terça-feira, 28 de outubro de 2008

Rm 3.28.Reforma

João 8.31,32 – Rm 3.28. Reforma

A Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) afirma em seus Estatutos, Artigo 3, que “aceita todos os livros canônicos das Escrituras Sagradas, do Antigo e do Novo Testamento, como palavra infalível, revelada por Deus. Como única exposição correta da Escritura Sagrada, aceita os livros simbólicos da Igreja Evangélica Luterana, reunidos no Livro de Concórdia, de 1580, e não admitirá alteração alguma desta norma.”
Com isto nós nos consideramos verdadeiros herdeiros da Reforma. Somos gratos a Deus e o louvamos por ter dado e preservado esta verdade em nosso meio.
Para que esta verdade não seja somente uma confissão no papel e de nossos lábios, mas do coração, vamos rever os três pilares da Reforma e qual o nosso compromisso com estas verdades.

I

Os três pilares da Reforma são: Somente a Escritura, somente por graça, somente pela fé.
A doutrina luterana e sua confissão não contêm, em si, novidades ou coisas bem especiais inventadas por Lutero. Novidades podemos encontraremos em outras religiões ou seitas.
A doutrina luterana tem sua base na Escritura Sagrada. Dai o primeiro pilar: Somente a Escritura. Só e unicamente a Escritura, a palavra escrita de Deus é a única norma para a fé e a vida. Isto precisou ser reafirmado, pois a Igreja Católica na época e ainda hoje, mesmo afirmando ser a Bíblia a palavra de Deus, afirmam que somente o Papa de Roma e os Concílios têm a autoridade para interpretá-la corretamente. Assim acrescentam suas tradições à Bíblia. Lutero mostrou que Papas e Concílios têm errado. Por isso Lutero afirmou em Worms diante do Imperador, príncipes e Cardeais: “A não ser que eu seja convencido pela Escritura, não posso revogar.”
Poucos anos depois surgiu outra luta. O pregador suíço, Zwinglio, que no início concordou com Lutero, mas depois se desviou da verdade. Lutero notou com espanto e tristeza que Zwinglio colocou a razão humana como juiz supremo sobre a Bíblia. No ano de 1629, os dois se encontraram em Marburgo para um debate. O mesmo girou em torno da pergunta: Podemos confiar nas palavras de Jesus: “Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, dado e derramado por vós para remissão dos pecados.” ou devemos interpretá-las simbolicamente? Porque a razão humana não pode compreender como o verdadeiro corpo de Cristo pode estar presente em todo o mundo na celebração da Santa Ceia. Lutero defendeu que a razão humana não é juiz da Palavra é soberana e confiável, quer eu a compreenda ou não.
Após diversas lutas o pilar da Reforma foi firmado e estabelecido: Só e unicamente a Palavra é norma na igreja para a fé e vida.
O segundo pilar é: Somente por graça, isto é, somos salvos somente pela graça de Cristo sem as obras da lei. Isto porque a igreja Católica na época e ainda hoje, ensina que Cristo fez a sua parte e nós temos que fazer a nossa parte, completar a salvação por nossas obras. Somos salvos pelos méritos de Cristo e nossos. Lutero mostrou que nossas obras, por mais nobres que sejam, são todas imperfeitas e não subsistem diante do tribunal de Deus, se não forem purificadas pelo sangue de Cristo.
Cristo, como substituto de toda a humanidade, cumpriu a lei perfeitamente, por seu sofrer e morrer na cruz, pagou pelos pecados de toda a humanidade, e ao ressuscitar dos mortos, o Pai demonstrou que aceitou o sacrifício de Cristo, e que Cristo triunfou sobre nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. Com isto estava firmado o segundo Pilar: Somente pela graça de Cristo, baseados nas seguintes afirmações da Escritura:
- Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. (João 3.16 RA)

- Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2.8-9 RA)
- Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. (2 Coríntios 5.19 RA)
O terceiro pilar trata da fé. Somente pela fé. Os entusiastas da época e ainda hoje, ensinam que a Escritura é a palavra de Deus e que somos salvos pela graça de Cristo por fé. Mas quanto à fé, eles ensinam que ela é uma decisão da pessoa, um decidir-se por Cristo, uma ação humana e com isto uma boa obra. Eles fazem a salvação depender desta obra da decisão. E por a salvação depender da ação humana, negam o batismo de crianças.
Firmado na Bíblia, Lutero ensinou claramente que somos espiritualmente cegos, mortos e inimigos de Deus. Ninguém pode crer por própria força. Por isso confessamos com Lutero na explicação do terceiro artigo do Credo: Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo meu, senhor nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou, iluminou com seus dons e me conserva na única fé verdadeira. (1Co 2.14; Ef 21.5; Rm 8.7; 1Co 12.3)
Assim foi firmado o terceiro pilar: Somente por fé que o Espírito Santo opera, gera, cria e mantém pelos meios da graça, Palavra e sacramentos: batismo e santa ceia.
Sobre estes três pilares repousa a doutrina da Reforma Luterana, firmados unicamente na Escritura.
Nesta doutrina remos verdadeiro consolo na aflição. Ela enche nosso coração de paz e esperança da vida eterna.
II
E agora? Qual é o nosso compromisso com esta verdade?
O apóstolo Judas Tadeu escreve em sua carta: Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (Judas 1.3 RA)
Judas nos exorta a “batalharmos diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.”
Por que esta admoestação? Isto porque a palavra de Deus, como no tempo de Jesus e dos apóstolo, já foi considerada loucura e escândalo, assim o é ainda hoje. Hoje a mensagem da cruz está sendo atacada e criticada fortamente por pessoas que se chama cristãos. Eles a questionam, distorcem com armentos dos mais variados. Um dos principais é: Vivemos em outro tempo. Hoje não podemos mais aceitar esta palavra como ela. Não nos deixaos enganar Importa vigiar e orar.
Como se faz isto? Em primeiro lugar importa conhecendo bem esta verdade. Isto requer a leitura da Bíblia, a leitura de nosso Catecismo e se possível da Confissão de Augsburgo e da Fórmula de Concórdia, para nosso próprio consolo e para podermos testemunhar a outros, neste mundo em trevas e confusão.
Em segundo, importa lutarmos tanto interna como externamente por esta verdade doutrinária. Vocês vão ouvir muitas vozes, até em nosso meio, que querem nos desencorajar nesta luta. Eles dizem: No tempo de Lutero isto foi necessário, mas hoje vivemos em outros tempos. Tempo de paz e amor. Temos que deixar esta luta que só traz mais e mais divisões. Basta alguém conhecer o amor de Cristo, as outras doutrinas são de pouca importância, e assim por diante. Não. O apóstolo Judas nos mostra que a fé (a doutrina) nos foi entregue. A nós cabe administrá-la como bons mordomos de Cristo. Não temos o direito de abrir mão desta ou daquela doutrina. Não nos deixemos enganar.
Por isso o próprio Jesus nos diz: Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. (Apocalipse 3.11 RA) Queremos batalhar com fidelidade pela doutrina que Deus nos deu e conservou em nosso meio através de nossos pais.
Apegar-nos a ela para nosso consolo. Ensiná-la em nossa família e zelar para que em nossa congregação ela seja claramente ensinada para bênção de nossos filhos, netos e bisnetos, sim até a vinda de Cristo.
Neste espírito queremos festejar a Reforma luterana, com júbilo, gratidão e renovado apega à verdade e fiel testemunho. Amém
São Leopoldo, 27/10/2008
Horst R. Kuchenbecker

Jd 3. Reforma

Dia da Reforma (1876)
Sermão de C.F.W. Walther (Haus-Postile. St. Louis, CPH, 1882. pag. 464)
Tradução: Horst R. Kuchenbecker

Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (Judas 1.3 RA)

Oração: Senhor Jesus, a luta que nossos pais travaram no passado foi árdua, mas gloriosa a vitória que presenteaste a eles. Por isso nós te louvamos, hoje, jubilosos e alegres. Pois o que nossos pais sofreram em prol de tua santa e pura Palavra é hoje nossa preciosa herança e de nossos filhos.
Mas, esta santa luta ainda não terminou, pois nosso inimigo procura roubar-nos continuamente o que nós deste. Daí a necessidade da contínua admoestação: Batalhai diligentemente pela fé, que uma vez por todas foi entregue aos santos.
Por isso clamamos a ti, ó Senhor: Ajuda-nos para, como nossos pais, a lutar para que retenhamos a vitória, sejamos coroados por ti para podermos jubilar com nossos pais por toda a eternidade. Amém.

