e invoca. Cada um tem a liberdade de invocá-lo a seu modo. E mesmo entre cristãos há pessoas que dizem: Invocar o Deus triúno como Pai, Filho e Espírito Santo, ou chamá-lo de Deus Pai e mãe, etc, pouco faz, desde que feito com sinceridade e amor. Não! Não podemos pensar assim. Deus se revelou em sua palavra e quer ser adorado assim como ele se revelou. Adorar a Deus em espírito e verdade. (Jo 4.24), significa adorá-lo assim como ele se revelou, no correto espírito bíblico, distinguindo também lei e evangelho, adorando em verdadeira arrependimento e fé. Por isso queremos permanecer firmemente apegados às nossas Confissões, conhecer e apreciá-las. Pois, quem não o crê assim, não tem a fé cristã, e não poderá ser salvo.
Sob estas sentenças condenatórias caem hoje as seguintes denominações: Judeus, Muçulmanos, Espíritas, Mórmons, Testemunhas de Jeová, Gnose, Legião da Boa Vontade, e outras filosofias orientais.
É importante notar ainda, que as Confissões Luteranas, como a Confissão de Augsburgo e a Fórmula de Concórdia, também contêm condenações, como por exemplo, ao afirmarem: “Ensinamos, confessamos e condenamos...” Elas condenam o erro, mas não afirmam que quem estiver neste ou naquele erro, não poderá ser salvo. Pelo contrário, admitem que mesmo ali onde erros são ensinados ao lado da verdade bíblica principal, pessoas podem chegar à verdadeira fé e alcançarem a salvação. Mas no Credo Atanasiano trata-se de algo essencial, sem o que ninguém poderá ser salvo.
Não foi intenção dos confessores pronunciar a sentença condenatório sobre pessoas que devido a certa simplicidade da mente ou por desconhecerem as verdades bíblicas fundamentais. Mas o Credo Atanasiano pronuncia a sentença condenatória sobre aqueles que propositadamente e por obstinação rejeitam estas verdades reveladas.
O que o Credo Atanasiano nos coloca com muita clareza, não pode ser descuidado. Não pode ser matéria de indiferença para uma pessoa ou um corpo de igreja. O pastor Johann Gerhard afirmou com razão: “Aqueles que ignoram o mistério da Trindade não conhecem a Deus.”

O uso do Credo Atanasiano nas igrejas da cristandade
A Igreja Católica Ortodoxa (do Oriente) aceita o Credo Atanasiano, porém sem o “e do Filho” (latim: filioque), não o usam, porém, em seus cultos. A Igreja Católica Romana o aceita e usa em sua liturgia. A Igreja Luterana o incluiu no Livro de Concórdia, mas o usa pouco em seus cultos. As igrejas reformadas, o aceitam, mas não o usam, provavelmente devido a sua aversão a credos e confissões.

Os cânticos litúrgicos que testificam da Trindade
Glória Patri (Glória ao Pai) - O Glória Patri um canto angelical, tem um valor doutrinal e devocional. Ele é usado logo após a leitura do Salmo, texto do Antigo Testamento, para mostrar a unidade entre os dois Testamentos. É uma clara confissão da Trindade. A base escriturística para ele é: Rm 16.27; Ef 3.21; Fp 4.10; Ap 1.6. Encontramos este canto incluído nos cantos litúrgicos, na igreja oriental, já desde A.D. 530.
Gloria in Excelsis (Glórias a Deus nas alturas!) - O Glória a Deus nas alturas menciona as três pessoas. É um hino de louvor ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Um hino de louvor ao amor salvador do Deus triúno. É uma confissão da encarnação de Cristo, de sua satisfação vicária e de sua contínua intercessão por nós. Ele fala da glória eterna de Cristo. Este canto é uma luz consoladora. Data do século quarto. Encontra-se na Constituição Apostólica (VII 47), como citado por Atanásio (em 373).
Te Deum Laudamus (A ti, ó Deus, louvamos) - Este canto é considerado o hino mais nobre da Igreja Cristã. Ele combina o louvor e a oração em estrofes de exaltação em ritmo e prosa. A base do hino é o credo e ao mesmo tempo reúne pedidos de significado universal.
A primeira referência a este canto temos no ano A.D. 500. Não se conhece ao certo o seu autor. Tudo indica que o compositor tenha sido Niceta, bispo missionário de Romesiana em Dacia (A.D. 335-444), contemporâneo de São Jerônimo e Ambrósio (+ 397).
Festa da SS. Trindade, 2008
Horst R. Kuchenbecker

