segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Filipenses 4.4-13. Alegrai-vos

20° Dom. após Pentecostes (28/09/2008)

Os textos do dia:

Salmo 118.19-20: É um dos salmos proferidos de Lutero, que lhe deu muito conforto enquanto estava em Coburg. As portas da justiça são as portas do Reino de Deus. Ali só entram os que estão vestidos com o manto da justiça de Cristo. Eles se reúnem para louvar a misericórdia de Deus. Fariseus e saduceus, em sua justiça própria, não reconheceram a pedra principal que é Cristo. Bem-aventurados os que não se escandalizam em Cristo.

Isaías 5.1-7: A parábola da vinha. Um hino a Deus com respeito ao seu amor a Israel. Deus plantou esta vinha, o povo de Israel. Teve todo o cuidado com ela. Limpou a terra. Cercou-a. Esperava o melhor. Mas ela deu frutas azedas. Que mais Deus poderia fazer? O povo deve julgar e confessar: Somos culpados. Mas eles não se arrependeram. Deus a entregou aos animais selvagens, destruição aos anos 70, após Cristo. – Assim ainda hoje Deus cuida e edifica sua igreja. Mas quem não tiver os bons brutos da fé, será lançado ao fogo eterno. Somos justificados somente pela graça de Cristo sem as obras da lei; mas a fé necessariamente produz boas obras. Não há fé sem obras.

Filipenses 3.12-4.1: Não que eu o tenha já alcançado. (v.12,13) O apóstolo combate a concepção judaica de que alguém possa, por esforços próprios, alcançar a perfeição. Não pensem que eu, Paulo, já o alcancei e sou santo. Idéia que mais tarde criou corpo no catolicismo, que fala dos “santos”. Paulo fala da tensão na vida cristã entre o “já agora” e o “ainda não”. Sim, somos santos pela graça de Cristo, mas temos ainda nossa natureza carnal, por isso a luta é diária. Como cristãos recebemos vida nova, vontade nova, poder espiritual novo, habilidades e dons. A vida cristã é vivida em diário arrependimento e consolação com a graça de Cristo. “Mas o grande momento virá, quando damos o último passo para a eternidade.” (Lenski)
- Esquecendo-me das coisas... prossigo para o prêmio. (v.13-14) O que é este esquecer? Não é um esquecer absoluto. Há lembranças que o próprio apóstolo cita. Mas é um um constante descartar de coisas que pudessem vir a atrapalhar seu avanço para o alvo. Jesus nos adverte: Nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com... preocupações deste mundo. (Lc 21.34)
- Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. (v.14) A soberana vocação é o chamado à fé cristã. Diante dos seus olhos está o grande dia da ressurreição, a vitória final. Nesta jornada ele quer levar consigo o maior número possível de pessoas.
- Todos, pois, que somos perfeitos... (v.15), isto é, espiritualmente maduros, amadurecidos, não são mais bebês na fé. Tenhamos este sentimento: convicção, alegria, alvo.
Os judaizantes (obras) são inimigos da cruz de Cristo, só se preocupam com coisas terrenas. Os pregadores evangelicais também só falam do poder de Deus, da solução dos problemas, da saúde, da riqueza terrena, da felicidade terrena, são os judaizantes modernos. Cuidem para não serem enganados. (Obs.: Na pregação destacar a graça, a fé e obras como frutos da fé, mas rebater a pregação das obras da decisão, do apossar-se da graça dos universais e Show da Fé.)

Mateus 21.33-43: A parábola dos lavradores. Atentai! Jesus chama atenção para o que vai dizer. O lavrador é Deus Pai. A vinha é o povo de Israel, que Deus formou a partir de Abraão. A cerca é a Lei que Deus deu ao povo, pela qual separou Israel de todos os outros povos. O tanque é a fonte da vida, a promessa da graça de Cristo. A torre de vigia é a dinastia de Davi. Os lavradores que devem cuidar da vinha são os fariseus e levitas. Os servos do rei são os profetas que Deus enviou a Israel para recolherem os frutos da fé, mas eles foram espancados e mortos. “Qual dos profetas vossos pais não perseguiram.” (At 7.52; Lc 13.34). O filho mandado por Deus é Jesus Cristo.
Jesus disse aos fariseus: Nunca lestes que a pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular, isto procede do Senhor. Portanto vos digo, o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produz os respectivos frutos. Os fariseus entenderam a parábola e buscaram prendê-lo, mas temiam o povo. Quem se escandalizar em Cristo será despedaçado, condenado no grande dia do juízo. Bem-aventurados os que crêem em Cristo. Eles receberão a vida eterna. Senhor firma-nos na fé, para produzirmos os frutos desejados. Não nos lance fora de tua presença. (Obs. Quem pregar sobre o evangelho poderá uni-lo com a leitura do Antigo Testamento.)

21° Dom. após Pentecostes (05/10/2008)

Salmo 23. Este é um salmo do rei e profeta Davi. Deus Espírito Santo colocou este salmo no coração de Davi. Então Davi o orou de todo o coração e o anotou. Agora o Espírito Santo quer colocá-lo no seu coração para que você o ore de coração (Zorn). O salmo se divide em três partes. Uma palavra mui consoladora a respeito de Cristo. Uma súplica por consolo dirigida a Cristo. Uma consoladora confissão de fé. Introdução. Não sabemos em que ocasião Davi compôs este salmo. Alguns são de opinião que ele o compôs num momento de sua maior angustia e aperto, na gruta, quando fugia do rei Saul. (1 Sm 24. e 26) 1) Uma palavra consoladora a respeito de Cristo, v.1-3: O Senhor é o meu pastor... Assim Davi canta e ora. Quem é este Senhor? O seu Deus e Salvador que o criou, o remiu e o santificou, que lhe perdoou todos os pecados, o Deus de Israel que lhe deu a vitória sobre Golias, que o ungiu rei pela mão do profeta Samuel, que o guia e protege. Você como filho batizado em nome de Cristo pode orar assim também, sem temor e com toda a confiança. Diga: Nada me falta, pois se tenho a Jesus, o Filho de Deus, meu Salvador, o que me poderá faltar. Como um pastor guia suas ovelhas, que nem sempre compreendem o caminho pelo qual são guiados, quando passam por pedras e desertos, mas elas sabem que o pastor quer o bem delas; assim Jesus nos alimenta com sua palavra, nos guia por pastos verdejantes e à água viva. (Mt 11.28) Ele nos guia pelas veredas da justiça, o evangelho. 2) Uma súplica por consolo dirigida a Jesus, v. 4-5: Ainda que eu ande... O caminho para o céu passa por vales e montes sempre sob a sombra da morte. (At 14.22; Mt 24.10; Mt 6.25; Fp 4.6) Satanás quer nos tragar. Mas não precisamos temer. Jesus está ao nosso lado. Ele venceu pecado, morte e Satanás. No fragor da luta ele nos prepara uma mesa farta, e diz: Deixa os inimigos por minha conta. Nele temos descanso e paz. 3) Uma confissão consoladora, v.6: Bondade e misericórdia me seguirão... Siga seu caminho rumo ao céu e se olhares para trás veras surpreso como bondade e misericórdia te seguira e te seguirão, até habitares na caso do Senhor para todo o sempre.

Isaías 25.1-9. Um texto maravilhoso. Ele proclama a misericórdia e vitória de Cristo. Imagine uma mãe preparando um banquete para seu filho que estava muito tempo ausente do lar. Na hora do banquete há a alegria do doador e do que recebe os benefícios. Tal banquete Deus preparou para seus filhos por meio de Cristo Jesus. O banquete se completou com a ressurreição de Cristo, a páscoa. Agora ele nos convida. 1. Tirou o véu. 2. Destruiu o inimigo, 3) Dá-nos a salvação. – 1. Tirou o véu. Por sua palavra tira a cegueira natural, nos ilumina e leva ao verdadeiro conhecimento de Deus e de sua graça. Gera a fé. 2. Nos anuncia sua vitória sobre pecado, morte e Satanás. “Eu sou a ressurreição e a vida.” 3. Nos oferece a salvação. O tempo se cumpriu. O tempo de espera chegou ao fim. Crê e serás salvo. Há júbilo entre os fiéis.