Introdução
Estimados irmãos na fé luterana, confissão e luta.
A história da Reforma, que relembramos e celebramos hoje, é a história de uma luta de 30 anos, iniciada em 1517, quando Lutero publicou suas 95 teses contra as abomináveis indulgências, até ao faleceu em 1546. Esta luta não foi tanto uma batalha física, mas espiritual. De um lato estava Lutero, o monge indefeso, sem nenhuma arma em suas mãos, somente a Bíblia, apoiado por poucos temerosos amigos; do outro lado estava o bem apoiado Papa de Roma com sua espada de dois gumes, do poder temporal e do poder espiritual. O Papa de Roma retinha em suas mãos o poder sobre a Igreja e o poder sobre o Estado, suportado por um incontável número de prelados, cardeais, bispos e arcebispos, sacerdotes, monges e freiras, bem como da mais alta e poderosa autoridade do império naquele tempo do cristianismo, o Imperador. De um lado, o erro, do outro lado, a verdade. De um lado, a palavra humana, do outro lado, a palavra de Deus. E o principal, de um lado, de forma invisível, Jesus Cristo, o rei da verdade, o Senhor da salvação com todos os seus anjos, do outro lado Satanás, o príncipe das trevas e da ruína, com todo seu exercito infernal.
Hoje, 359[1] anos após o dia 31 de outubro de 1517, no qual Lutero declarou guerra ao Papa de Roma, pregando as 95 teses contra o tráfico das Indulgências, cingido da espada do Espírito. Como Davi, no passado, com sua funda contra Golias; assim Lutero saiu de sua escura cela do mosteiro em nome do Senhor, do Deus vivo, e deu o sinal a todos os fiéis que estavam do lado de Deus e da verdadeira igreja, para o ataque e a guerra mais santa já travada nesta terra.
Daí por diante seguiu-se uma luta após a outra, tanto oral como por escrito. Em 1518, Lutero venceu em na cidade de Augsburgo um duelo secreto com o cardeal Caetano. A discussão girou em torno da palavra “revoco”, isto é, revogo. Toda a retórica do astuto italiano foi em vão. Ele não conseguiu levar Lutero a revogar. Lutero deixou a arena como vitorioso.
No ano seguinte, em 1519, seguiu um debate público entre Lutero e o astuto monge dominical, Dr. Eck. Neste debate em Leipzig, o tema foi a autoridade do Santo Papa e dos Concílios. Após o debate todos os que são da verdade, mesmo alguns papistas, atribuíram a vitória a Lutero.
Dois anos depois, em 1521, Lutero foi convocado para comparecer, pessoalmente, à Dieta de Worms, diante do Imperador, para se defender e ser julgado. Todos seus amigos estremeceram, mas Lutero não. Ele afirmou: “E se houver tantos demônios como telhas nos telhados em Worms eu irei. E ainda que meus inimigos fizessem, entre Wittenberg e Worms, uma fogueira que se erguesse até aos céus, eu haveria de comparecer em nome do Senhor e me enfiaria na boca do diabo, entre os seus enormes dentes, para confessar Cristo, entregando tudo nas sábias mãos de Deus.” Assim começou a árdua luta. E vejam! Como Daniel na cova dos Leões e os três homens no forno ardente, saíram ilesos, assim Lutero deixou Worms sem ser vencido. Sua declaração final foi e permanece: “Aqui estou. Não posso de outra forma. Que Deus me ajude. Amém.”
Uma segunda batalha árdua se desenrolou na entrega da Confissão na Dieta de Augsburgo, no ao de 1530. Por Lutero ter sido excomungado pele Papa e ser proscrito pelo Imperador, ele não pôde comparecer pessoalmente junto com os demais confessores nesta grande e decisiva Dieta. Porém, como comandante em chefe eleito por Deus para esta luta, não foi somente ele que pelas teses de Torgau, por assim dizer, ditou o plano dos artigos de paz, mas foi ele também que durante a Dieta, por suas cartas diárias de Coburg dava orientação e ânimo ao pequeno grupo em Augsbrugo. E o que aconteceu? O que Lutero compôs e cantava durante a árdua batalha: Castelo forte, é nosso Deus, defesa e boa espada; da angústia livra desde os céus, nossa alma atribulada. – Isto se cumpriu maravilhosamente. Também esta decisiva luta foi vencida. Apesar das ameaças do Imperador. No encerramento da Dieta, cantava-se nas tenda dos justos, em toda a cristandade a vitória.
A história da Reforma, estimados em Cristo, não é somente a história de uma luta para fora, mas também de uma luta espiritual doméstica.
Após Zwínglio, o pregador suíço, ter concordado com Lutero e lutado corajosamente com ele pela palavra de Deus contra as doutrinas humanas do papado, Zwinglio desviou-se da verdade e declarou: É contra a razão humana crer que o corpo e o sangue de Cristo estejam na Santa ceia. Com espanto Lutero notou que Zwínglio colocou a razão humana em lugar do Papa. Após troca de várias correspondências, marcaram, no ano de 1529 um debate na cidade de Marburgo. Seria uma luta decisiva. A disputa girou em torno da frase: Será que as palavras do onipotente Filho de Deus: “Isto é o meu corpo, isto é, o meu sangue”, estão firmes ou esta palavra de Deus deve dar lugar à razão e ser interpretada figurativamente? Esta foi a segunda guerra. Esta pergunta foi decidida em Marburgo. E graças a Deus! Também aqui, como em Worms, Lutero não cedeu. Assim Lutero livrou a igreja tanto da autoridade do Papa como da autoridade da razão humana.
Lutero lutou constantemente até ser chamado à pátria celestial, à paz celestial onde foi, como esperamos, coroado como todos os fiéis lutadores, para celebrar o triunfo de Cristo eternamente.
O que segue agora, irmãos e irmãs? Será que a vitória da Reforma trouxe paz à igreja? Não! A igreja só triunfará no céu, aqui na terra ela é uma igreja militante, isto é, ela precisa lutar até soar a última trombeta. Isto é mostrado em todos as páginas da Bíblia, e entre outras escreve o apóstolo Judas Tadeu: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.
À base destas palavras quero responder a pergunta:

Porque não podemos nem devemos parar de lutar pela verdadeira doutrina de nossa igreja?
Porque a doutrina pura de nossa igreja não é nossa propriedade, mas um bem que nos foi confiado para fiel administração;
Porque a perda desse tesouro é algo mais terrível do que a luta e discórdia entre as pessoas.
Porque esta luta é nos ordenada por Deus, por isso ela é uma luta abençoada aqui e na eternidade.