Festa da Santíssima Trindade

Santíssima Trindade

A Igreja Cristã celebra hoje a festa da Santíssima Trindade. As grandes festas do amor de Deus se encontram todas no primeiro semestre do ano eclesiástico. Natal, no qual celebramos o amor de Deus Pai; Sexta-feira Santa, Páscoa e Ascensão, nos quais celebramos o amor de Cristo, seu sacrifício vicário, sua vitória sobre nossos inimigos, o seu assentar-se à direita do Pai; e Pentecostes, no qual lembramos o amor de Deus Espírito Santo, o Consolador que atua por Palavra e sacramentos, levando e conservando-nos na fé, edificando a Igreja Cristã e guiando os fiéis. No segundo semestre do ano eclesiástico não temos festas especiais, mas relembramos o amor do Deus Triúno.
Mas o que significa hoje, para a cristandade, este festa da Santíssima Trindade? É muito comum em nossos dias da globalização ouvir afirmações como: Deus é um só. Não importa como uma pessoa o invoca, o que importa é que a pessoa seja sincera e pratique sua religião. Os cristãos o chamam de Deus Triúno, os judeus o chamam de Jeová, os islâmicos de Alá, outros o chamam de Espírito Superior, outros ainda de energias cósmica, etc. A isso se acrescentam ainda as afirmações: No fundo é tudo a mesma coisa. Não devemos ser radicais nem fanáticos, mas tolerantes. Tais afirmações parecem simpáticas, mas precisamos examiná-las à luz da palavra de Deus.
Vamos, pois, neste dia da festa da Santíssima Trindade refletir sobre o verdadeiro e único Deus, sua manifestação pela Palavra e o que significa crer em Deus.

1. Deus – Como posso conhecê-lo? Confessamos no Credo Apostólico: Creio em Deus Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra. Deus é espírito eterno. Não é palpável, nem visível. Só posso crer neste mistério.
Mas, em nossos dias da ciência, nos quais as pessoas querem e buscam conhecer e conquistar tudo, detestam mistérios. Tudo precisa ser desvendado. Não há lugar para mistérios. Mistério é sinônimo de ignorância. Assim o homem quer, como no tempo da torre de Babel, descobrir Deus por sua razão, sua inteligência e sua força. Será possível? Não! Deus não é algo que o homem possa descobrir e manejar.
Antes da queda em pecado, quando o homem possuía a imagem divina, isto é, o bem-aventurado conhecimento de Deus, ele conhecia a Deus. E este conhecimento o enchia de profunda alegria, paz e felicidade. O homem tinha prazer em Deus. Mas, pela queda em pecado perdemos a imagem divina. Hoje, por mais inteligente que alguém seja, ele não pode descobrir nem alcançar a Deus. Confessamos com Lutero na explicação do Credo Apostólico: Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Não posso gerar a fé em meu coração, nem no coração de meus filhos ou amigos. Este conhecimento de Deus, esta fé que é vida, só Deus pode gerar no coração e conservá-la.
Mas, quando falamos de Deus e de religião, a maioria das pessoas considera a fé um ir a Deus, um mover-se a Deus, um buscar a Deus, um tomar uma decisão em favor de Deus, um entregar-se a Deus, um fazer de Deus o Senhor de sua vida. Bem, isto de fato acontece na fé, mas não por nossa força, mas pela graciosa ação e força de Deus. Pois nós somos, por natureza, espiritualmente cegos, mortos e inimigos de Deus. Para alguém conhecer a Deus e achegar-se a ele, é preciso que Deus se chegue primeiro a ele.