Filipenses 4.4-13.
Mensagem. Introdução. Alegrai-vos! Quem não gostaria de poder alegrar-se sempre e verdadeiramente de todo o coração. O mundo busca alegrias e não se cansa de inventar novas atrações e sensações. Muitas delas pecaminosas. O resultado final é sempre o mesmo: Um pequeno momento de alegria, seguido de canseira e enfado, e muitas vezes até de remorsos.
Os filhos de Deus, pela fé em Cristo, não têm prazer nas alegrias pecaminosas do mundo. Na verdade, eles também se alegram com as bênçãos terrenas, mas eles têm e buscam uma alegria superior: Cristo! O mundo não entende isso. As pessoas não cristãs acham que ser cristão é uma chatice, é andar triste. Pelo contrário. Nós temos uma alegria profunda que o mundo não conhece. O texto bíblico lido nos convida a refletir sobre esta alegria cristã. Que alegria é essa? Qual a sua fonte? Como ela se externa?
1 – Fundo histórico – O apóstolo Paulo escreveu a carta aos filipenses da prisão em Roma, lá pelo ano 61 AD. A Comunidade de Filipos vivia dias muito difíceis. Ela estava sofrendo árdua perseguição. Muitos fiéis foram açoitados, presos e mortos e muitas famílias destroçadas. Paulo lhes escreve uma carta para edificação e consolo. Nesta carta escreve: Alegrai-vos! Como? Que conselho estranho para momentos de tanto sofrimento. Este conselho parece fora de qualquer propósito. Que alegria poderia ser esta?
2 – A fonte da alegria – O apóstolo Paulo não fala de uma alegria fugaz, nem ignora o problema por uma fuga da realidade. Ele diz: Alegrai-vos! Alegrai-vos no Senhor! A fonte da verdadeira alegria em todas as situações é Cristo.
Alguém dirá: Cristo? Que alegria Cristo pode me dar? Muitos jovens dizem: Cristo é um estraga prazeres. Tudo o que gosto e quero a religião me proíbe. Estão aí meus pais dando-me, constantemente, um sermão sobre o que devo e não devo fazer do ponto de vista da religião cristã.
O mundo só conhece a alegria do mundo. E no centro desta alegria estão os desejos da carne, o pecado. A respeito dessa alegria, Jesus afirmou: Ai de vós que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar. (Lc 6.25)
Os filhos de Deus, a quem Jesus abriu os olhos, aos quais o Espírito Santo encheu de temor de Deus, não têm prazer no pecado, porque não são mais do mundo. Eles ficam tristes ao verem ainda tantas inclinações pecaminosas em seus próprios corações e verem tantos pecados ao derredor de si. A respeito deles Jesus afirma: Bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados. (Mt 5.3) Choram em verdadeiro arrependimento. Eles são consolados com a graça de Cristo. Pela Palavra de Deus sabem do amor de Deus revelado em Cristo Jesus, o quanto Deus os amou e ama a humanidade. Em Cristo eles têm completo perdão dos pecados, paz com Deus e a esperança da vida eterna. Bem-aventurado, disse Jesus, é aquele que não achar em mim motivo de tropeço, (Mt 11.6) mas crê na graça de Cristo. Esta verdade do perdão dos pecados, que Cristo nos conquistou, enche seus corações de alegria e de paz. Esta verdade da graça os faz ver o céu aberto. Eles se apegam a Cristo. E podem dizer com o apóstolo Paulo: Já não sou mais eu que vivo, mas Cristo vive em mim. O meu viver é Cristo. (Fp 1.21)
“Alegrai-vos, sempre no Senhor. Esta palavra “sempre” é muito importante. Ela significa: Em todos os momentos, em todos os caminhos, no bem estar e também sob a cruz. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na felicidade e também nos momentos de perseguição. Sim, nada pode roubar aos cristãos esta alegria em Cristo. Paulo está preso, mas as algemas não podem lhe roubar a alegria em Cristo. Os filipenses estão sendo estraçalhados, sofrem, mas nada pode lhes roubar a alegria em Cristo. Cristãos foram lançados diante de leões e queimados vivos e entoavam hinos de louvor. Nada pode roubar-lhes a certeza do amor de Deus, do perdão e a esperança da vida eterna. Na carta aos romanos o apóstolo afirma: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” (Rm 8.37) Cristo concede esta força para suportar todas as adversidades da vida. Por isso podemos cantar ainda hoje com Lutero: “Que tudo se vá, proveito não lhes dá, os céus nos são deixados.”
O apóstolo Paulo afirma: Outra vez vos digo, alegrai-vos. Apesar do pecado em nós e ao nosso derredor, não queremos permitir que isto nos roube a alegria de viver. Estamos diante da face de Deus em verdadeiro e diário arrependimento e confiança na graça de Cristo que nos reergue e nos faz louvar e jubilar.

3 - Vossa moderação – A alegria é algo fundo no coração e se expressa na vida de diversas formas. A alegria do mundo, normalmente, leva a extravagâncias, excessos e libertação dos desejos carnais. A alegria cristã ao contrário, conduz à moderação. Moderação é um uso correto das coisas. É reprimir os desejos da carne. É usar tudo conforme a vontade de Deus. Moderação, especialmente em relação às pessoas que nos cercam. O mundo nos odeia, mas nós procuramos amar os próprios inimigos.
Não será, porém, tal procedimento o fim do cristianismo. Não. Foi exatamente esta moderação, este amor demonstrado aos inimigos, e esta alegria demonstrada nas horas cruciais que levou muitos a refletirem sobre a mensagem cristã e se converteram ao cristianismo. Dizia-se, com razão, no tempo da perseguição romana: Cada gota de sangue de um cristão derramado, gera centenas de outros cristãos.

4 – Não andeis ansiosos de coisa alguma (v.6) – Quantas vezes já ouvimos as expressões: Tenho medo! Não agüento mais. O que será de mim! Que preocupações. Paulo estava preocupado com o futuro de suas congregações e do cristianismo. Muitos cristãos em Filipos que foram presos, temiam a tortura, estavam preocupados com respeito a seus filhos e parentes. Paulo lhes escreve: Não andeis ansiosos de coisa alguma. Isto é fácil de dizer, mas difícil de viver, mesmo para nós que não fomos provados até o sangue. (Hb 12.4) O apóstolo nos estimula a colocarmos nossas preocupações nas mãos de Jesus. Jesus sabe o que nos está acontecendo. Ele sabe até onde poderá deixar os inimigos zombarem ou martirizarem os fiéis. Ele sabe guiar, proteger e fortalecer sua Igreja. Nesta confiança podemos continuar alegres. Perto está o Senhor. Esta palavra tem dois sentidos. Jesus está perto, conhece os sofrimentos e está pronto a amparar e fortalecer. Por outro, Jesus virá em breve para julgar vivos e mortos. Em breve estaremos com ele nos céus, na bem-aventurança.

5 – E a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus – A paz de Deus. É difícil descrever a paz de Deus, num mundo que fala tanto de paz, mas não tem paz. A razão humana não compreende. Médicos muitas vezes se admiram quando estão diante de pacientes cristãos, e dizem: Estes cristãos têm uma paz interna que não entendemos. Mesmo quando não há mais solução médica e a morte se aproxima, eles estão consolados. Esta paz é operada pelo perdão de Cristo. Pelo perdão, eles têm certeza da comunhão com Deus. Na comunhão com Deus, eles têm certeza da vida eterna, do lar celestial. Tudo isso lhes infunde paz na alma. Por isso o apóstolo diz: A paz de Deus guardará os vossos corações. Não é nossa força, é a força da paz de Cristo. Ela dá forças para suportar todas as adversidades e atrocidades e consola na morte. “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez vos digo, alegrai-vos.”

Mateus 22.1-10. Parábola do banquete de casamento. Na terça-feira da Semana Santa, de manhã Jesus foi com seus discípulos novamente para Jerusalém. Ali passou o dia ensinando no templo. Os fariseus, escribas e saduceus o espreitavam em todos os lugares, instigando o povo contra Jesus. Jesus contou-lhes, ainda na parte da manhã, a parábola do banquete de casamento. Os fariseus compreenderam a parábola e procuraram mais intensamente matá-lo. Esta parábola está ainda em andamento. Vejamos seus ensinos. Deus Pai prepara o banquete de casamento do seu Filho, que casa com sua querida noiva, a igreja, para tê-la consigo por toda a eternidade. Ele anunciou o casamento já a Adão e Eva e por muitos profetas. Quando tudo estava pronto, enviou profetas, dizendo: Vinde que está tudo preparado. Mas muitos em Israel, povo especialmente convidado, rejeitaram o convite. Tinham outras coisas por fazer. Alguns até tomaram os servos do rei os maltrataram e mataram. João Batista proclamou: Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. Jesus e seus discípulos disseram a mesma coisa. Israel, no entanto, rejeitou o amor de Deus. Deus os castigou. O juízo veio no ano 70 após Cristo, quando o general romano Ciro arrasou Jerusalém. Mas o rei enviou os seus servos para becos e valados convidar as pessoas para o banquete de casamento. Esta é a ordem que Jesus deu: Ide, fazei discípulos de todas as nações. (Mt 28.19) Esta ordem está em vigor ainda hoje e vigora até o dia do juízo final, quando o último dos eleitos entrar. Então se fechará a porta. Bem-aventurados os que crêem no evangelho. Mas ai daqueles que rejeitam o convite ou, como o mostra a segunda parte da parábola, tentaram entrar no banquete firmados em sua justiça própria, estes serão condenados. Somo profundamente agradecidos por nos ter convidado, chamado, iluminado e congregado. E enquanto durar o tempo da graça queremos proclamar este convite com todo o entusiasmo. Amém.