I

A primeira razão pela qual se supõe ser hora de parar de lutar pela doutrina pura de nossa igreja é, como muitos pensam, ser esta luta contra o amor.
Dizem que Cristo o afirmou com as seguintes palavras: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. (João 13.35 RA) O apóstolo João também afirma: Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. (1 João 3.14 RA) E o apóstolo Paulo atesta: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor. (1 Coríntios 13.1,13 RA) Quando os gálatas brigaram entre si, o apóstolo Paulo lhes recomendou: Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. (Gálatas 5.15 RA)
Por mais certo que sejam estas afirmações de que o amor aos irmãos é o indispensável sinal dos verdadeiros cristãos, que sem amor todas as outras virtudes são somente aparências, e todos os dons, por mais altos que sejam, são inúteis, e que lutas e brigas só trazem ruína; mas à base disto não se pode afirmar que tenha chegada a hora de abrirmos mão da luta pela doutrina pura em nossa igreja. Pois o apóstolo também escreve: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Da verdadeira fé o apóstolo afirma que esta luta lhe é ordenada. A verdadeira fé ou o que é o mesmo, a verdadeira doutrina não foi simplesmente entregue aos santos para que pudessem fazer com ela o que bem quisessem. Ela não foi entregue para ser sua propriedade sobre a qual eles têm plena liberdade para fazer com ela o que bem quiserem. Não. Ela lhes foi entregue como um bem alheio, como um bem e propriedade de Deus, confiada a eles, para que como servos fiéis a administrem e a conservem bem.
Julguem, portanto, vocês mesmos: Será que o amor requer de um administrador que ele dê algo do que lhe foi confiado a outrem? Isente os devedores do seu senhor? Permita que outros tirem dele os tesouros que seu senhor lhe confiou? Por exemplo, será que foi amor que moveu o administrador infiel a perdoar ao que devia cem latas de azeite, dizendo ao credor, senta-te e escreve cinqüenta? (Lc 16.1-13). Não, isto é infidelidade, sim roubo e furto?
É por esta razão que Jesus o chama de “administrador infiel” (Lc 16.8). Seria amor se um general no campo de batalha, para evitar a luta e o combate, entregasse ao inimigo uma porta do muro que lhe foi confiado para defendê-la? Não seria tal general chamado a prestar contas de sua ação e condenado como traidor da pátria? Seria amor tirar bens de outrem para fazer o auxiliar os pobres? E finalmente, seria amor se Lutero, ao notar que a verdade que ele reconheceu na Bíblia, por suscita tantas discussões e brigas, resolvesse silenciar imediatamente? Julguem vocês mesmos. Seria amor se nós luteranos, na luta pela doutrina pura que nos foi concedida para administrá-la fielmente, abríssemos mão dela? Ou, a fim de fazer amigos e a passar por pessoas de amor e paz, deixasse a verdade de lado? Não! Isto não seria amor cristão, nem amor para com o próximo, muito menos amor a Deus, mas amor próprio. Seríamos nós administradores fiéis do grande tesouro que Deus nos confiou? Não, pelo contrário, seríamos administradores infiéis de bens alheiros, o que é roubo diante de Deus. E ladrões não herdam a vida eterna.
Na verdade, nosso amor deve estar pronto a, por amor à paz, nas coisas sobre as quais temos poder, ceder, mas não sobre coisas sobre as quais não temos o poder de decisão. Nosso amor deve estar pronto a sacrificar tudo o que temos, mesmo nossa vida se necessário. É por isso que no ano 1522, Lutero disse a seus oponentes: “Meu amor está pronto a morrer por vocês...; mas a fé ou a Palavra vocês devem adorar. De nosso amor vocês podem requerer o que quiserem; nossa fé, porém, vocês devem temer.” (Walch, XIX, 660).
Queridos amigos, colaboradores, confessores e lutadores luteranos, não nos deixemos enganar nem amedrontar, se hoje nos acusam de sermos pessoas sem amor, por lutarmos pela pureza de doutrina em nossa igreja.
Mantenham em mente: a doutrina é, como diz o nosso texto, a fé, que uma vez por todas foi entregue aos santos. Ela não é nossa propriedade, não temos o poder nem a liberdade de fazer o que bem nos parecer, de abrir mão dela. Ela é propriedade de Deus, que nos foi confiada para administrá-la e não somente nós, mas toda a cristandade, sim, o mundo inteiro deve preservá-la e transmiti-la de forma inalterada à posteridade. No dia do juízo final, Deus pedirá contas, especialmente a nós luteranos, também com respeito à conservação da doutrina pura, quando nos dirá: Presta contas de tua administração.
Sabemos que é algo muito doloroso alguém ser taxada como uma pessoa sem amor. Tais acusações quebram o coração. Este ultraje, no entanto, todos os fiéis lutadores tiveram que carregar. Por isso nossos bem-aventurados pais afirmam em nossas Confissões: Dissentir do consenso de tantas gentes e ser chamado de cismático é grave. Mas a autoridade divina manda a todos que não sejam aliados e propugnadores de impiedade e injusta crueldade.” Do poder e Primado do Papa, 42; LC, pág. 353) Assim, para que o mundo veja que em nós luteranos habita o amor, queremos mostrá-lo de forma abundante nas coisas materiais; mas em questões de doutrina e de sua Palavra, que nos foi dada na Escritura Sagrada, a palavra de Cristo, queremos guiar-nos pela palavra de Jesus: Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. (Mt 10.37)
II

Estimados irmãos e irmãs, em segundo lugar, nós não podemos abrir mão da luta pela doutrina pura em nossa igreja porque a perda desse tesouro, é muito pior do que todas as brigas, e discórdias entre as pessoas.
Na verdade, a luta e as discussões que se travam em toda a cristandade, não somente entre diversas comunidade cristãs, mas também entre membros da mesma igreja é uma tristeza muito grande. Não há palavras, nem lágrimas de sangue suficientes para lamentar este triste fato. É lamentável ver que aqueles que querem ser filhos de um e mesmo Pai celestial, servos do mesmo Salvador, templos do mesmo Espírito Santo, que estes brigam entre si. É lamentável que aqueles que deveriam estar unidos como um só homem, para lutarem contra os inúmeros inimigos do cristianismo, que estes puxam suas espadas um contra o outro. Como o diabo deve estar se alegrando e pulando ao ver esta desunião entre os cristãos? Muitos incrédulos se chocam nisso e não querem saber mais nada do cristianismo, pois dizem: Como o cristianismo quer ser ela a única religião que salva, se os membros brigam tanto entre si? E quantos cristãos fracos já se escandalizam nisso e abandonaram a fé, voltando ao mundo? – Como, indagam muitos, não é tempo de nos luteranos pararmos com esta luta pela doutrina? Que nós, como Isaías profetizou, transformemos nossas espadas em arados e nossas lanças em foices? (Is 2.4) É tempo de estendermos as mãos a todos os cristãos para reconciliação, para formar uma grande comunidade de paz e união?
Sem dúvida, estimados irmãos. Se nos luteranos pudéssemos comprar com o nosso sangue um belo e geral tratado de paz, nenhum luterano, nem pregador, deveria considerar seu sangue demasiadamente valioso, antes com mil alegrias derramá-lo. E mesmo assim, não devemos abrir mão de nossa luta pela doutrina pura em nossa igreja. É isto que a Sagrada Escritura nos ensina. É isto que também o nosso texto no-lo mostra: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (v.3) Vejam, por o apóstolo escrever aos cristãos a cerca de nossa comum salvação. Por isso ele considera necessário, exortá-los em primeiro lugar para que lutem pela fé. Conforme esta explicação apostólica, não se trata aqui de algo insignificante, mas de nossa comum salvação.
Como? Será que podemos ou devemos parar a luta pela doutrina bíblica pura? Não! Nunca! – Sim, quando se trata de dinheiro e bens, honra pessoal, dias aprazíveis, em fim da luta por coisas terrenas: ai de nós, se não perguntarmos se isto promoverá a paz no mundo e na igreja, se através disso os incrédulos e fracos na fé não serão escandalizados, ou se através disso o reino de Deus será impedido. Uma outra coisa, no entanto, é, se nós lutamos pela fé, que foi dada aos santos.
Por isso todos os profetas e apóstolos e o próprio Cristo lutaram ininterruptamente pela verdadeira fé. Jesus afirma: Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. (Mateus 10.34-36 RA) A luta que surge por causa da doutrina pura é, por isso, não uma luta desastrosa, mas abençoada. Jesus ordenou lutar.
Se ninguém falsificasse a palavra de Deus, não haveria necessidade de lutar, então isto seria grave pecado. Mas por a natureza carnal, o mundo e Satanás tratarem continuamente de falsificar a palavra de Deus ou a doutrina pura - e ela nunca foi tanto falsificada quanto em nossos dias - vindo milhares de pessoas a perecerem eternamente devido a doutrina falsa. Será que diante disso podemos ou devemos permanecer calados só para não perturbar a paz terrena? E o que é pior, perder a paz terrena ou perder a paz da alma; ser roubado da paz terrena ou ser roubado do tesouro que nos traz a paz eterna? Não disse Jesus: Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? (Mateus 16.26 RA)
Vejam, o que seria de nós se no quarto século, quando Arias atacou a divindade de Cristo, se Atanásio e outros não tivessem combatido esta falsa doutrina? Se no quinto século, quando Pelágio atacou a doutrina da salvação somente pela graça de Cristo, se Agostinha ou outros não tivessem combatido esse erro? Quando no décimo século, o Papado falsificou a maioria das doutrinas de Cristo, se Lutero e outros não tivessem combatido os erros? Ou quando no final do século 17, ao o racionalismo penetrar na igreja, se ninguém o tivesse combatido, simplesmente para evitar lutas e inimizades e manter a paz? O que seria da palavra de Deus? Onde estaria a igreja hoje? Onde estaria a doutrina correta que conduz ao céu? Tudo isso já teria desaparecido e milhares de pessoas rumariam para a eterna condenação.
Por isso, irmãos e irmãs, lamentamos de coração que continuamente se levantam falsos profetas que atacam a doutrina pura de nossa igreja, causando lutas e discussões na igreja; mas não lamentamos o fato por Deus, despertar continuamente pessoas que combatem os erros, por isso, louvamos e sejamos agradecidos a Deus, lembrando que: nossa salvação está em jogo.
III