2. Deus se revelou e chega a nós – que notícia sublime, que boa nova! Deus se manifestou à humanidade. Sim, ele veio e vem ao nosso encontro. Foi ele que buscou a Adão e Eva após a queda, não eles a Deus. Eles fugiram e se esconderam. O escritor da carta aos Hebreus afirma: Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hebreus 1.1-2 RA) Deus continua ainda hoje a nos buscar e se revela à humanidade não por sonhos, visões, ou outras manifestações, mas pela Palavra escrita, a Bíblia. Se alguém quer conhecer a Deus, precisa ler a Bíblia. Fora dela não há verdadeiro conhecimento de Deus.
E aqui no Brasil, como no mundo, somos gratos a Deus pelas Sociedades Bíblias e seus esforços em traduzir esta palavra para as diversas línguas e idiomas. A Sociedade Bíblica do Brasil propôs que este ano seja considerado aqui no Brasil o Ano da Bíblia, um incentivo para que cada lar possua uma Bíblia e a leia.
Mais um detalhe. Afirmamos que somos espiritualmente cegos. Logo mesmo lendo a Bíblia, nossa razão nada entende, julga tudo isso loucura e escândalo (1 Co 1.23) É preciso que o Espírito Santo nos ilumine com seus dons. E ele o faz exclusivamente pela Palavra, não fora da Palavra. Ele atua poderosamente pela Palavra. A palavra de Deus é o poder de Deus que regenera, faz renascer, dá olhos novos e um coração novo. Por isso, ao tomarmos a Bíblia nas mãos suplicamos que o Espírito Santo nos ilumine, nos ensine, nos guie à toda a verdade. Pela palavra de Deus o Espírito Santo abre nossos olhos para reconhecermos esta palavra como a palavra de Deus e a aceitarmos e confiarmos nela. Por exemplo: Muitos viram Jesus e seus milagres e ouviram seus ensinos. Mas poucos viram nele o unigênito Filho de Deus. Quando Jesus perguntou a seus discípulos: Que diz o povo quem eu sou? E vocês? Então o apóstolo Pedro confessou: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus, (Mateus 16.16-17 RA) para isso Jesus prometeu enviar o Espírito Santo, para nos guiar à toda a verdade. (João 16.13 RA) É preciso lembrar que o Espírito Santo só opera pela palavra de Deus, não fora dela. Por isso Deus admoesta pelo profeta Jeremias: Ó terra, terra, terra! Ouve a palavra do SENHOR! (Jeremias 22.29 RA) E o apóstolo Paulo afirma: E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10.17 RA) E: Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. (Colossenses 3.16 RA)
O único e verdadeira Deus se revelou e revela à humanidade em sua Palavra. Ali ele se revela como um Deus único, de uma só essência divina, em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus que é um espírito eterno, santo, justo, verdadeiro, bondoso gracioso e misericordioso. Assim ele se revelou desde o início da criação. Assim ele quer ser conhecido e adorado. Todas as outras concepções de Deus são aberrações, idolatria que Deus condena, por mais sinceras e sacrificiais que sejam.
Esta ação do Espírito Santo, no entanto, é resistível. Alguém pode resistir à graciosa ação do Espírito Santo. Jesus chora sobre Jerusalém: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37 RA) E Estevão teve que dizer aos judeus: Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. (Atos 7.51 RA)
Nossos pais resumiram os ensinos bíblicos a respeito de Deus nos três Credos Ecumênicos. E dizemos com toda razão e força no Credo Atanasiano: Esta é a verdadeira fé cristã. Aquele que não o crer com firmeza e fidelidade, não poderá ser salvo. É uma palavra dura, intolerante? Sim! Mas é assim que Deus o afirma e coloca. Ouvi alguém dizer: Eu creio só na primeira pessoa de Deus, em Deus Pai, num Deus supremo. Ora Jesus afirmou com clareza: Eu e o Pai somos um. (João 10.30 RA) E: A fim de que todos honrem o Filho do modo por que honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou. (João 5.23 RA) Sim, Deus quer ser adorado conforme ele se revelou em sua palavra, a Bíblia. Ela é verdade absoluta. Dela não podemos abrir mão. Toda a adoração a Deus fora palavra de Deus é idolatria e abominação.

3. A Palavra que liberta – Este Deus nos ama e nos libertou. Na festa da Santíssima Trindade lembramos o grande, infindo amor libertador do Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus em três pessoas distintas. Quero resumi-lo numa palavra do apóstolo Paulo: Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados... e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne, mediante a sua morte, para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis, se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro. (Colossenses 1.13-14, 20-23 RA)
Que Deus maravilhoso. Não é em vão que Jesus afirmou: E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço. (Mateus 11.6 RA) Vejam, ele nos libertou do império das trevas, do reino de Satanás no qual nascemos. [Se houver batismo podemos incluir as seguintes palavras: Hoje estas crianças serão libertadas deste império das trevas pelo batismo, o meio pelo qual Deus derrama sua graça em seus corações, e os transporta para o reino do seu amor.] Nós não podemos nos libertar. Ele nos libertou. Em primeiro lugar pos sua morte na cruz. Ali ele pagou pelo nosso Pecado. Por sua ressurreição triunfou sobre nossos inimigos. Pelo seu Espírito Santo nos levou à fé. Pela fé recebemos o perdão dos pecados e nos tornamos membros do seu reino. Eu não posso me transportar para o seu reino. Ele o faz. Ele nos libertou, ele nos transportou, ele nos salvou. Louvado seja Deus.

4. Temos um Deus gracioso e maravilhoso, a ele queremos servir – A este Deus queremos amar. Nele queremos crer, confiar e nos alegar nesta salvação. Sendo libertados e membros do seu reino, queremos viver como filhos de Deus por amor a ele. Amá-lo de todo coração, isto inclui ouvi-lo, servi-lo, e segui-lo.
Adoramos o mistério da Trindade na unidade e a unidade na trindade. Nós nos alegramos em seu amor. Jubilamos na paz e na esperança da vida eterna.
Por isso dizemos jubilosos: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio agora é e por todo o sempre há de ser. Amém.
São Leopoldo, 09/05/2008
Horst R. Kuchenbecker

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Atos 2.42-43. Pentecostes.2008