22° Domingo após Pentecostes (12/10/2008)

Salmo 96. O novo hino do santo evangelho. Uma profecia do reino de Cristo. Todas as criaturas são convocadas ao culto a Jesus, que governa com justiça.
-v.1-3. Cantai ao Senhor um cântico novo. É um hino que trás algo novo, e antes que vem, já vos faço ouvi-lo: Cristo e sua salvação. Isto é sempre algo novo que nos refrigera e alegra o coração (Is 42.1-10). Todos os filhos de Deus louvem ao Senhor. Eles são as novas criaturas.
-v.4-6. Grande é o Senhor. Ele é digno de ser louvado. Quem nos dera pudéssemos todos, todos os povos e criaturas louvá-lo.
- v.7-9. Adorai-o na beleza de sua santidade. Que todos ouçam seu evangelho, para o adorar em espírito e verdade.
- v.10. Dizei então as nações. A nós cabe proclamá-lo. Ele ama a todos e seja a salvação de todos.
v.11-13. Alegrem-se os céus. Todas as criaturas jubilem e aguardem o dia da libertação.

Isaías 45.1-7. O rei Ciro, o instrumento nas mãos de Deus para o bem de seu povo de Israel. O trecho se divide em três partes. 1) Deus dirige as nações, v.1-3. 2) Por amor a Israel, v.4-6. 3) O mundo não é dirigido por duas forças: o bem e o mal, mas por Deus que abençoe e amaldiçoa. – Deus escolheu o rei Ciro e lhe deu inteligência, força e vitórias. Ele o escolheu, muito antes de Ciro vir a ser, para que reconhecesse Deus como Senhor. Infelizmente, Ciro não o reconheceu. 2) Toda a ação política, guerras e vitórias tinham um objetivo: a glória e libertação de Israel. Ainda hoje Deu dirige os destinos políticos para o bem de sua igreja. Cabe-nos com toda a confiança orar por nossas autoridades. 3) Deus governa o universo, não duas forças do bem e do mal (do-in). Deus ama a humanidade. Ele a salvou por Cristo e mandou pregar o evangelho. Mas quem o rejeita cai sob sua condenação, seu juízo, seus castigos. (Jo 3.16-21). Cf. Pregação de Lutero contra os turcos. Lutero,. Obas selecionadas, vol 6.

1 Tessalonicenses 1.1-5. A carta inicia assim: Autor, destinatário, saudação. Tessalônica foi a segunda cidade na Europa evangelizada por Paulo Timóteo e Silas. Paulo pregou durante três semanas. Muitos abraçaram a fé. Houve um levante por parte dos judeus endurecidos. Paulo seguiu viagem. (At 17.1-10)
-v.2-3. Paulo ora por suas missões com agradecimento a Deus. Temos aqui o trinômio: Fé – amor – esperança, todas as três palavras enraizadas: “em nosso Senhor Jesus Cristo. A fé atua pelo amor. Não obras escolhidas pelas pessoas, mas as que Deus quer e a esperança no cumprimento final das promessas: Creio na ressurreição da carne e na vida eterna.”

Mateus 22.15-22. A inimizade dos sacerdotes, fariseus, saduceus e escribas contra Jesus crescia. Eles já gostariam tê-lo eliminado, mas temiam o povo, que considerava a Jesus um profeta. Então fizeram um esforço para tentar capturá-lo com algumas perguntas e assim desacreditá-lo diante do povo.
Decidiram-se sobre a pergunta a respeito do imposto. Eles armaram o cenário. Mandaram seus discípulos junto com herodianos, para fazerem uma pergunta capciosa a Jesus. O quadro parecia perfeito. Os discípulos perguntariam se é correto pagar imposto aos romanos? Se Jesus respondesse, sim, teria o povo contra si, que odiava a opressão romana. Eles esperavam o Messias para libertá-los do jugo romano. Se respondesse, não, os herodianos, servos do rei Herodes, poderiam acusá-lo de revolucionário e seria preso (Lc 10.20).
Após terem elogiado a Jesus, de ser um mestre verdadeiro e destemido, colocaram a pergunta. A tensão era sensível. Mas Jesus, conhecendo os corações, pediu que lhe dessem uma moeda. Ele realmente era pobre, não possuía nem sequer uma moeda. Tomou a moeda e perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam de César. Então lhes disse: Daí, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Pasmados com a resposta, os fariseus se retiraram.
Com isso Jesus no ensina a verdadeira separação entre Igreja e estado, o reino de Deus e o reino neste mundo e como devemos cumprir as responsabilidades em ambos. 1. Daí a César o que é de César. A moeda com a efígie e inscrição mostra quem governa no pais. Gozamos de sua proteção e a manutenção da ordem. Portanto, cabe-nos pagar o tributo. Como naquele tempo, assim ainda hoje, ninguém gosta de pagar imposto. Os protestos contra as altas taxas de imposto são constantes. Por outro lado, o governo se queixa de que não tem dinheiro para os muitos compromissos na educação, saúde, segurança e infra-estrutura. E não falta sonegação de um lado e corrupção do outro. Como cristãos cabe-nos cumprimento de nossos deveres. Sem dúvida, sempre houve e haverá muitas injustiças na cobrança dos impostos, além da gananciosa malvadeza dos próprios cobradores de impostos. Aos cidadãos compete valerem-se das leis, para exigirem justiça. 2. A Deus o que é de Deus. A Deus devemos o reconhecimento, a gratidão. o louvor, a obediência, adoração e servi-lo. E lembrar que em matéria de consciência e de fé o governo não deve interferir. E se interferir, importa obedecer mais a Deus do que aos homens. (At 5.29).


Horst Reinhold Kuchenbecker (em.)
São Leopoldo, RS

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Maeus 21.28-32. Os dois filhos.