E agora, irmãos e irmãs, o mais importante e a razão mais irrefutável pela qual não podemos abrir mão da luta pela doutrina pura é esta: O conflito nos é ordenado por Deus. Por isso ela, certamente, será abençoado por Deus no tempo e na eternidade. Permitam-me falar um pouco sobre isto e concedam-me mais um pouco de vossa atenção.
Temos hoje muitas cristãos bem intencionados que afirmam: Não rejeitamos todas as lutas pela doutrina pura no passado, pois nossos pais lutaram com toda a seriedade pela mesma. Assim, por exemplo, foi correto que Lutero, há quase 500 anos atrás, lutou corajosamente até à morte pelo evangelho contra as falsificações do papado. Esta luta teve um resultado como nunca houve na igreja.
Mas agora é tempo de por um fim a esta luta pela doutrina verdadeira, na qual cristãos lutam um contra o outro. Agora é tempo de juntos edificarmos a igreja em paz. Pois qual é o resultado de todas essas lutas? Nenhum outro do que novas divisões e confusões na cristandade. Será?
Por bem intencionados que esses pregadores da paz sejam, eles estão labutando num grande erro.
Primeiro, não é verdade que em nossos dias, nos quais a luta pela verdadeira doutrina já dura 30 anos, tendo como resultado maiores divisões e confusões. Pelo contrário – e isso seja dito unicamente para a glória de Deus – o resultado da luta é que a igreja da reforma com suas doutrinas claras e puras está novamente entre nós, ressuscitada da morte. Mais de mil congregações se reuniram novamente em torno das Confissões de nossa igreja e da América ecoa novamente o puro evangelho para muitos países, conquistando novos confessores da verdade, que se reúnem sob esta bandeira de nossos pais.
Outros milhares de milhares que já estavam prontos a abrirem mão da verdade, foram por essa luta, pelo menos parados no caminho do erro, e motivados a passo por passo retornarem ao caminho da verdade. A luta atual pela verdade está sendo ricamente abençoada, além do esperado e nossas orações, suplicas ouvidas além de nossa compreensão.
E mesmo se não fosse assim; e parecesse que a luta pela verdade em nossos dias e em nossa igreja fosse infrutífera e vã, mesmo assim não poderíamos parar de lutar. E por que não? – Por Deus o ter ordenado com palavras claras. Pois quem, entre outros textos, está fala a nós pelo apóstolo Judas, exortando todos os santos, isto é, todos os fiéis, a batalharem diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos? Isto é o próprio e onipotente Deus. Pois os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo. (2 Pe 1.21) O que precisamos mais? Que pessoa ou anjo poderia, se Deus o ordenou, dizer: Não lutem mais?
E ao lutarmos firmados na ordem de Deus, poderíamos temer que nossa luta seja vã? Não! Nunca! O que Deus faz e ordena é abençoado no tempo e na eternidade. Como o próprio Siraque afirma: Luta até a morte pela verdade e o Senhor Deus combaterá por ti (Eclesiástico 4.28 - ou Siraque, livro apócrifo)
Portanto, não demos ouvidos àqueles que louvam a luta do passado pelo evangelho, mas não querem saber hoje de uma luta igual. Deus ordenou: Batalhar pela fé. Isto vale para todos, também para os nossos dias. Que o zelo, com o qual Lutero e seus fiéis colaboradores lutaram, inflame também hoje nossos corações. Não queremos entregar, covardemente, o que nossos pais por árduas lutas, com a Palavra, Escritura, sangue e lágrimas nos conquistaram; mas lutar corajosamente contra os ataques e defendê-lo até a morte. Não queremos considerar nenhuma verdade que nos foi revelada de somenos importância, permitindo falsificações. Lembrem: Um pouco de fermento levada toda a massa. (1Co 5.6) Não temam que por causa de nossa luta sejamos taxados de pessoas impiedosas e malvadas. Também Lutero e seus colaboradores experimentaram isso, e mesmo assim ainda hoje milhares de milhares desfrutam da bênção dessas lutas, enquanto eles já descansam nas sepulturas. Mostremo-nos não como degenerados, mas como verdadeiros filhos da Reforma, assim também quando nós, tendo virado pó e cinzas, nossos filhos, netos e bisnetos possam ainda desfrutarão as bênçãos destas lutas pela verdade.
Ainda que nosso nome, devido as lutas pela doutrina pura em nossa igreja, seja difamado entre as pessoas até o juízo final, mas, se perseverarmos fiéis na luta, sendo Deus verdadeiro e justo, por amor a Cristo, no dia do juízo final seremos coroados e entraremos na paz por toda a eternidade. Que alegria, que júbilo será quando nós pobres pecadores, desprezados aqui, repreendidos e odiados, seremos aceitos na incontável multidão dos santos, de Adão aos últimos lutadores que triunfam, diante do trono de Deus. Nestes termos ainda vos conclamo: Sigamos, pois o bom Senhor / com tudo o que nos temos; / e toda angústia, sem temor, / alegres suportemos. / Quem foge à luta aqui, perdeu / o prêmio eteno lá no céu. ( HL 319.7)
São Leopoldo, 28/10/2008
Horst R. Kuchenbecker
[1] No tempo de Walther ano 1876. Hoje, para nós anos 2008, são 491 anos após 1517.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Mateus 22.34-46. Lei e Evangelho