Introdução
Pentecostes, a festa do Espírito Santo, 50 dias após a Páscoa. Neste dia, Deus derramou o Espírito Santo sobre os discípulos. Foi um dia maravilhoso. Os discípulos experimentaram a ação do Espírito Santo: o som, como de um vento impetuoso; as línguas, como que de fogo sobre suas cabeças; o poder de falarem em outras línguas; a compreensão da salvação que Deus preparou por Cristo; a coragem para proclamar esta boa notícia da salvação; a conversão de três mil pessoas, que foram batizadas. Que maravilha! Lemos, ainda, a respeito desta jovem comunidade: Perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. (At 2.42,43)

1. O Espírito Santo. - O Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade. Ele é Deus igual ao Pai e ao Filho. Ele procede do Pai e do Filho (Jo 15.26), mesmo assim não é anterior nem posterior, mas igual ao Pai e ao Filho em poder, glória e majestade (Cf. Credo Atanasiano). Ele atua desde a criação. Concedeu dons aos fiéis do Antigo Testamento. Jesus prometeu enviá-lo. Ele disse: Permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder. (Lc 24.49)

2. O Espírito Santo “glorificará a Cristo”. - A principal obra do Espírito Santo é “guiar a toda a verdade” e “glorificar a Cristo nos corações” (Jo 14.26; 16.13-15). Jesus disse: O Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito. (Jo 14.26) E: Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo que tiver ouvido e vos anunciará as cousas que hão de vir. (Jo 16.13) Glorificar a Cristo nos corações é tornar Cristo grande no coração. Isto não é somente levar a pessoa ao conhecimento dos fatos históricos da vida de Cristo, mas mostrar porque e para que isto aconteceu. Isto é, levar a pessoa ao reconhecimento de seus pecados, ao arrependimento e a reconhecer em Cristo o seu Salvador pessoal. Pois Jesus, como nosso substituto, cumpriu a lei e por seu sofrer e morrer pagou a culpa da humanidade, para que todo o que confia na graça de Cristo, não pereça eternamente no inferno, receba perdão de seus pecados, volte à comunhão com Deus, tenha paz com Deus e como filho de Deus seja herdeiro da vida eterna. Nosso Catecismo Menor resume este trabalho do Espírito Santo assim: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim como chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. Nesta cristandade perdoa a mim e a todos os crentes diária e abundantemente todos os pecados, e no dia derradeiro me ressuscitará a mim e a todos os mortos, e me dará a mim e a todos os crentes em Cristo a vida eterna. Isto é certamente verdade.”
3. A Ação do Espírito. - Você já experimentou a ação do Espírito Santo? Talvez alguém dirá: Não! Eu não me recordo de nenhuma experiência do Espírito Santo. Como o Espírito Santo atua e age?
Normalmente, falamos com certa reserva de experiências do Espírito Santo. Pois, as muitas experiências apregoadas por aí, como o falar em outras línguas, operar milagres, etc., não condizem as afirmações da Bíblia. Por outro, precisamos dizer que todo o cristão experimenta a ação do Espírito Santo. Em primeiro lugar precisamos acentuar que o Espírito Santo atua pelos meios da graça: palavra e sacramentos. Por este meios leva ao arrependimento, opera e conserva a fé. Esta é a principal ação do Espírito Santo. Ele leva a crer e ter a Cristo “como Senhor.” Não um novo Senhor da lei, mas como o Senhor que nos libertou da escravidão do pecado, do poder da morte e da tirania de Satanás. Ele nos chamou para a liberdade. Jesus veio para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos. (Lc 4.18). Por isso o apóstolo Paulo pode escrever: Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. (Gl 5.1). Quer sintamos ou não, cada cristão recebeu o Espírito Santo no batismo. E o Espírito Santo nos mantém nesta fé, conduzindo diariamente ao arrependimento, consolando com a graça de Cristo, impulsionando a amarmos nosso próximo, para o servir no cumprimento de nossos deveres.

4. O Espírito Santo edifica a igreja e concede dons aos homens. - No dia de Pentecostes, o Espírito Santo veio com grandes sinais e operou maravilhas. Ele ainda hoje edifica a igreja e concede dons aos fiéis para todo o trabalho no lar, na pátria e na igreja. O apóstolo Paulo escreve: A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando um fim proveitoso. (1 Co 12.7). Esta passagem tem sido lida por alguns como lei, interpretando-a assim: O Espírito Santo concedeu dons a todos. Procure saber qual o seu dom e coloque-o a serviço da igreja. Isto tem deixado as pessoas ansiosas e preocupadas com os dons. Se lermos esta passagem à luz do evangelho, então sei que o Espírito Santo me levou à fé em Cristo e agora quero servir ali onde Deus me colocou, nas responsabilidades que ele me confiou e com as forças que ele concede. E onde me faltam dons e forças, peço-as a Deus. E ele sabe o que pode me conceder, em que grau e quando. Assim sirvo na alegria e força do Espírito Santo.