Mateus 21.28-32. Os dois filhos.
Introdução
O texto nos apresenta uma parábola que fala da tensão que existe entre o sim e o não; o prometer e não cumprir e o negar, mas depois fazer. Mesmo assim, não temos aqui uma teologia das obras, como pode parecer de primeira vista, mas o ensino sobre o arrependimento e a fé.
Para compreendermos a parábola dos dois filhos, precisamos dar atenção à explicação que Jesus deu à parábola. Então veremos que Jesus trata com profundidade da vida de seus filhos no reino de Deus, da vida diária em arrependimento e confiança na graça de Cristo.
História
O evangelho nos transporta para Jerusalém, para a terça-feira na semana santa. Poucos dias antes, Jesus havia ressuscitado a Lázaro. No domingo de Ramos entrou triunfalmente em Jerusalém. O povo, que veio para a festa da Páscoa, ouvindo a respeito da maravilhosa ressurreição de Lázaro, aclamou Jesus com rei. Em Jerusalém, naquela semana, Jesus purificou do templo e pregou todos os dias até ser preso.
Os sacerdotes, fariseus e anciãos, estavam apavorados com a popularidade de Jesus. Eles temiam uma reação dos romanos. Por isso, para proteger a cidade de Jerusalém e a pátria, resolveram matar Jesus e procuravam um bom motivo para isso. O melhor seria se pudessem acusá-lo de doutrina falsa. Por isso vigiaram seus passos e suas palavras.
Eles lhe perguntaram: Com que autoridade você faz tudo isso? Jesus conhecendo sua hipocrisia fez-lhes uma contra pergunta: Donde era o batismo de João, do céu ou dos homens? Eles discutiram entre si e responderam: Não sabemos. Jesus lhes respondeu: Nem eu vos digo com que autoridade eu faço essas coisas. E lhes propôs a seguinte parábola, a parábola dos dois filhos.
Um homem tinha dois filhos. E disse a um: Vai hoje trabalhar na vinha. Mas o filho lhe respondeu: Não quero; depois, arrependido foi. Dirigindo-se ao outro, disse-lhe a mesma coisa. E este respondeu: Sim, Senhor; porém, não foi.
Um acontecimento corriqueiro. Quantas vezes já procedemos assim. Prometemos uma coisa e não cumprimos. Ou dizemos, não; mas depois, pensando melhor, fazemos o que nos foi solicitado.
Qual dos dois fez a vontade do pai? perguntou Jesus. O segundo, responderam. Os fariseus julgaram corretamente e nem se aperceberam com que intenção Jesus fez a pergunta. Então Jesus, tomando-os pela palavra, lhes explicou a parábola.
À luz da explicação de Jesus, a parábola adquire um sentido profundo, maravilhoso e consolador a respeito da vida dos filhos de Deus, no reino dos céus.
1. A parábola - A parábola trata do reino dos céus, dos membros no reino dos céus, do trabalho no reino dos céus, isto é, da vida cristã que culmina com o herdar a vida eterna, o lar celestial.
2. Os dois filhos – Um homem tinha dois filhos, não diz só duas crianças, mas dois filhos. Uma palavra mais carinhosa e íntima, que expressa o amor do pai aos dois filhos e a íntima relação dos filhos com o pai. Portanto, Jesus está falando de duas pessoas que tinham recebido a adoção de filhos, que eram filhos do Pai celestial. Que foram enxertados no reino de Deus. Portanto de dois judeus que, pela circuncisão, receberam a cidadania divina. (Alguns julgam tratar-se aqui de judeus e gentios. Isto não confere). Hoje isto se aplica a nós cristãos, que pelo batismo, que recebemos a adoção de filhos de Deus, pela fé em Cristo.
3. Trabalhar na vinha – A vinha é um símbolo do reino de Deus, da Igreja cristã. Estes dois filhos foram convidados para trabalhar na vinha, no reino de Deus. Este trabalho, especialmente nas famílias judaicas, era um privilégio dos filhos. Não era um trabalho ordenado por lei, forçado por um cumprimento do dever, com trabalhadores escravos, mas um trabalho que era privilégio dos filhos, que o faziam de forma voluntário e alegre, com zelo e amor. Assim todos os cristãos, ainda hoje, têm prazer em servirem a Deus.
4. Que trabalho é esse? – Muitas vezes pensamos logo em algum trabalho especial na congregação, na igreja: reunir dons, cada um com uma tarefa especial no trabalho da congregação. Isso também, mas o trabalho no reino é mais amplo, é, em primeiro lugar, nossa vida cristã no dia a dia, no lugar onde Deus no colocou como pais ou mãe, filhos ou filhas, patrões ou empregados. Cumprir ali fielmente nossos deveres para a glória de Deus e o bem estar do próximo. Lutero o coloca assim: Examina-te à luz dos Dez Mandamentos, se você é pai ou mãe, filho ou filha, patrão ou empregado; se foste desobediente, infiel, negligente, irado, licencioso, contencioso, se fizeste mal a alguém com palavras ou ações; se roubaste, descuidaste ou causaste algum dano. Este é nosso campo de trabalho na vinha do Senhor. Ali importa servir e ser fiel no cumprimento dos deveres, testemunhar ali por palavras e obras. E isto não por obrigação da lei, mas por amor à Deus e ao próximo, alegre e voluntariamente. É neste sentido que também cantamos após o sermão: Cria em mim, ó Deus, um puro coração e renova em mim espírito reto... e sustém-me com um voluntário espírito. Amém. Assim queremos cumprir cada vez melhor nossos deveres em nossa família, junto a nossos parentes e amigos, em nosso lugar de trabalho e na sociedade. Ali queremos ser sal e luz da terra. Este é nosso culto diário, nosso servir na vinha. Este é nosso primeiro lugar de trabalho, na missão.
Recordo-me, há anos atrás, a IELB realizou uma de suas primeiras campanhas de evangelização. Todas as congregações foram envolvidas. Os membros convidados a distribuírem folhetos. No preparo dos leigos para a distribuição de folhetos, alguém disse: Eu não quero distribuir folhetos na minha rua. Ali todos me conhecem. Eles conhecem meus erros e minhas falhas, meu nervosismo. Até estou inimizado com vários vizinhos. Como vou testemunhar ali? Mas exatamente ali está o noso campo de missão, ali acontece a missão. Perdoar e ser perdoado é o testemunho. Nossas fraquezas e erros, bem como a fonte de onde buscamos consolo e forças para mudar. Ali acontece o testemunho, o culto em primeiro lugar. Este é o trabalho na vinha.
5. A reação dos filhos – É importante lembrar que eles eram filhos, renascidos. Neles a imagem divina foi parcialmente restabelecida. Eles, enquanto na fé, cooperam em sua vida santificada, podendo dizer sim ou não, fazer ou não fazer a vontade do Pai celestial. E vejam o que aconteceu. Um filho, quando convidado, disse: Não. Não quero ir. Mas depois, pensando melhor, arrependido, foi. O outro filho respondeu ao Pai com um cordial, sim, mas depois não foi. E Jesus explicou a parábola.
6. A aplicação de Jesus – Na verdade, s dois filhos disseram um não ao Pai. Um de uma maneira brusca e o outro de uma maneira diplomática. Ambos, inicialmente, não fizeram a vontade de Pai. Mas o primeiro, depois, se arrependeu e foi, o outro não.
Então Jesus disse claramente quem são os dois filhos. O filho, que disse aberta e bruscamente: Não vou! são os pecadores manifestos: publicanos e meretrizes. Jesus não desculpa nem elogia o seu Não. O seu não é um fato bastante triste. Eles deveriam ter ido, com alegria e servir a Deus com vida santificada, desde o seu batismo. Mas, eles abandonaram a fé, rejeitaram a vontade do Pai, voltaram a ser escravos do pecado. Quantos procedem ainda hoje assim. Quantos foram batizados e confirmados e depois volta ao mundo e vivem em pecados grosseiros. Que triste.
O outro filho respondeu: Sim, eu vou! mas não foi. Jesus os identifica. São os sacerdotes, anciãos e fariseus, que dizem: Sim, eu vou! Estão no tempo. Aparentemente parecem filhos queridos, mas no coração não fazem a vontade do Pai. São hipócritas.
Como? Qual é a vontade do Pai? Jesus disse: A vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna. (Jo 6.40) A vontade do Pai é que creiam em Jesus, o Filho de Deus. Este crer envolve diário arrependimento e a confiança na graça de Cristo. Sem diário arrependimento e confiança na graça de Cristo, não há fé, nem verdadeira vida santificada. Pois boas obras - diz nosso Catecismo – é tudo o que um filho de Deus pratica, fala ou pensa como crente e de conformidade com os Dez Mandamentos, para a glória de Deus e para o bem do próximo, (Perg. 186) não para sua justificação diante de Deus.
Jesus passou assim a responder a pergunta dos fariseus, sobre com que autoridade Jesus pregava. Ele lhes disse: João veio para mostrar a vocês o caminho da justiça, e vocês – cegados por vossa justiça própria – não creram nele. (v. 32) Vocês não lhe deram ouvidos, nem vos arrependestes. Enquanto que publicanos e meretrizes, a saber, pecadores manifestos, deram ouvidos e ele e à palavra de Deus, a pregação da lei, reconheceram seus pecados , se arrependeram, suplicaram por perdão, creram e voltaram a fizer a vontade do Pai.
Ainda hoje é assim. Lutero afirmou: É mais provável que pecadores manifestos se salvem do que pessoas piedosas, cegadas por sua justiça própria. Eles morrem enganados e confiantes em sua santidade, se não forem convertidos por um milagre de Deus. Enquanto que aqueles que abalados pela lei, tristes e desesperados por causa de seus pecados, dão ouvidos ao evangelho consolador.
Conclusão - Assim o evangelho nos convida a permanecermos atuando no reino de Deus em diário arrependimento e fé, como dizemos na explicação da quarta parte do batismo: Que significa o batismo da água? Significa que o velho homem em nós, por contrição e arrependimento diário, deve ser afogado e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir diariamente novo homem que vive em justiça e pureza diante de Deus eternamente. O apóstolo Paulo o coloca assim em sua carta aos Efésios: Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. (Ef 2.8-10) Amém.
São Leopoldo, 13/09/2008
Horst R. Kuchenbecker

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Maeus 20.1-16. Os trabalhadores da vinha.

Mateus 20.1-16. Os trabalhadores na vinha.