Evangelium Postile – C. F. W. Walther
Mateus 22.34-46
Tradução e adaptação – HK
Introdução
Toda a Escritura do Antigo e do Novo Testamento, sim cada um dos livros que compõe a Bíblia, contém duas doutrinas principais, a saber: lei e evangelho.
Essas duas doutrinas precisam estar sempre juntas. Onde uma falta, a outra também faltará. Onde uma desaparece, a outra também desaparecerá. Onde uma não é reconhecida, a outra também não será reconhecida. Onde uma não é ensinada com clareza, a outra também não terá clareza. Sem a lei, o evangelho não alcança seu propósito, assim também sem o evangelho, a lei não alcança seu propósito.
Como estas duas doutrinas estão intimamente unidas como montes e vales, luz e sombra, com a mesma precisão elas precisam ser claramente distinguidas uma da outra, pois são diferentes como noite e dia, terra e céu. Sim, elas se distinguem como as obras humanas das obras de Deus; como o dar e o receber, como vida e morte, ira e graça, condenação e salvação.
Sobre o reconhecimento dessas diferenças descansa tudo o que um cristão crê e espera. Quem ainda não reconheceu esta diferença entre lei e evangelho, ainda não é um cristão. Pois, sua fé, sua esperança e todo o seu agir repousa sobre um fundamento incerto e vacilante. Uma fé incerta, uma esperança duvidosa, uma obra dúbia não é fé cristã, nem esperança cristã, nem obra cristã. Sem a clara distinção entre lei e evangelho ninguém pode ser um verdadeiro pregador e professor. Por isso o apóstolo Paulo requer de todo o bispo que maneja bem a palavra da verdade. (2 Timóteo 2.15 RA)
O que falta a todas ás seitas cristãs consiste principalmente nisto de não distinguirem claramente entre lei e evangelho. Deste problema fluem todos os erros. Uns como os católicos, fazem do evangelho uma lei, outros, como os racionalistas, os pregadores de virtudes cristãs fazem o contrário, da lei um evangelho. E todos os entusiastas, unionistas, misturam constantemente de forma perigosa essas duas doutrinas.
Não podemos agradecer a Deus o suficiente por ter restaurado a verdade pela Reforma de Lutero e trazido à luz a clara distinção entre lei e evangelho. Através desta reforma nossa Igreja Luterana tem a verdadeira chave a todos os livros da Escritura Sagrada, o correto guia para as doutrinas da revelação, a verdadeira luz para os mistérios de Deus, e a verdadeira pedra de toque para distinguir a verdade do erro. E, visto que em nossa igreja se ensina claramente sobre lei e evangelho, cada um pode chegar ao conhecimento do caminho da salvação e trilhar o mesmo com segurança. A correta compreensão da diferença entre lei e evangelho que nos foi presenteado é, portanto, um tesouro mais valioso do que outro e prata deste mundo. Por este tesouro, todo o congregado luterano deveria amar sua igreja, como os fiéis do Antigo Testamento amavam sua cidade Jerusalém, e diziam uns aos outros: Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apegue-se-me a língua ao paladar, se me não lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria. (Salmos 137.5-6 RA)
Mas ao dizer que nossa Igreja Luterana possui esse tesouro, quero dizer que este tesouro está nas preciosas Confissões de nossa Igreja, pois, nem todos os que se dizem luteranos reconhecem este tesouro. Infelizmente há muitos que são luteranos e anos a fio ouviram e ouvem pregações corretas, mas ainda não conhecem a diferença entre lei e evangelho. Tudo isso ainda lhes é nebuloso. E entre eles estão ainda aqueles que procura sua salvação na lei. Por isso, ao estarmos aqui reunidos para ouvir o evangelho, quero expô-lo sob o seguinte tema:
Quão tolo é procurar a salvação de sua alma na lei e não no evangelho, isto porque: 1) quem procura sua salvação na lei a procura em vão; 2) pois a salvação de nossa alma encontramos somente no evangelho de Cristo.
Oração: Misericordioso Deus e Pai, tu o disseste muitíssimas vezes e o comprovaste por tua ação, que não desejas que alguém se perca, mas que todos cheguem ao pleno conhecimento da verdade e sejam salvos. Mesmo assim, a maioria segue seguro para a condenação, não se importando com a salvação de sua alma imortal, só aspiram riquezas e prazeres deste mundo. E mesmo muitos dos que se preocupam com a salvação de sua alma, a procuram ali onde não a encontram. Tu o lamentas, dizendo pelo profeta: Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas. (Jeremias 2.13 RA) Senhor guarda-nos destes dois erros. Toma-nos, desperta-nos para que perguntemos com toda a sinceridade: Senhor, que devo fazer para ser salvo? E então ajuda-nos, ilumina-nos e dirige-nos por teu Espírito para sermos guiados e fortalecidos na correta compreensão de lei e evangelho, e sermos fortalecidos na verdadeira fé, para que ninguém a tome de nos. Abençoa tua Palavra nesta hora em todos nós, por amor de Jesus Cristo, teu Filho unigênito, nosso Salvador. Amém.
I
Lemos em nosso texto: Entretanto, os fariseus, sabendo que ele fizera calar os saduceus, reuniram-se em conselho. E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? (Mateus 22:34-36 RA)
Pouco antes, os saduceus, que não criam na ressurreição da carne, interrogaram a Jesus a respeito dessa ressurreição, pois julgavam que poderiam colocar Jesus em dificuldade. Mas, Jesus lhes expôs a doutrina da ressurreição da carne pela Escritura, e isto de tal forma que foram envergonhados diante do povo. Os fariseus, inimigos dos saduceus, se alegraram. E querendo mostrar que são mais sábios, eles resolveram enredar Jesus com suas perguntas.
O que fizeram? Eles se reuniram e deliberaram sobre como proceder. Chegaram entre si a um acordo de apresentar a Jesus a pergunta sobre qual seria o mais mandamentos da lei? Eles já discutiam sobre isso anos a fim sem chegarem a uma conclusão. Seria o mandamento do sábado? dos sacrifícios? da circuncisão? Eles consideravam essa pergunta insolúvel. Pois seja qual fosse a resposta, poderiam questioná-la. Escolheram, então, um escriba para apresentá-la a Jesus. O cenário estava bem preparado, e o escriba perguntou a Jesus: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? (Mateus 22. 6 RA) Com isto estavam dizendo: Jesus, tu permites que te chamem de Mestre, então mostra-nos teu saber a respeito da pergunta que te fizemos, que até hoje ninguém conseguiu responder. E todos ali estavam curiosos pela resposta de Jesus.1
Sem titubear, Jesus respondeu: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22.37-40 RA)2 Surpresos os fariseus e o povo ouviram a resposta e ninguém ousou questionar. Em vão olharam para o escriba, versado na lei, esperando dele uma reação. Todos ali sentiram que a questão, que parecia insolúvel, estava respondida. Pois o amor a Deus e ao próximo é o resumo de toda a lei, tanto da primeira como da segunda tábua da lei. A lei do amor é o maior e mais importante entre todos os mandamentos, o cumprimento da lei.
Mas a resposta de Jesus não visava somente dar uma resposta satisfatória aos fariseus. Jesus veio buscar e salvar o que estava perdido. Assim sua resposta tinha a graciosa intenção de mostrar aos fariseus e ao povo, que era loucura buscarem a salvação na lei, pois pela lei ninguém se salvará.
Esta é a verdade. Se o cumprimento da lei, como os fariseus pensavam e hoje muitos ainda pensam, só consistisse em cumprir este ou aquele mandamento, praticar esta ou aquela virtude, fazer esta ou aquela boa obra, evitar este ou aquele pecado, renunciar a este ou aquele prazer, então, na verdade, seria possível alguém, pelo cumprimento da lei alcançar a salvação. Mas, não é assim. O mais precioso e grande mandamento da lei de Deus, o resumo de toda a lei, o verdadeiro sentido é: Amar o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a alma, e de todo o entendimento e o teu próximo como a ti mesmo. Onde falta este amor, ali uma pessoa pode fazer o deixar de fazer o que quiser, e mesmo assim não cumpre a lei, pelo contrário em tudo o que ela faz, mesmo que seja a prática das maiores virtudes, a pessoa está transgredindo toda a lei.
De quem se pode dizer, então, que ama, sinceramente, de todo o coração, de toda a alma e de todo o seu entendimento a Deus? De todo o coração significa aqui a vontade. De toda a alma são os desejos. De todo o entendimento, o raciocínio. Somente aquele ama a Deus de todo o coração, que faz da vontade de Deus a sua vontade; de toda a alma, cujos desejos estão só voltados para Deus; e de todo o entendimento, cujos pensamentos estão continuamente voltados para Deus. Quem julga amar a Deus de todo o coração, sem a participação de sua vontade é um hipócrita. Quem julga amar a Deus, mas não de todo o coração, com seu coração dividido é um que vacila e na verdade, não ama a Deus. Pois Deus quer o coração integral da pessoa. Quem julga estar amando a Deus, mas não de toda a alma, isto é, sem a participação de seus desejos íntimos, tal amor é frio e não é amor, é morno e Deus o vomitará de sua boca (Ap 3.16), pois Deus quer ser amado de toda a alma. Quem julga amar a Deus, mas não de todo o entendimento, com a participação de sua razão, ainda não reconheceu Deus como seu bem supremo. Esta pessoa ainda não reconheceu Deus como o seu Deus, pois ainda ama criaturas e dons mais do que a Deus. Pois Deus só ama aquele que ama a Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Uma pessoa que quer agradar a Deus, a ela desagrada tudo que desagrada a Deus, que ama todo o bem que Deus ama, e odeia todo o mal, porque Deus o odeia; que ama um dom ou uma criatura, somente por amor e vontade Deus, que tem somente em Deus o seu prazer e por isso sempre deseja a comunhão com Deus. Sem Deus, a pessoa não encontra alegria em nada, mas com Deus ela está alegre também no maior infortúnio. E se conforme a vontade de Deus ele perde algo, isto não lhe é perda, mas lucro, não sofrimento, mas alegria.
Em resumo, somente esta pessoa cumpre a lei, que ama a Deus de todo o coração, de toda a alma, e de todo o entendimento. Somente esta pessoa cumpre a lei, em cujo coração não há outra coisa do que amor a Deus, que não ama nada mais, nem igual, tão somente a Deus, e cujo amor não termina, nem é interrompido ou diminuiu, e que em tudo o que pensa, fala e faz está cheio do amor a Deus e dirigido por este amor.
A lei, porém, não requer de nós somente amor a Deus, mas ela requer também que amemos o nosso próximo como a nós mesmo3. De quem, no entanto, podemos dizer que ama o seu próximo como a si mesmo? Isto poderemos ver bem, ao examinar o quanto cada um de nós ama a si mesmo. Por natureza, cada pessoa ama a si mesmo, não somente por aparência, mas realmente; não só de forma fria, mas intensamente; não só nos momentos em que é piedoso, mas também, quando é ímpio. A pessoa nunca busca seu prejuízo, mas sempre sua vantagem, mesmo com o maior esforço e pelo expondo-se a grandes perigos. Somente este ama o se próximo como a si mesmo que em relação a cada pessoa, seja amigo ou inimigo, ímpio ou cristão, trata cada pessoa como se fosse ele próprio. Portanto, somente aquele que ama cada pessoa sincera, intensa e constantemente, como a si mesmo, não fazendo distinção entre pessoas. Somente aquele que procura desviar o mal do seu próximo com tanto zelo e empenho como o desviaria de si próprio, procurando com todo o empenho o bem estar do próximo. Sim, somente aquele ama seu próximo como a si mesmo que, como diz o apóstolo, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, (1 Coríntios 13:5 RA) mas busca o bem estar do próximo. Somente aquele cuja ação e cujo agir tem a finalidade de servir ao próximo, e não aos seus interesses. (1Co 13.5) Que não está somente pronto a se empenhar pelo bem estar do próximo, mas também a sofrer pelo próximo, e se necessário dar sua vida por ele.
Digam-me agora, estimados irmãos e irmãs, onde encontramos tais pessoas que amam a Deus e seu próximo assim? É verdade que vivemos em dias nos quais se proclamam “paz e amor”, nos quais se fala constantemente em amor como a coisa principal na vida. Onde a sociedade e suas organizações afirmam terem o propósito de promover o amor. Mas se compararmos este amor com o amor que a lei de Deus requer, com o amor do qual muitos se orgulham, veremos que aquilo que muitos chamam de amor, não é outra coisa do que amor próprio, escolhido conforme seus interesses específicos. E, por o verdadeiro amor ter morrido neste mundo, por ninguém amar mais o seu próximo, nem se compadecer das necessidades do próximo, a sociedade precisa criar organizações e instituições em benefício das necessidades do próximo, que tem a aparência de obras beneméritas e caritativas, mas no fundo as pessoas se servem a si mesmas por estas obras. Pois, para manter estas obras chamadas caritativas precisam organizar rifas, bingos, bailes, etc., que na verdade comprovam que não existem mais doações livres em prol das necessidades do próximo. Tudo se resume em egoísmo e proveito próprio.
Mas, será que pelo menos dos verdadeiros cristãos podemos dizer que eles amam de fato a Deus de todo o coração, alma e entendimento e ao próximo como a si mesmos?
Alguns entusiastas de seitas afirmam terem alcançado o verdadeiro amor, isto é pura cegueira e loucura.
Na verdade há verdadeiro amor a Deus e ao próximo, bem como aos inimigos no coração dos verdadeiros cristãos. Pois onde ainda não há a chama desse amor no coração, ali o cristianismo é hipocrisia e engano. Mas onde estão os cristãos que podem dizer que nos seus corações não habita outra coisa do que o puro amor a Deus e ao próximo? Onde estão os cristãos que podem dizer que o impulso de seus pensamentos e desejos, palavras e obras são inteiramente amor a Deus e ao próximo? Onde estão os cristãos que podem dizer que nunca foram levianos em relação a Deus e ao próximo, nem tiveram má vontade no cumprimento da lei? Se cada um, mesmo a pessoa mais santa, se examinar a si mesma conforme a lei do amor verá quão imperfeito é o seu amor. Cabe a casa cristão dobrar seus joelhos e confessar com o rei Davi: Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente, (Salmos 143.2 RA) e com Jó: Se quiser contender com ele, nem a uma de mil coisas lhe poderá responder. (Jó 9:3 RA)
Mas, estimados, Deus julgará as pessoas conforme a lei, conforme o amor, visto que somente o amor é o cumprimento da lei. Por isso, se não houvesse uma outra doutrina na Bíblia além da lei, estaríamos todos perdidos e condenados, pois o salmista suplica: Não entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista não há justo nenhum vivente. (Salmos 143.2 RA) Por isso é loucura, sim, tolice alguém tentar salvar-se pela lei.
II
Mas, louvado seja Deus, há ainda uma outra doutrina na Escritura, uma doutrina na qual a salvação que o homem procura em vão na lei, lhe é oferecida por Deus; a saber, a doutrina do evangelho. Permitam-me, ainda, expor esta doutrina baseado em nosso evangelho.
Lemos em nosso texto: Reunidos os fariseus, interrogou-os Jesus: Que pensais vós do Cristo? De quem é filho? Responderam-lhe eles: De Davi. Replicou-lhes Jesus: Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é ele seu filho? E ninguém lhe podia responder palavra, nem ousou alguém, a partir daquele dia, fazer-lhe perguntas. (Mateus 22:41-46 RA)
Jesus, após ter respondido a pergunta dos fariseus sobre a lei, fez uma outra pergunta aos fariseus? Que pensais vós de Cristo? de quem é filho?Qual o propósito dessa pergunta?
Com esta pergunta, Jesus queria mostrar aos fariseus, cegos em coisas espirituais, que eles estão procurando sua salvação em vão na lei, pois somente no evangelho da graça de Cristo, há salvação.
Os fariseus tinham uma concepção bem errada de Cristo, porque interpretavam mal os profetas. Eles julgavam que o Messias seria simples pessoa humana que levantaria aqui na terra um maravilhoso reino terreno, e conduziria a nação judaica a um domínio mundial sobre todas as outras nações. Por isso Jesus perguntou a eles sobre Cristo, de quem é filho? Eles responderam: De Davi! E Jesus perguntou: Como, pois, Davi, pelo Espírito, chama-lhe Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés. (v.44; Sl l10.1) Como, pois, Davi, o chama de Senhor, mesmo antes de ter nascido? Portanto ele não era simples pessoa humana, mas o eterno Filho de Deus. Disso os fariseus deveriam concluir que também o Reino de Cristo não seria um reino terreno e temporal, mas um reino divino, celestial e eterno, e que somente nele encontramos a salvação e a vida eterna.
Como o amor a Deus e ao próximo é o resumo da lei, assim o amor de Cristo a nós é o conteúdo central do evangelho. Por isso, quando a pergunta: Cumpriste a lei? nos envergonha e nos faz tremer diante da ira de Deus, então importa que nós nos voltemos para a pergunta: Quem pensais vós de Cristo? de quem é filho? Feliz quem pode então responder alegremente e com firmeza: “Cristo é meu Senhor, que me remiu a mim homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como ele ressuscitou dos mortos, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade.” Bem-aventurado quem pode confessar assim a respeito de Cristo e chamá-lo de Senhor, mesmo não tendo cumprido a lei, nem o conseguido. Assim como um pobre servo endividado não precisa temer, nem andar preocupado, nem temer seus inimigos, se ele tiver um Senhor amável, gracioso, rico que pode pagar a dívida dele e protegê-lo. Assim nenhuma pessoa que confia na graça de Cristo precisa temer, pois em Cristo encontra completo perdão dos pecados e paz com Deus, visto que Jesus não somente pagou por todos os nossos pecados, mas também venceu nossos inimigos.
Assim estimados irmãos e irmão em Cristo, não sejam todos tentando buscar vossa salvação nas obras da lei. Aprendam a reconhecer que a lei nos condena indistintamente, pois não temos amado a Deus e ao próximo de todo o coração, alma e entendimento. Por isso, recorra em espírito de humilhação e arrependimento à graça de Cristo na qual encontrarás perdão, vida e eterna salvação. Vejam com que amor Jesus chamou os endurecidos e cegos fariseus a si, assim ele chama ainda hoje todas as pessoas a si. Ali, junto a Jesus, encontramos o que nossa alma, carregada de pecados, almeja, perdão, justiça, paz, alegria no Espírito Santo. Ali receberemos o que a lei não nos pode dar.
E o que é mais sublime, quem busca a salvação na graça do evangelho, este recebe um coração novo que começa a amar a Deus e ao próximo. Pois a quem muito se perdoa, muito ama. (Lc 7.47) Este recebe já aqui as primícias da colheita da vida eterna. E quando nossa hora derradeira chegar, nosso velho homem, nossa natureza carnal serão definitivamente sepultados, para então, cobertos com o manto branco de Cristo poderemos entrar na glória eterna, enquanto nosso corpo aguardará o dia da ressurreição, para ressuscitar glorioso e sem pecado, para vermos e vivermos diante de Deus eternamente justiça e bem-aventurança. Deus no-lo conceda a todos nós. Amém
São Leopoldo, 17/10/20
Horst R. Kuchenbecker