5. Leitura e Oração. - Lembrados de que o Espírito Santo atua por palavra e sacramentos, por isso queremos permanecer apegados a estes meios da graça. Ler diariamente a palavra de Deus, participar dos cultos e da santa ceia e pedir ao Espírito Santo que nos ensine, nos guarde fiéis na fé, na sã doutrina, nos console e conceda forças para vencermos as tentações, servindo com alegria, voluntariamente ao Senhor.
Oh! vem, Espírito de amor,/ meu guia celestial,/ promessa de meu Salvador/ e vivo manancial.
Aviva a nossa débil fé/ e vem nos consolar,/ benigno, guia o nosso pé/ e firme o faze andar.
Conforta o nosso coração;/ oh! nele vem morar./ Pedimos tua doação:/ a fé, que vai salvar. (HL 133.1-3).
São Leopoldo, 08/05/2008
Horst R.Kuchenbecker

Joel 2.28-29. Pentecostes, 2008

Dia de Pentecostes
Joel 2.28-29

Hoje a cristandade celebra o dia de Pentecostes, a descida do Espírito Santo, o aniversário da igreja cristã. Neste dia Deus enviou o Espírito Santo, o Consolador, conforme prometido por Jesus: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). “Ele glorificará a Cristo” (Jo 116.14).
Mas Pentecostes não é uma simples festa na qual recordamos um fato passado. O Espírito Santo foi enviado para ficar e trabalhar na cristandade até ao fim dos tempos. Confessamos com Lutero no terceiro artigo do Credo Apostólico: “Creio que por minha própria razão e força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé.”
Nos últimos tempos, a doutrina do Espírito Santo tem sido reexaminada por quase todas as igrejas cristãs, pois o pentecostalismo – um movimento que já perpassa quase todas as denominações cristãs – dá grande ênfase à ação do Espírito Santo. Este movimento ensina que precisamos receber um segundo batismo, a saber, o batismo do Espírito Santo, com manifestações especiais e recebimento de dons especiais. Daí não ser raro ouvirmos a interrogação: “Recebestes , porventura, o Espírito Santo quando crestes?” (At 19.2). Os Pentecostais dizem: As igrejas tradicionais estão do lado certo do Calvário, mas do lado errado de Pentecostes; elas estão do lado certo do perdão, mas desconhecem o poder do Espírito Santo. Será? Vejamos

O profeta Joel atuou, provavelmente, após o exílio, pelo ano 400 a. C.. Ele fala sobre o tempo da vinda do Messias, o Salvador da humanidade e profetiza sobre os dias do derramamento do Espírito Santo, o dia de Pentecostes. Por isso o apóstolo Pedro afirmou no dia de Pentecostes: O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel. (At 2.16)

O que o profeta diz a respeito desse dia de Pentecostes?

“E acontecerá depois” (v 28). - Depois de que? Depois daqueles dias. Que dias? Depois que Deus tiver enviado o Salvador e este ter, por sua morte e ressurreição, salvado a humanidade. Então será derramado o Espírito.
“Derramado”. O verbo denota uma continuidade. O Espírito será dado para continuar a trabalhar na terra até o dia do juízo final.
Mas o Espírito Santo já não fora dado antes? Ele não está atuando desde a criação do mundo. Sim! O Espírito de Deus, o Espírito Santo estava presente na criação do mundo e “pairava sobre as águas”(Gn 1.2). Ele concedeu dons a Moisés e seus auxiliaras (Nm 11.17,25). Ele concedeu dons a Josué e aos juízes (Nm 27.18; Dt 34.9). Ele guiou profetas e reis (2 Rs 2.9). Mas agora, que Cristo completou sua obra redentora, ele é dado em toda sua plenitude.
Será derramado. Não como no Antigo Testamento só para algumas pessoas especiais, mas agora de forma abundante e diz expressamente: “Sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhar profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões, até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias” (vc.28).
“Sobre toda a carne.” Não no sentido de que todos receberão o Espírito, pois muitos o rejeitarão. Mas ele é dado para atuar e trabalhar em todos. Ele é dado de tal forma que não fará distinção entre homens e mulheres, jovens e adultos, patrões e servos (escravos).
Ele é dado para que todos possam profetizar, isto é, ouvir a Deus e falar dele aos outros. Pois agora todos os que se arrependem e crêem na graça de Cristo “são sacerdotes reais” (1 Per 2.9) e templos do Espírito Santo (1 Co 3.16; 6.19). Crianças, jovens e adultos serão capacitados para falarem de Cristo como seu Salvador.
–“Vossos filhos e vossas filhas profetizarão.” Quantas crianças, mesmo pequenas, testemunharam com simplicidade de seu Salvador e levaram seus pais a Cristo.
–“Vossos jovens terão visões.” É impressionante observar, desde o início do cristianismo, o entusiasmo dos jovens pela causa de Cristo. Com que entusiasmo Estevão testemunhou e não temeu a ira de seus mestres. O entusiasmo dos jovens está bem colocada no próprio Hino da Juventude Luterana: “Juventude, tem toda a parte, desde a serra ao mar, ora e trabalha pela igreja e o lar.”
–“Vossos velhos sonharão.” Velhos normalmente não tem mais sonhos, planos, esperanças de grandes realizações. Mas os cristãos idosos têm sonhos. Eles têm a grandiosa esperança da vida eterna e dão testemunho disto. Nossos pais o colocaram no Credo Apostólico: “Creio... na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.” Que esperança essa do novo céu e da nova terra.
–“Até sobre os servos e sobre as servas derramarei o meu Espírito naqueles dias.” Que testemunho vibrante o do escravo Onésimo. Muitos outros escravos testemunharam de sua fé e levaram seus senhoras à fé.