Estamos diante de uma impressionante parábola. Para compreendermos a mesma precisamos dar atenção ao que antecede, que nos mostra o que motivou Jesus a contar esta parábola.
Vemos no capítulo anterior um jovem rico (Mt 19.16-22) perguntar a Jesus: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna? (v. 16) Este jovem pensou alcançar a vida eterna, por sua boas obras. Jesus, para conscientizar o jovem dessa impossibilidade, lhe respondeu: Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. (v. 17) Em sua cegueira espiritual o jovem respondeu,: Tudo isso tenho observado, que me falta? (v.20) Sem dúvida ele foi um jovem que se esforçou em cumprir a segunda Tábua da lei de Deus, um jovem honrado, de comportamento exemplar, como mais tarde o apóstolo Paulo julgou, antes de sua conversão, ter cumprido a lei, quando afirmou: Quanto à lei irrepreensível. (Fp 3.6) Então Jesus opõe o jovem à prova em relação ao primeiro mandamento e lhe diz: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, segue-me. (v.21) Com isso Jesus tocou na ferida do jovem, pois ele amava sua riqueza mais do que a Deus. O jovem se retirou e Jesus disse a seus discípulos: Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. (v.23) Assustados os discípulos disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? (v.25) Jesus respondeu: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível. (v.26) Com isto Jesus mostrou que a salvação é um presente da graça de Deus.
A isto Pedro reagiu em nome dos doze, dizendo: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos - que será, pois de nós? (v.27) Jesus lhes respondeu falando sobre a grande recompensa celestial, reservada para os fiéis, mas como na pergunta de Pedro havia uma ponta de justiça própria, Jesus lhes dá a advertência: Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros. (v.30.) O significado desta palavra, Jesus expõe na presente parábola. Isto nos leva ao tema:
O reino de Deus é um reino da graça.
1. Por graça somos chamados para o reino
2. Por graça trabalhamos no reino.
3. Por graça recebemos a recompensa.

1.
Porque o Reino dos Céus é semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha. (v.1) O Reino dos Céus é semelhante. Jesus o compara a uma vinha e compreende com isto a Igreja Cristã aqui na terra. Já no Antigo Testamento Deus fez esta comparação, ele disse pelo profeta Isaías: O meu amado teve uma vinha... a vinha do Senhor dos Exércitos é a casa de Israel. (Is 5.1,7) E Jesus disse: Meu Pai é o agricultor. (Jo 15.1)
O dono da vinha saiu de madrugada para assalariar (contratar) trabalhadores. (v.1) Devemos manter em mente que Jesus está falando com seus discípulos. Trabalhadores no seu reino são todos os que foram chamados, grandes e pequenos, não somente os pastores e professores. Deus chama trabalhadores para sua vinha e lhes promete recompensa. Aos primeiros prometeu uma moeda de prata, um denário aos outros prometeu pagar o que for justo.
Esses trabalhadores não vieram por si, oferecendo-se para trabalhar, mas os primeiros até os últimos encontravam se ociosos na praça. O dono da vinha foi procurá-los e os contratou. Assim são todas as pessoas. Nós nos encontramos na praça desta vida, e por mais ocupados que estejamos, nosso trabalho só fará sentido se estamos a serviço de Deus. Para isso, no entanto, a pessoa precisa ser chamada por Deus.
Neste chamado, Deus age à sua maneira. Alguns são chamados desde pequenos, pelo batismo, outros, na meia idade, outros na última hora, como o malfeitor na cruz. Deus chama por seus meios da graça, Palavra e sacramento. À alguns a Palavra de Deus chega por seus pais, pelo testemunho de parentes ou amigos, por folhetos; outros a ouvem num culto público, etc.
O motivo pelo qual são chamados por Deus é seu profundo amor em Cristo à humanidade. Jesus disse a seus discípulos: Não fostes vós que me escolhestes a mim, pelo contrário, eu vos escolhi e vos outros, e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça. (Jo 16.16)
Esta é a realidade. A nós pecadores indignos, escravos de Satanás por nascimento, inimigos de Deus e réus da eterna condenação, que vagamos ociosos nesta vida, vivendo de ilusões sem esperança, a nós Deus chamou por graça, para sermos trabalhadores em sua vinha. E sermos eternamente recompensados com a bem-aventurança eterna. Entre estes há primeiros, que desde a infância foram enxertados pelo santo batismo no reino e há últimos, que chegaram à fé na última hora de sua vida.

II

A estes chamados, Deus mandou trabalhar na sua vinha. Verdadeiro trabalho começa quando nos tornamos membros do Reino de Deus. Então nossa vida adquire seu verdadeiro sentido, um novo objetivo, uma nova razão de viver, um novo propósito. Este trabalho não é, como alguns acham, o entrar num mosteiro, ou, então, só o trabalho na congregação, mas como Lutero o colocou, em primeiro lugar no cumprimento fiel da vocação, ali onde Deus colocou cada um de nós. Confere a Tábua dos Deveres, se és pai ou mãe, filho ou filha, patrão ou empregado, etc. Cumpra ali seus deveres para a glória de Deus e o bem-estar do próximo. E se te faltarem dons e forças, peça-os a Deus, que supre nossas necessidades. Confessamos com o apóstolo Paulo: Pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus comigo. (1 Co 15.16) Estes frutos da fé, Jesus prometeu recompensar ricamente: Todo aquele que tiver deixado... por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. (v.29) E esta recompensa não é pagamento, é graça.

III

Ao cair da tarde, disse o senhor da vinha ao seu administrador: Chama os trabalhadores e paga- lhes o salário, começando pelo último, indo até aos primeiros. (v.8)
A forma de pagamento já denota que no Reino de Deus não se trata de merecimento por obras, mas tudo é graça de Cristo.
Mas quando os primeiros trabalhadores viram que os últimos, que haviam trabalhado só pouco tempo, estavam recebendo um denário, julgaram que eles, que havia trabalhado o dia todo suportando o calor sol, receberiam mais. Chegando, no entanto, a vez deles, receberam só o que o Senhor havia combinado com eles, um denário. Então eles murmuraram, julgando ser isto injusto. O dono, porém, lhes disse: Não foi o que combinamos? Vocês estão com inveja por eu ser bom? Não posso fazer o que quero com o que é meu?
Quanto à interpretação de algumas palavras desta parábola, há muitos distorções. Alguns acham que os primeiros são os judeus, que murmuraram contra Jesus e os últimos somos nós, os gentios. Que o salário é a recompensa pelas boas obras. Mas isto são interpretações erradas.
Precisamos manter em mente o contexto. Jesus está falando a seus discípulos sobre a recompensa aos que o seguiram. Ele lhes disse: Em verdade vos digo que... todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. Mas os advertiu: Porém muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros. (Mateus 19:29-30 RA) Quem são portanto os primeiros e quem são os últimos? Os primeiros são os que receberam o reino de Deus como criança e serviram a Deus ao longo da vida. Os últimos são os que foram convertidos na meia idade, e/ou perto do fim da vida. Todos eles serão recompensados. A palavra recompensados deixam bem claro que não é pagamento, mas graça, bondade de Deus em Cristo. E então segue a advertência: Cuidado! Muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos primeiros. (v.30) Com isto Jesus nos diz: Aqueles que receberam o Reino de Deus como crianças e serviram a ele durante toda a vida por vida santificada, cumprindo fielmente seus deveres e julgaram, agora, serem merecedores de recompensas, então voltando com isso para a lei, para a justiça das obras, correndo o risco de perderem sua fé, tornando-se últimos. Tornando-se como os últimos antes de entrarem no reino de Deus, quando estavam sem fé. E os últimos que chegaram à fé, tomam seus lugares.
Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos, porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Deus chama muitos para sua vinha. Ele ama toda a humanidade. Cristo, por seu sofrer e morrer na cruz reconciliou toda a humanidade com Deus e ordenou a seus discípulos que pregassem o evangelho, a boa nova da salvação a todas as nações. Porque Deus não tem prazer na morte do perverso, mas quer que todos cheguem ao conhecimento da verdade e sejam salvos. (2 Co 5.19; Mt 28.19; Ez 33.11) Muitos são levados à fé na graça de Cristo, mas poucos são os que permanecem fiéis na fé até ao fim e herdam a vida eterna.
Precisamos lembrar que no Reino de Deus tudo é graça. Por graça somos chamados, por graça trabalhamos, por graça nos tornamos herdeiros da vida eterna.
Precisamos lembrar também que somos salvos sem as obras da lei, mas a fé necessariamente produz boas obras. As boas obras não nos salvam, porém, as más obras, o desleixo no uso dos meios da graça, o desleixo na oração, o desleixo no luta contra os pecados, tudo isso visa destruir a fé.
Precisamos manter com o ensino da Escritura, que aqueles que se perdem, perdem-se unicamente por sua própria culpa; e, aqueles que são salvos, são salvos não por seus merecimentos, mas unicamente pela graça de Cristo.
Portanto, sejamos gratos a Deus que nos deu sua Palavra, que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz do evangelho e nos levou e conserva na fé na graça de Cristo. Permaneçamos apegados à sua Palava e seus sacramentos, pelos quais o Espírito Santo nos fortalece e conserva na fé, lutemos valorosamente contra as tentações do mundo, crucificando diariamente nossa carne com todos os seus desejos maus e sejamos sempre abundantes em toda a boa obra, trabalhando com empenho na vinha do Senhor. Amém.
São Leopoldo, 06/09/2008
Horst R. Kuchenbecker