1 Conforme os judeus no cinco livros de Moisés encontram-se 613 leis. Para a correta interpretação destas leis, eles criaram mais de mil leis complementares. Julgavam que pelo cumprimentos dos principais mandamentos teriam um crédito junto a Deus. Algo parecido os católicos praticam ainda hoje, julgando que seus santos cumpriram a lei até além da cota e tem obras sobrando que a igreja pode vender a outros. Seistas julgam poderem cumprir a lei, daí seus muitos livros com regras, como por exemplo: As dez regras para viver conforme o amor ao próximo. 15 regras para ser feliz, etc.
2 Observem que há somente dois mandamentos, não três. Amar a Deus e amar o próximo. O como a ti mesmo, não é em sai uma lei, pois todos nós nascemos profundamente egoístas, amando-nos a nós mesmo em primeiro lugar e sobre tudo. Este egoísmo é pecado. Só quem renasceu pela fé na graça de Cristo o compreenderá como pecado, lutará contra o egoísmo, procurando afogar sua natureza carnal, para viver segundo a fé, cujos frutos são amor a Deus e ao próximo como a si mesmo, a exemplo do bom samaritano.
3 Como a nós mesmos, após a queda em pecado, nascemos todos com o coração corrompido pelo pecado, isto é, profundamento e totalmente egoístas. Só pensamos em nós, Eu, eu, e eu. O que Deus requer é não sermos egoístas, mas colocar o próximo em primeiro lugar, a exemplo do bom samaritano. (Lc 10.33) Ele se colocou no lugar do homem que tora assaltado e estava ali ferido. Se eu estivesse no lugar dele, o que eu gostaria que me fizessem. E foi e o fez. Socorreu, pondo em risco a sua vida. Sacrificou de seus bens. Foi constante no socorrer. Assim só jesus nos amou.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