Qual o principal trabalho do Espírito Santo? Jesus responde: Ele é “o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade... Ele me glorificará” (Jo 16.14). Qual é portanto o trabalho do Espírito Santo? Que verdade o Espírito Santo vem revelar? “Ele convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo; do pecado, porque não crêem em mim; Da justiça, porque vou para o Pai, e não me vereis mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado” (Jo 16.8-11). Este é o trabalho do Espírito Santo. E como o Espírito Santo faz isto? Ele o faz por meios, a saber, a palavra de Deus e os sacramentos, que são o batismo e a santa ceia. Por estes meios o Espírito santo vem ao coração. Abre nossos olhos para reconhecermos a Deus e sua santidade. Para reconhecermos que como criaturas deveríamos andar na presença de Deus e ser perfeitos (Gn 17.1), pois a alma que pecar essa morrerá (Ez 18.4). Mas eis que nascemos em pecado, com o pecado original, a completa corrupção de toda a natureza humana, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação. Somos míseros pecadores que merecemos a eterna condenação. Quando, no dia de Pentecostes, os povo reconheceu que os seus pecados foram a causa da morte de Jesus, lemos: Compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? (At 2.37). E o apóstolo Pedro respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, pare remissão dos vossos peados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar. (At 2.38,39) Então os que lhe aceitaram a palavra foram batizados; havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. (At 2.41) O Espírito Santo os chamou pelo evangelho e os iluminou com seus dons. Estes dons são o conhecimento da verdade bíblica de serem pecadores e de Cristo ser o seu único e suficiente Salvador e a confiarem no evangelho que lhes estava sendo anunciado plenamente, na mensagem que lhes mostrava Cristo como o seu único e suficiente Salvador. Foram então batizados. O Espírito Santo os congregou. Estava formada a primeira congregação cristã. A respeito da qual lemos: E perseveravam na doutrina os apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédios dos apóstolos. Todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. (At 2.42-45)
Sim, dizem alguns, e hoje, onde estão os prodígios e sinais? Precisamos lembrar que a promessa de Jesus, registrada no evangelhos de Marcos: Ide por todo o mundo e pregai e evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. Estes sinais há de acompanhar aqueles que crêem... (Mc 16.15-18) Quem determina quando, como e até onde o Espírito Santo deve acompanhar alguém é Deus Pai. Os apóstolos fizeram prodígios e sinais, mas não quando eles o queriam, mas quando o Espírito Santo o queria. Paulo era homem muito doente (Gl 4.14), Timóteo era doente (1 Tm 5.23). Porque não curaram a todos. Por outro, quantos milagres acontecem ainda hoje, quando Deus atende misericordiosamente as orações e súplicas de seus filhos. E ao sermos atendidos, não precisamos logo fazer grandes alaridos, dando testemunhos e escrevendo a respeito. Outros tantos milagres que Deus, em sua graça realizou, talvez nem notamos.
O apóstolo Paulo escreve: Na esperança fomos salvos. Ora,m esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos., Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza: porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. (Rm 8.24-27) Esses gemidos, não são esses que alguns pregadores querem imitar. Eles são realmente inexprimíveis. Pode ser que sentimos por vezes profunda tristeza, diante de problemas e angústias pessoais ou da igreja e nem achamos palavras para expressar o que sentimos, nem sabemos o que realmente pedir se isto ou aquilo. Nesta tristeza, que o Espírito Santo conhece, ele intercede por nós. Maravilhoso.
O Espírito Santo, a terceira pessoa da Santíssima Trindade atua até hoje, não fora da palavra, mas pela palavra. Nós estamos amarrados á palavra. Na palavra devemos procurar o Espírito Santo e não em nossas experiência, que podem nos enganar. A principal obra do Espírito Santo é não se enaltecer ou ser enaltecido, mas glorificar a Cristo nos corações, isto é, tornar Cristo grande nos corações, para reconhecemos a obra de Cristo e louvá-lo. Ele nos guia em toda a verdade. Ele nos fortalece as fé, dá-nos força para a vida santificada. Ele nos guia. A ele agradecemos por nos ter levado e conservado na fé. Suplicamos que nos fortaleça e guie em toda a verdade, e nos dê força para servir na família, na sociedade e na igreja. “Espírito divino, que vens do Salvador, pedimos teu ensino na ciência do Senhor. Fazermos a vontade de Deus vem ajudar, perdão e santidade em Cristo revelar. Amém
São Leopoldo, Pentecostes, 2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