Mateus 20.1-16. Os trabalhadores da vinha. Tradução.C.F.C. Walther

Mateus 20.1-16. Sermão de C.F.W.Walther. (AD 1870)

Deus conceda a todos nós graça e paz pelo conhecimento de Deus e de Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus!
Tudo o que precisamos saber para nossa salvação eterna foi nos revelado por Deus em sua santa palavra, a Bíblia. Ali Deus revela mesmo os segredos do seu coração paterno; e desvenda o que ele já pensou e determinou na eternidade, antes da fundação do mundo, bem como o que fará conosco na vida eterna.
No entanto, o que faz a maioria das pessoas? Alguns despreza as revelações de Deus, considerando-as fábulas e loucura; outros, mesmo aceitando a Bíblia como Palavra de Deus, eles a julgam insuficiente, por isso procurando penetrar e desvendar coisas que Deus em sua sabedoria e graça mantém oculto e encobriu por um véu impenetrável.
Assim, por exemplo, muitos tentaram desvendar o mistério do pecado e perguntam: Como foi possível que contra a santa vontade de Deus o pecado, a morte e toda a miséria entraram no mundo? Outros tentam descobrir como é possível que Deus, que em sua presciência conhece todos os pensamentos, caminhos e obras de cada pessoas, concedeu-lhes a liberdade de manuseá-los com querem? Outros tentam descobrir por que Deus concede a uns tantas oportunidades para se converterem e a outros poucas oportunidades? Por que procura uns com tanta longanimidade, encontrando-os mesmo na última hora, e ceifa outros rápida e repentinamente em seus pecados, permitindo que se percam? Outros tentam descobrir por que Deus criou pessoas, com respeito às quais sabia por sua onisciência que se perderiam? Outros querem descobrir por que o misericordioso Deus, que não faz acepção de pessoas, concede a algumas nações a sua Palavra em grande abundância e anos a fio, enquanto em outras nações milhares de gentios andam centenas de anos em escuridão e na sombra da morte, sem a Palavra de Deus?
Loucura sobre loucura! Será isto para nós seres fracos e míopes algo extraordinário de existirem no ser de Deus, em suas obras, em seus caminhos e juízos, milhares de coisas que permanecem para nós incompreensível e inexplicável? Se pudéssemos compreender tudo, deveríamos ser iguais a Deus em sabedoria e conhecimento. Aqui importa confessar com o apóstolo Paulo: Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Romanos 11.33-36 RA)
Infeliz quem não pode confessar assim com o apóstolo, mas procura desvendar o insondável conselho de Deus. Tal pessoa é como alguém que fita insistentemente o sol e termina cegado; assim será com aquele que quer penetrar no santo coração de Deus. Ele ficará cego em sua alma, se escandalizará em Deus e sua Palavra, e cairá em inúmeros e destrutíveis erros, nos quais perecerá.
O presente evangelho nos apresenta uma doutrina que também contém inescrutáveis mistérios. Muitos tentaram desvendá-los, mas caíram em inúmeras heresias, resvalando ora para a esquerda ora para a direita, em prejuízo de sua alma. Trata-se da doutrina da Predestinação ou Eleição da Graça, da doutrina da conversão. Permitam-me, portanto, mostrar o caminho correto na interpretação dessa doutrina. Isso nos guardará de erros em relação a esta doutrina consoladora. Suplicamos para isso a assistência do Espírito Santo, na sua luz veremos a luz.
Muitos são chamados, mas poucos escolhidos, com estas palavras o Senhor Jesus Cristo nos dá a chave para a compreensão dessa parábola. Nesta parábola encontramos entre outros ensinamentos, esclarecimento sobre a doutrina da Eleição da Graça. Por isso quero responder a seguinte pergunta: O que devemos manter em mente na interpretação desta doutrina para não resvalarmos nem para a direita, nem para a esquerda. Resposta:
1. Conforme a Escritura, quem se perde, não se perde por desígnio de Deus, mas por culpa própria;
2. e conforme a Escritura, quem é salvo, não se salvou por seus méritos, mas foi salvo unicamente pela graça de Deus.