22° Domingo após Pentecostes - 12/10/2008


Salmo 96. O novo hino do santo evangelho. Uma profecia do reino de Cristo. Todas as criaturas são convocadas ao culto a Jesus, que governa com justiça.-v.1-3. Cantai ao Senhor um cântico novo. É um hino que trás algo novo, e antes que vem, já vos faço ouvi-lo: Cristo e sua salvação. Isto é sempre algo novo que nos refrigera e alegra o coração (Is 42.1-10). Todos os filhos de Deus louvem ao Senhor. Eles são as novas criaturas.-v.4-6. Grande é o Senhor. Ele é digno de ser louvado. Quem nos dera pudéssemos todos, todos os povos e criaturas louvá-lo.- v.7-9. Adorai-o na beleza de sua santidade. Que todos ouçam seu evangelho, para o adorar em espírito e verdade.- v.10. Dizei então as nações. A nós cabe proclamá-lo. Ele ama a todos e seja a salvação de todos.v.11-13. Alegrem-se os céus. Todas as criaturas jubilem e aguardem o dia da libertação. Isaías 45.1-7. O rei Ciro, o instrumento nas mãos de Deus para o bem de seu povo de Israel. O trecho se divide em três partes. 1) Deus dirige as nações, v.1-3. 2) Por amor a Israel, v.4-6. 3) O mundo não é dirigido por duas forças: o bem e o mal, mas por Deus que abençoe e amaldiçoa. – Deus escolheu o rei Ciro e lhe deu inteligência, força e vitórias. Ele o escolheu, muito antes de Ciro vir a ser, para que reconhecesse Deus como Senhor. Infelizmente, Ciro não o reconheceu. 2) Toda a ação política, guerras e vitórias tinham um objetivo: a glória e libertação de Israel. Ainda hoje Deu dirige os destinos políticos para o bem de sua igreja. Cabe-nos com toda a confiança orar por nossas autoridades. 3) Deus governa o universo, não duas forças do bem e do mal (do-in). Deus ama a humanidade. Ele a salvou por Cristo e mandou pregar o evangelho. Mas quem o rejeita cai sob sua condenação, seu juízo, seus castigos. (Jo 3.16-21). Cf. Pregação de Lutero contra os turcos. Lutero. Obas selecionadas, vol 6.1

Tessalonicenses 1.1-5. A carta inicia assim: Autor, destinatário, saudação. Tessalônica foi a segunda cidade na Europa evangelizada por Paulo Timóteo e Silas. Paulo pregou durante três semanas. Muitos abraçaram a fé. Houve um levante por parte dos judeus endurecidos. Paulo seguiu viagem. (At 17.1-10)-v.2-3. Paulo ora por suas missões com agradecimento a Deus. Temos aqui o trinômio: Fé – amor – esperança, todas as três palavras enraizadas: “em nosso Senhor Jesus Cristo. A fé atua pelo amor. Não obras escolhidas pelas pessoas, mas as que Deus quer e a esperança no cumprimento final das promessas: Creio na ressurreição da carne e na vida eterna.”

Mateus 22.15-22. A inimizade dos sacerdotes, fariseus, saduceus e escribas contra Jesus crescia. Eles já gostariam tê-lo eliminado, mas temiam o povo, que considerava a Jesus um profeta. Então fizeram um esforço para tentar capturá-lo com algumas perguntas e assim desacreditá-lo diante do povo.Decidiram-se sobre a pergunta a respeito do imposto. Eles armaram o cenário. Mandaram seus discípulos junto com herodianos, para fazerem uma pergunta capciosa a Jesus. O quadro parecia perfeito. Os discípulos perguntariam se é correto pagar imposto aos romanos? Se Jesus respondesse, sim, teria o povo contra si, que odiava a opressão romana. Eles esperavam o Messias para libertá-los do jugo romano. Se respondesse, não, os herodianos, servos do rei Herodes, poderiam acusá-lo de revolucionário e seria preso (Lc 10.20).Após terem elogiado a Jesus, de ser um mestre verdadeiro e destemido, colocaram a pergunta. A tensão era sensível. Mas Jesus, conhecendo os corações, pediu que lhe dessem uma moeda. Ele realmente era pobre, não possuía nem sequer uma moeda. Tomou a moeda e perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam de César. Então lhes disse: Daí, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Pasmados com a resposta, os fariseus se retiraram.Com isso Jesus no ensina a verdadeira separação entre Igreja e estado, o reino de Deus e o reino neste mundo e como devemos cumprir as responsabilidades em ambos. 1. Daí a César o que é de César. A moeda com a efígie e inscrição mostra quem governa no pais. Gozamos de sua proteção e a manutenção da ordem. Portanto, cabe-nos pagar o tributo. Como naquele tempo, assim ainda hoje, ninguém gosta de pagar imposto. Os protestos contra as altas taxas de imposto são constantes. Por outro lado, o governo se queixa de que não tem dinheiro para os muitos compromissos na educação, saúde, segurança e infra-estrutura. E não falta sonegação de um lado e corrupção do outro. Como cristãos cabe-nos cumprimento de nossos deveres. Sem dúvida, sempre houve e haverá muitas injustiças na cobrança dos impostos, além da gananciosa malvadeza dos próprios cobradores de impostos. Aos cidadãos compete valerem-se das leis, para exigirem justiça. 2. A Deus o que é de Deus. A Deus devemos o reconhecimento, a gratidão. o louvor, a obediência, adoração e servi-lo. E lembrar que em matéria de consciência e de fé o governo não deve interferir. E se interferir, importa obedecer mais a Deus do que aos homens. (At 5.29). Horst Reinhold Kuchenbecker (em.)São Leopoldo, RS

terça-feira, 7 de outubro de 2008

21° Domingo após Pentecostes

21° Dom. após Pentecostes (05/10/2008)