João 17.1-11.Oração sumo sacerdotal de Cristo

João 17.1-11, 7º Domingo de Páscoa (04/05/08)
A oração sumo sacerdotal de Jesus. (Obs.: Na Série Trienal, a oração sumo sacerdotal de Jesus é dividida em três partes. Na Série A, primeira parte: Jo 17.1-11. Série B, segunda parte: Jo 17.11b-19. Série C, terceira parte, João 17.20-26. O interessante seria ler no culto toda a oração.)
Estudo do texto.
Os três capítulos (14,15,15) que antecedem a oração sumo sacerdotal de Jesus são sem dúvida as palavras mais preciosas dos ensinos de Jesus a seus discípulos. Palavras de profundo consolo para todos nós.
Terminado este seu discurso, Jesus levanta seus olhos aos céus e se dirige ao Pai celestial em oração. Ele fala com seu Pai celestial em voz alta diante de seus discípulos, pois sua oração é também ensino e consolo para eles, como para os fiéis em todos os tempos.
Só aqui nos é permitido ouvir uma conversa mais longa de Jesus com seu Pai. Que majestade, que humilde. Ao mesmo tempo, ela nos revela o que se passa na mente de Jesus ao se despedir de seus discípulos, e qual sua preocupação com respeito à sua igreja até os confins dos séculos, pois Jesus ora por toda sua igreja na terra: Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra. (v.20)
Jesus, como nossos sumo sacerdote, a quem foi dado todo o poder no céu e na terra, está à direita do Pai e intercede ainda hoje por todos nós, que ainda estamos no mundo.
Vejamos esta oração, ela contém três súplicas: a) Jesus pode em seu favor; b) intercede por seus discípulos; c) intercede por todos os que virão a crer pela pregação do evangelho.

a) Pede ao Pai em seu favor.
- v.1. Pai, é chegada a hora; glorifica o teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti.
Ele se dirige simplesmente ao Pai. Pai, a hora é chegada. E a hora para a qual ele veio ao mundo (12.27), não é simplesmente a hora da morte, mas o momento no seu tudo: sofrimento, morte, ressurreição e ascensão.
A hora chegou para ambos: Pai e Filho. O Pai, para que glorificasse o Filho e o Filho, para que glorificasse o Pai.
Jesus pede ao Pai força interna para que pudesse completar bem a obra que o Pai lhe confiou: Salvar a humanidade. O momento mais crucial estava pela frente, seu sofrimento, sua luta na cruz, sua agonia na morte, para o que pede o amparo do Pai. Pois a obra glorificaria o Pai e o Filho. Por esta obra todos os salvos lhe cantarão louvores e o glorificarão eternamente. A pregação do evangelho glorificaria o Pai eternamente e possibilitará Jesus e o Pai habitarem nos corações dos fiéis. Os fiéis voltariam à comunhão com o Pai e o Filho.
Terminada sua árdua tarefa, o Pai glorificaria o Filho, isto é, o Filho seria exaltado pelo Pai. Em que consistiu a exaltação de Cristo? Em Jesus, como verdadeiro homem usar agora sempre e inteiramente todos os atributos de sua natureza divina comunicados à natureza humana. Exaltado à direita do Pai exerce o reino do poder, da graça e da glória. E tudo isso, para que o evangelho fosse pregado no mundo, para a glória do Pai.
Quando Jesus veio ao mundo, o Pai lhe deu toda a autoridade sobre a humanidade. Mas durante a humilhação, conforme sua natureza humana, ele não a usou. Agora exaltado, a usa plenamente.
- v.2. Para que conceda vida eterna. Esta autoridade tem um propósito: dar a vida eterna a todos os que me deste. Todos que o Pai traz ao Filho. Este dom da vida eterna é dado pela graça de Cristo a todos os que vieram a crer e o recebem. Os incrédulos se excluem a si mesmos.
- v.3. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Jesus não está definindo o que é a vida eterna. A vida eterna é dada. Ela é dada pela fé, operada pelo revelar a graça de Cristo e o amor do Pai, como o único Deus verdadeiro. Revelado pela pregação da palavra de Deus, pelo qual o Espírito Santo leva ao arrependimento e a confiança em Cristo, concedendo o conhecimento do verdadeiro e único Deus, levando a esta experiência, esta comunhão.
- v.4. Eu te glorifiquei na terra. Jesus revelou o Pai, seus atributos, seu amor para salvar a humanidade.
- v.5. E agora. Terminada a obra, pede que o Pai o glorifique com a glória que ele teve antes de vir ao mundo.
Ele sabe que completou a obra do Pai. Glorifica-me, isto é, em minha natureza humana, com a glória de sua natureza divina, que ele teve antes da criação. Em seu profundo sofrer e sua agonia Jesus olha para o alvo final, a salvação da humanidade, a glória do Pai e do Filho, a bem-aventurança eterna. Assim queremos proceder também em nosso momento final.