I

Tudo o que Deus faz no tempo, ele o determinou na eternidade, porque Deus não faz nada no tempo que já não tenha determinado na eternidade. Assim também o destino eterno das pessoas, não é decidido no tempo, mas já foi decidido antes da criação, antes da fundação do mundo. Deus não só sabe, desde a eternidade, o número dos que serão salvos e dos que se perderão, mas já na eternidade ele predestinou uma parte da humanidade para ser salva e outra parte não. Os salvos, em comparação com os não salvos, são poucos. Tudo isso são verdades claramente ensinadas na Escritura. Verdades que aquele que crê nas Escrituras não poderá negar. Em nosso texto, Jesus diz claramente entre outras coisas o seguinte: Muitos são chamados, mas poucos escolhidos. (v.30) E em Atos dos Apóstolos, lemos: Todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. (At 13.48)
Mas, mesmo que todos aqueles que aceitam a Escritura como verdadeira Palavra de Deus e sabem que existe a Eleição da Graça, a saber, que Deus não escolheu todas as pessoas para a vida eterna, e que estes eleitos, em comparação com aos que se perdem, são relativamente poucos, muitos, enganados por sua razão, tiram conclusões erradas dessa doutrina, ora resvalando para a direita, ora para a esquerda.
Em primeiro lugar há um grande grupo de Igrejas que concluem da doutrina da Eleição da Graça o seguinte: Visto que Deus não escolheu todos para a vida eterna, ele deve ter, obrigatoriamente, destinado os outros para a eterna condenação. Portanto, Deus não quer que todos sejam salvos, pois se Deus sinceramente o quisesse, ele o faria. Visto que ninguém pode resistir à sua vontade.
Por outro, há pessoas que concluem: Sabemos que por natureza todos nós somos igualmente corrompidos pelo pecado, mortos em nossos delitos e pecados, cheios de resistência ao Espírito Santo, somente Deus pode operar em nos arrependimento, fé e santificação, tanto o começo como o fim, o querer e o realizar, a conversão e o permanência na fé. Por isso, se uma pessoa não é convertida ou não permanece na fé até ao fim, é porque Deus não a quis, não tirou dela a resistência natural, não operou nela a fé, não a manteve na fé. Portanto, Deus não quis converter esta pessoa, mas a destinou para a eterna condenação. Complementam isto ainda com a seguinte afirmação: A Escritura afirma que Deus endurece a quem quer endurecer, a exemplo de Faraó do Egito a quem Deus endureceu. Logo, está provado que Deus não quer a conversão e salvação das pessoas que se perdem.
Seria esta a verdadeira doutrina da Eleição da Graça? Não, não! Longe de nós tal doutrina! Vejam a que conclusão terrível, desesperadora e ofensiva a Deus até cristãos podem chegar, quando não permanecem firmados na Escritura, mas procuram responder perguntas com a razão, tentando desvendar as profundezas inescrutáveis de Deus, procurando construir com sua razão pontes sobre abismos e explicar o inexplicável. Louvado seja Deus, no entanto, que em sua Palavra mostra que todas estas conclusões da razão humana são erradas, falsas e nulas.
Nossa razão, na verdade, não pode pensar e concluir diferente do que afirmar: Se Deus de fato quisesse que todas as pessoas fossem salvos, então iria salvá-las. Se isto não acontece, a causa disto deve estar na vontade de Deus. Mas, o que diz a Palavra de Deus? Como um raio fulminante a Palavra de Deus fere a razão com suas conclusões. Pois em todas as páginas da Escritura vemos o claro testemunho de que Deus não predestinou ninguém para a eterna condenação, mas desde a eternidade ama todos e deseja que todos sejam salvos. Assim lemos: [Nosso Salvador] deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade. Porquanto há um só Deus e um só Medidor entre Deus e os homens, Crito Jesus, homem. (1 Tm 2.4,5) E: O Senhor... é longânimo para conosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento. (2 Pe 3.9) E o próprio Senhor Jesus disse: Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (Jo 3.16) E para que não haja a mínima dúvida, Deus já o afirmou e selou com juramento no Antigo Testamento de que nenhuma pessoa é excluída do seu eterno amor. Por isso afirmou pelo profeta Ezequiel: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel? (Ezequiel 33.11 RA) Pode haver palavra mais clara?
Nossa razão, na verdade, não pode concluir de forma diferente do que pensar: Sendo todas as pessoas, por natureza, igualmente corrompidas, precisando Deus iniciar e completar todo o bem na pessoa, então, a causa do fato de alguém não ser convertido ou não permanecer fiel a Deus, deve estar em Deus. Deus não quis a conversão dessas pessoas. Este é o pensamento lógico de nossa razão. Mas, o que diz a Palavra de Deus? Jesus disse aos moradores de Jerusalém, quando estes o rejeitaram: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37 RA) Vejam, o fato de os moradores de Jerusalém não terem sido convertidos, não estava no fato de Jesus não querer que eles se convertesse, mas eles não o quiseram. Pois, mesmo sendo todas as pessoas por nascimento pecadores e ser preciso que Deus tire delas a resistência natural, lembramos que Deus quer fazê-lo. Quando Deus vem com sua Palavra, por meio dela vem o Espírito Santo e quer quebrar esta resistência natural; mas quem então, além de sua resistência natural, endurecer seu coração e resistir obstinadamente ao Espírito Santo, esse se perde. Ali Deus não poderá fazer mais nada, visto que Deus não força ninguém à conversão. Uma conversão forçada não é conversão. Por isso Deus diz pelo profeta: Mas, porque clamei, e vós recusastes; porque estendi a mão, e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. Então, me invocarão, mas eu não responderei; procurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do SENHOR; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Portanto, comerão do fruto do seu procedimento e dos seus próprios conselhos se fartarão. (Provérbios 1.24-31 RA) Estevão diz ao Sinédrio em Jerusalém: Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós o fazeis. (Atos 7.51 RA) Ele não diz simplesmente que vocês estão perdidos porque sois pecadores por natureza, ele lhes diz que eles resistem obstinadamente ao Espírito Santo. Esta é a razão porque são condenados. Assim Deus o diz também pelo profeta: A tua ruína, ó Israel, vem de ti, e só de mim, o teu socorro. (Oséias 13.9 RA) Poderia haver afirmação mais clara?
No entanto, por Deus dizer que ele endurece certas pessoas, nossa razão não pode pensar diferente do que concluir, dizendo: A causa de alguém se perder está em Deus. Mas, o que diz Deus em sua palavra quanto ao endurecer o coração de uma pessoa? A Escritura afirma que Deus de fato, por justo juízo, castigou algumas pessoas com o endurecimento, mas somente aquelas nos quais sua graça trabalhou em vão, naquelas pessoas que se endureceram contra sua graça e por isso se perderam. Assim a Escritura afirma expressamente a respeito a Faraó do Egito, que ele endureceu seu coração e só após a sexta praga, lemos: Deus endureceu seu coração. (Ex 9.12) Por isso Deus adverte o povo de Israel, cuja maioria pereceu no deserto porque se endureceram contra Deus: Assim, pois, como diz o Espírito Santo: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração como foi na provocação, no dia da tentação no deserto. (Hebreus 3.7,8 RA) Isto é uma séria advertência a todos nós.
Portanto, toda vez que a doutrina da Eleição da Graça ou chamada também de a doutrina da Predestinação eterna, vos for apresentada como se Deus não quisesse que todos fossem chamados e levados à fé para serem salvos e que Cristo não se ofertou para todos e não reconciliou toda a humanidade com Deus, ou se tais idéias surgirem em vosso próprio coração, rejeitem esses ensinos e idéias como mentiras enganosas e ofensivas a Deus e apeguem-se firmemente à clara Palavra de Deus que afirma a graça universal de Deus. E ao lerem que poucos são escolhidos, lembrem que ao mesmo tempo Deus diz com toda a clareza que ele não quer que alguém se perca, que ele não destinou ninguém para a eterna condenação. E, se muitos não são salvos e Deus não os salvou é porque ele previu que muitos obstinadamente resistiriam ao Espírito Santo, rejeitando os meios da graça, não permitindo que Deus operasse neles os frutos do Espírito, por isso não creram e/ou não permaneceram na fé. Sim, a causa não está em Deus, mas nas pessoas que endurecem obstinadamente seus corações, resistindo ao Espírito Santo.
De fato é verdade que Deus resolveu desde a eternidade, não salvar estas pessoas, mas não por tê-las odiado desde a eternidade, ou não as ter amado, por não querer salvá-las. Não! Nesses casos Deus agiu como um comerciante, que vendo o navio afundar, joga sua mercadoria ao mar. Ele não o faz com alegria e prazer, ou por considerar sua preciosa mercadoria sem valor, mas com dor no coração, porque a tempestade o forçou a isso; assim Deus teve que determinar que muitas pessoas perecessem não com prazer em sua morte, mas com dor no coração, devido a obstinada incredulidade dessas pessoas que o forçaram a isso.
Portanto, estimados irmãos, não sejamos tão tolos e petulantes querendo descobrir se somos eleitos ou não conforme o santo conselho de Deus. A nós importa olhar para a Palavra de Deus e o unigênito Filho de Deus, Jesus Cristo. Em sua palavra Deus nos revela que Jesus amou o mundo e deu sua vida por todos. Ali reconhecemos que Deus amou e ama todos e também a você. A Escritura nos revela que o Espírito Santo chama todos, sinceramente, pelo evangelho para o reino da graça. Ele também chama a você. Em resumo, o Deus triúno amou e ama todos, quer que todas as pessoas cheguem ao conhecimento da verdade e sejam salvas, e também você. Cabe-nos ouvir e nos apegar à sua Palavra, confiar em sua graça. Não sejamos como muitos que resistem obstinadamente ao Espírito Santo, rejeitando a Palavra de Deus e os sacramentos, questionando o amor de Deus. Peça ao Espírito Santo para que o firme e conserve na fé. Se você o fizer assim, saiba que você pertence aos eleitos, porque Cristo é o livro da vida, e quem crer em Cristo até ao fim, este está no livro da vida. Seu nome está inscrito no céu. Quem não se desprende voluntariamente de Cristo, a este nada poderá tirar do livro da vida. Jesus disse: As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. (João 10.27-28 RA) Quem portanto se perde, perde-se por sua própria culpa, não porque Deus o predestinou para a condenação.

II

Mas, estimados irmãos e irmãs em Cristo, se nesta doutrina da Eleição da Graça não quisermos resvalar nem para a direita, nem para a esquerda, então precisamos afirmar em segundo lugar, conforme a Escritura, que somos salvos não por méritos próprios, mas unicamente por sua graça.
Tão importante quanto é manter a verdade de que Deus não contribui em nada quando alguém se perde, tão importante é manter que nós em nada contribuímos para nossa salvação, e darmos toda a honra e glória a Deus e saber que somente ele nos salva, sem nenhum mérito ou dignidade de nossa parte. Tudo é pura graça de Cristo.
Infelizmente são poucos os que admitem que as pessoas que se perdem, perdem-se unicamente por sua própria culpa, visto que Deus não os predestinou para a condenação. Por outro, muitos pensam que as pessoas que Deus elegeu para a eterna salvação, ele as elegeu porque previu em sua onisciência, que estas pessoas iriam se arrepender e permaneceriam fiéis até ao fim. Assim uns atribuem o mal a Deus e outros atribuem o bem a homens pecadores, lançando a culpa da condenação em Deus e atribuindo a salvação ao merecimento das pessoas. Enquanto uns resvalam para a direita na doutrina da Predestinação, outros resvalam para a esquerda.
Agora, o propósito desta parábola dos trabalhadores na vinha é desviar desses dois erros. O apóstolo Pedro havia perguntado a Jesus: Senhor, eis que nós tudo deixamos e te seguimos: que será, pois, de nós (v. 27) A isto Jesus não só assegurou a Pedro que serão altamente recompensados, mas também lhes contou a parábola dos trabalhadores da vinha. Nesta parábola Jesus diz que mesmo aqueles que entraram no trabalho na última hora, receberam a mesma recompensa daqueles que trabalharam todo o dia, agüentando o calor do sol. Esses murmuraram contra o dono e com isto desprezaram sua graça. Por isso Jesus acrescenta: Os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos, porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. Por esta parábola Jesus advertiu a Pedro, aos demais discípulos e adverte a todos nós, exortando nos à humildade. Jesus mostrou que, por culpa própria, os primeiros podem vir a ser últimos, perdendo a graça; mas os últimos vieram a ser primeiros somente por graça e misericórdia. Só por graça e misericórdia pecadores são chamados, escolhidos e salvos, sem nenhum mérito por parte deles. Com isto Jesus mostrou que uma pessoa pode perder a graça, mas que ninguém pode merecê-la. Mostrou que a recompensa para o trabalho na vinha do Senhor não é merecimento, mas graça, um presente da misericórdia de Deus.
Vejam estimados irmãos e irmãs, o caminho que conduz através de tantos erros na doutrina da Predestinação é um caminho estreito. Quem evitou o erro de resvalar para a direita, cuide para não resvalar para a esquerda. Se reconhecemos que Deus não escolheu muitos para a salvação, porque ele previu que muitos não iriam crer e não se deixariam converter, não podemos de maneira alguma pensar que os outros Deus escolheu porque ele previu, em sua onisciência, que eles iriam ser melhores do que os outros, a saber, que eles aceitariam a verdade, deixando-se converter. De fato Deus elegeu somente àqueles que previu seriam fiéis até ao fim. Mas sua presciência não foi o motivo, nem a causa da eleição deles. Se a presciência de Deus fosse a causa da eleição deles, então não seria a resolução de Deus, mas mérito das pessoas eleitas a causa de sua salvação. Mas se dependesse delas, elas não chegaria nem permaneceriam na fé até ao fim.
Por isso, notem bem: o fato de Deus prever que um grande número de pessoas se perderia, não foi a causa da perdição deles. O única causa da perdição deles foi sua obstinada incredulidade que Deus previu; mas o fato de Deus ter eleito um número de pessoas para a eterna salvação, a isto nenhuma outra outra causa o moveu, exceto o seu amor a Cristo e sua compaixão com a necessidade das pessoas. Deus não elegeu estas pessoas por prever que elas iriam permanecer na fé, mas ele as escolheu, e esta eleição é a causa única porque chegaram à fé e permaneceram fiéis na fé até ao fim. Deus não os escolheu por prever que eles seriam fiéis, mas por Deus tê-las eleito, por isso elas são salvas e permanecem fiéis até ao fim. Desde a eternidade Deus só via pecado, corrupção e morte nas pessoas. Deus, portanto, não escolheu os eleitos por ver nelas algo de bom, mas por tê-las eleito, por isso são cristãos santificados e bem-aventurados. A livre predestinação de Deus não só antecede à salvação, mas é a causa e o fundamento eterno e inabalável de sua salvação. Confessamos na Fórmula de Concórdia: A eterna eleição de Deus, porém, não só vê e sabe antecipadamente a salvação dos eleitos, mas, por graciosa vontade e beneplácito de Deus em Cristo Jesus, também é causa que cria, opera, ajuda e promove a nossa salvação e tudo o que a ela pertence. (SD, XI,8; LC pág. 661) E: Rejeitamos por isso os erros: quando se ensina que não é apenas a misericórdia de Deus e o santíssimo mérito de Cristo, mas que também há em nós uma causa da eleição de Deus, em virtude da qual Deus nos elegeu para a vida eterna. (Epitome, XI,20; LC, pág. 535) Até aqui a Fórmula de Concórdia.
Vocês portanto que permaneceis em vossos pecados e não quereis converter vos de coração, não deveis pensar que podeis desculpar vos, dizendo: Deus não nos concedeu a graça da conversão e da vida eterna. Não, Deus quer muito a vossa salvação, se tão somente deixardes que ele vos salve. Jesus disse: Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora. (João 6.37 RA) Esta palavra vale também para vocês. Reconhecei vossa miséria e chegai a Cristo, ele não vos rejeitará e vocês poderão alegremente confessar: Também a mim Deus escolheu para a eterna salvação. Mas se vocês não quiserem fazer isto, então não acusem a Deus, pois para vocês valem as palavras de Jesus: Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! (Mateus 23.37 RA) Pois a quem Deus elegeu, a este ele não só elegeu para a eterna salvação, mas também para arrependimento e santificação, como o afirma o apóstolo Paulo, quando menciona a dourada e irrompível corrente da salvação: Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Romanos 8:29-30 RA) Quem, portanto, não quer permitir que Deus o torne semelhante ao seu Filho, não se admire por os outros elos da corrente da salvação não se concretizarem em sua vida.
Vocês, no entanto, que estais na fé, que tendes forças para odiar o pecado, que já vos refugiastes e abrigastes como pintinhos sob as asas da graça de Crito, que já podeis dizer de coração: Adeus, assim eu clamo ao mundo falso e vão. De forma alguma eu amo a sua corrupção. No céu, o lar paterno, desejo a glória ver. Terá seu prêmio eterno quem no Senhor morrer. (HL 527.1) Se tiverdes em vossa vida de fé muitas tentações internas e aflições externas, se vos sentirdes muito fracos e quebradiços, se precisais lutar ainda muito com o pecado de vosso coração corrupto, se nisto vos sentirdes como miseráveis pecadores, por vos apegardes a Cristo e estardes nele, tendes nisto o testemunho de que pertenceis aos eleitos. Pois o que Deus faz a vocês no presente tempo é um espelho de sua resolução eterna, que ele tomou a respeito de vocês na eternidade. Por isso alegrai-vos, pois a coroa eterna vos está reservada no céu.
E agora guardai-vos com muita seriedade para não atribuírem a salvação que vos foi dada, a vossos esforços e merecimentos. Lembrai: Ele vos escolheu, vocês não foram procurá-lo, ele vos procurou. Em vocês, Deus só viu pecado, aflição e morte. E ao ver vossa miséria, ele teve compaixão de vocês e disse: Vivei! Vocês não colaboraram em nada para vossa conversão. A conversão não foi obra do vosso querer, pois estáveis mortos em vossos delitos e pecados (Ef 2.5) Ela foi operada unicamente pelo Espírito Santo, por seus meios da graça, Palavra e sacramentos. Vocês não se prepararam para a graça, pois antes que a graça viesse sobre vocês, só sabíeis pecar. Nem pudestes por própria força aceitar a graça. Deus operou em vos o aceitar da graça, a fé que se apega à graça de Cristo. Deus teve que operar tanto o querer como o executar, o crer e o perseverar. Só ele pode levar esta obra a bom termo. Haverá razão para o orgulho? Não, não há razão para tal. Toda hora e glória pertence unicamente a Deus, que nos aceitou por sua inescrutável misericórdia. Sim, cantamos com o poeta: De Deus a infinda piedade / excede a nossa compreensão; / os braços são da caridade / de quem acolhe e dá perdão, / e sempre sente mágoa e dor / ao se afastar o pecador. (HL 366.2)
Além disso devemos lembrar as palavras de Jesus: Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos (v.30) Se estais de pé pela fé, bem-aventurados sois, vocês pertencem aos primeiros. Mas não sede orgulhosos e seguros em vós, para não vos tornardes últimos. Mesmo não tendo obtido a salvação por vossas boas obras, podeis desperdiçá-la por vossos pecados. Olhem para o nosso evangelho. Ali vocês encontram, trabalho. Para o trabalho todos os membros na vinha do Senhor foram chamados. Se, portanto, não quereis perder o que recebestes de presente, então empreguem todo o zelo no uso dos meios da graça, sede fervorosos na oração, firmes na luta contra o pecado e mundo, abundantes em boas obras, exercitando vos na fé, no amor, na esperança, e sede pacientes na aflição. Se este trabalho na vinha e o carregar da cruz se tornar amargo, se isto doer, se, quanto trabalhais, vedes outros não fazendo nada, tendo dias felizes, enquanto vocês são desprezados, enquanto outros honrados, não murmureis, como os primeiros que se tornaram últimos. Lembrai a bem-aventurada hora do descanso no qual o dono da vinha dirá a seu administrador: Chama os trabalhadores a paga-lhes o salário. (v. 8) Como jubilareis sobre a graciosa recompensa do bondoso Pai celestial. Então recebereis pelo trabalho uma inestimável recompensa. Por toda a obra procedente da fé, por menor e aparentemente insignificante que seja, por toda a luta um triunfo glorioso, por toda a cruz uma coroa da glória, por todo a tentação, refrigério, por todo o desprezo, glória eterna.
Portanto, vamos gravar fundo em nosso coração a admoestação do apóstolo Pedro: Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum. Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. (2 Pedro 1.10-11 RA) Que glória e honra eterna de eternidade a eternidade. Amém
São Leopoldo, 08/09/2008
Tradução: Horst R. Kuchenbecker