b) – Agora ora por seus discípulos.
a) Ao partir revela sua preocupação, seu amor, seus pensamentos mais íntimos a respeito de seus discípulos. Seu profundo amor a eles.
b) Ao mesmo tempo temos aqui a primeira afirmação sobre a grande missão que tem o objetivo de glorificar o Pai.
- v. 6. Os homens que me deste no mundo. (cf.: 6.37,44) Serão enviados ao mundo como apóstolos de Jesus (v.18) Por eles, ele ora especialmente. A graça universal atua nos coações pela ação do Pai: me deste do mundo. Por nascimento eram do mundo, sob a ira e condenação. Foram tirados para afora do mundo ela graça. (15.19)
Eles foram dados. Eram da aliança antiga, no Antigo Testamento. Encontraram em Jesus o que o Antigo Testamento prometia. Eles guardaram a Palavra. A palavra teve grandes feitos neles.
- v.9.10. É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas aqueles que me deste, porque são teus; ora, todas as minhas coisas são tuas e as tuas coisas são minhas; e neles eu sou glorificado. Jesus intercede especificamente por seus discípulos. Eles receberam a palavra e creram. O mundo não pode ter a comunhão do Pai, porque não recebem a palavra e não crêem. Eles se excluem da comunhão com Deus. O mundo Jesus inclui em sua oração um pouco mais adiante: para que o mundo creia. (v.21,22)
- v.11. Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo. Ao passo que eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós. Em profundo amor, Jesus pede que o Pai os guarde. Em que sentido? Guardar no nome de Jesus significa na fé, apegados ao nome de Deus, à sua Palavra para que continuem unidos (um), nesta comunhão com Deus, estabelecida pela fé. Jesus é o Autor e Consumador de nossa fé. (Hb 12.2) No versículo 15, temos: guarda-os do mal. Isto é, das tentações do mundo e do diabo. Como nós. A união da Trindade não pode ser duplicada, mas somente imitada.
Todos os que crêem são um. Vivem em conexão com Deus. A mesma fé. São internamente “um”, a uma sancta ecclesia, a comunhão dos santos. E isto por graça.
(Obs.: Jesus não esta orando aqui pela unidade. A má tradução dá esta impressão. Eles são um em Cristo. E isto não está em questão. Eles são um. A oração é que Deus Pai os guarde “a fim de que possam ir como “um”. Ele pede que a união estabelecida permaneça inquebrantável, pelo guardar do Pai. Como será mantida? No nome, na Palavra. Como ela é perturbada? Pelo ensino de doutrina falsa contrária à Palavra. Toda a oração tem o objetivo de permanecerem unidos, apegados à sua Palavra.)
- v.14. Tenho dado a tua Palavra (logos). Substância que é dom, que receberam em fé.
- v.17. Santifica-os. Santificar significa separa-os, coloca-los à parte. Isto inclui toda a atividade. Separá-los do profano: arrependimento, fé e vida em amor a Deus e ao próximo. Devotados unicamente a Jesus. Tudo o que Jesus fez, toda sua obra tem este propósito. Eram teus, já pela aliança antiga. Deus os deu a Jesus. Eu os guardei em teu nome. Dei lhes a tua palavra. Não são do mundo. Tudo isso, em si, não é a primeira parte de um todo, de um ato, mas pertence ao “santifica-os”. A parte final da santificação tem lugar somente no momento da morte.
Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade. Em união com a verdade.
A verdade. É substância transmitida pelo poder da palavra. Tua Palavra é a verdade, do AT e do NT. Toda a verdade.
-v. 19. Me santifico a mim mesmo. Ele está falando do ato no qual ele está engajado no presente momento, o sacrifício como substituto. Os discípulos são santificados para um propósito diferente, para a missão no mundo.

c) – Jesus ora por sua Igreja.
- v. 20-22. Não rogo somente por estes... a fim de que todos sejam um... para que sejam um como nós. Jesus pede por todos aqueles que virão a crer nele, que serão enxertados nesta comunhão, formando a una, santa igreja cristã, a comunhão dos santos. O propósito é: sejam um, tu em mim e eu neles. Esta união deve ser bem compreendida. Não temos Cristo nem Deus sem a Palavra e nem união sem a Palavra. Cada desvio da Palavra perturba a união.
Quanto mais unidos na Palavra, maior a vitória neste mundo. Infelizmente o desvio da Palavra, nestes tempos finais, como Jesus advertiu é grande.
Mas Jesus, como nosso sumo sacerdote, à direita do Pai, ainda hoje intercede por nós ao Pai. Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam, em fé, no coração. Amém
São Leopoldo, 02/05/2008
Horst R. Kuchenbecker