Salmo 23. Este é um salmo do rei e profeta Davi. Deus Espírito Santo colocou este salmo no coração de Davi. Então Davi o orou de todo o coração e o anotou. Agora o Espírito Santo quer colocá-lo no seu coração para que você o ore de coração (Zorn). O salmo se divide em três partes. Uma palavra mui consoladora a respeito de Cristo. Uma súplica por consolo dirigida a Cristo. Uma consoladora confissão de fé. Introdução. Não sabemos em que ocasião Davi compôs este salmo. Alguns são de opinião que ele o compôs num momento de sua maior angustia e aperto, na gruta, quando fugia do rei Saul. (1 Sm 24. e 26) 1) Uma palavra consoladora a respeito de Cristo, v.1-3: O Senhor é o meu pastor... Assim Davi canta e ora. Quem é este Senhor? O seu Deus e Salvador que o criou, o remiu e o santificou, que lhe perdoou todos os pecados, o Deus de Israel que lhe deu a vitória sobre Golias, que o ungiu rei pela mão do profeta Samuel, que o guia e protege. Você como filho batizado em nome de Cristo pode orar assim também, sem temor e com toda a confiança. Diga: Nada me falta, pois se tenho a Jesus, o Filho de Deus, meu Salvador, o que me poderá faltar. Como um pastor guia suas ovelhas, que nem sempre compreendem o caminho pelo qual são guiados, quando passam por pedras e desertos, mas elas sabem que o pastor quer o bem delas; assim Jesus nos alimenta com sua palavra, nos guia por pastos verdejantes e à água viva. (Mt 11.28) Ele nos guia pelas veredas da justiça, o evangelho. 2) Uma súplica por consolo dirigida a Jesus, v. 4-5: Ainda que eu ande... O caminho para o céu passa por vales e montes sempre sob a sombra da morte. (At 14.22; Mt 24.10; Mt 6.25; Fp 4.6) Satanás quer nos tragar. Mas não precisamos temer. Jesus está ao nosso lado. Ele venceu pecado, morte e Satanás. No fragor da luta ele nos prepara uma mesa farta, e diz: Deixa os inimigos por minha conta. Nele temos descanso e paz. 3) Uma confissão consoladora, v.6: Bondade e misericórdia me seguirão... Siga seu caminho rumo ao céu e se olhares para trás veras surpreso como bondade e misericórdia te seguira e te seguirão, até habitares na caso do Senhor para todo o sempre.

Isaías 25.1-9. Um texto maravilhoso. Ele proclama a misericórdia e vitória de Cristo. Imagine uma mãe preparando um banquete para seu filho que estava muito tempo ausente do lar. Na hora do banquete há a alegria do doador e do que recebe os benefícios. Tal banquete Deus preparou para seus filhos por meio de Cristo Jesus. O banquete se completou com a ressurreição de Cristo, a páscoa. Agora ele nos convida. 1. Tirou o véu. 2. Destruiu o inimigo, 3) Dá-nos a salvação. – 1. Tirou o véu. Por sua palavra tira a cegueira natural, nos ilumina e leva ao verdadeiro conhecimento de Deus e de sua graça. Gera a fé. 2. Nos anuncia sua vitória sobre pecado, morte e Satanás. “Eu sou a ressurreição e a vida.” 3. Nos oferece a salvação. O tempo se cumpriu. O tempo de espera chegou ao fim. Crê e serás salvo. Há júbilo entre os fiéis.

Filipenses 4.4-13.
Mensagem. Introdução. Alegrai-vos! Quem não gostaria de poder alegrar-se sempre e verdadeiramente de todo o coração. O mundo busca alegrias e não se cansa de inventar novas atrações e sensações. Muitas delas pecaminosas. O resultado final é sempre o mesmo: Um pequeno momento de alegria, seguido de canseira e enfado, e muitas vezes até de remorsos.
Os filhos de Deus, pela fé em Cristo, não têm prazer nas alegrias pecaminosas do mundo. Na verdade, eles também se alegram com as bênçãos terrenas, mas eles têm e buscam uma alegria superior: Cristo! O mundo não entende isso. As pessoas não cristãs acham que ser cristão é uma chatice, é andar triste. Pelo contrário. Nós temos uma alegria profunda que o mundo não conhece. O texto bíblico lido nos convida a refletir sobre esta alegria cristã. Que alegria é essa? Qual a sua fonte? Como ela se externa?
1 – Fundo histórico – O apóstolo Paulo escreveu a carta aos filipenses da prisão em Roma, lá pelo ano 61 AD. A Comunidade de Filipos vivia dias muito difíceis. Ela estava sofrendo árdua perseguição. Muitos fiéis foram açoitados, presos e mortos e muitas famílias destroçadas. Paulo lhes escreve uma carta para edificação e consolo. Nesta carta escreve: Alegrai-vos! Como? Que conselho estranho para momentos de tanto sofrimento. Este conselho parece fora de qualquer propósito. Que alegria poderia ser esta?
2 – A fonte da alegria – O apóstolo Paulo não fala de uma alegria fugaz, nem ignora o problema por uma fuga da realidade. Ele diz: Alegrai-vos! Alegrai-vos no Senhor! A fonte da verdadeira alegria em todas as situações é Cristo.
Alguém dirá: Cristo? Que alegria Cristo pode me dar? Muitos jovens dizem: Cristo é um estraga prazeres. Tudo o que gosto e quero a religião me proíbe. Estão aí meus pais dando-me, constantemente, um sermão sobre o que devo e não devo fazer do ponto de vista da religião cristã.
O mundo só conhece a alegria do mundo. E no centro desta alegria estão os desejos da carne, o pecado. A respeito dessa alegria, Jesus afirmou: Ai de vós que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar. (Lc 6.25)
Os filhos de Deus, a quem Jesus abriu os olhos, aos quais o Espírito Santo encheu de temor de Deus, não têm prazer no pecado, porque não são mais do mundo. Eles ficam tristes ao verem ainda tantas inclinações pecaminosas em seus próprios corações e verem tantos pecados ao derredor de si. A respeito deles Jesus afirma: Bem-aventurados são os que choram, porque serão consolados. (Mt 5.3) Choram em verdadeiro arrependimento. Eles são consolados com a graça de Cristo. Pela Palavra de Deus sabem do amor de Deus revelado em Cristo Jesus, o quanto Deus os amou e ama a humanidade. Em Cristo eles têm completo perdão dos pecados, paz com Deus e a esperança da vida eterna. Bem-aventurado, disse Jesus, é aquele que não achar em mim motivo de tropeço, (Mt 11.6) mas crê na graça de Cristo. Esta verdade do perdão dos pecados, que Cristo nos conquistou, enche seus corações de alegria e de paz. Esta verdade da graça os faz ver o céu aberto. Eles se apegam a Cristo. E podem dizer com o apóstolo Paulo: Já não sou mais eu que vivo, mas Cristo vive em mim. O meu viver é Cristo. (Fp 1.21)
“Alegrai-vos, sempre no Senhor. Esta palavra “sempre” é muito importante. Ela significa: Em todos os momentos, em todos os caminhos, no bem estar e também sob a cruz. Na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, na felicidade e também nos momentos de perseguição. Sim, nada pode roubar aos cristãos esta alegria em Cristo. Paulo está preso, mas as algemas não podem lhe roubar a alegria em Cristo. Os filipenses estão sendo estraçalhados, sofrem, mas nada pode lhes roubar a alegria em Cristo. Cristãos foram lançados diante de leões e queimados vivos e entoavam hinos de louvor. Nada pode roubar-lhes a certeza do amor de Deus, do perdão e a esperança da vida eterna. Na carta aos romanos o apóstolo afirma: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” (Rm 8.37) Cristo concede esta força para suportar todas as adversidades da vida. Por isso podemos cantar ainda hoje com Lutero: “Que tudo se vá, proveito não lhes dá, os céus nos são deixados.”
O apóstolo Paulo afirma: Outra vez vos digo, alegrai-vos. Apesar do pecado em nós e ao nosso derredor, não queremos permitir que isto nos roube a alegria de viver. Estamos diante da face de Deus em verdadeiro e diário arrependimento e confiança na graça de Cristo que nos reergue e nos faz louvar e jubilar.

3 - Vossa moderação – A alegria é algo fundo no coração e se expressa na vida de diversas formas. A alegria do mundo, normalmente, leva a extravagâncias, excessos e libertação dos desejos carnais. A alegria cristã ao contrário, conduz à moderação. Moderação é um uso correto das coisas. É reprimir os desejos da carne. É usar tudo conforme a vontade de Deus. Moderação, especialmente em relação às pessoas que nos cercam. O mundo nos odeia, mas nós procuramos amar os próprios inimigos.
Não será, porém, tal procedimento o fim do cristianismo. Não. Foi exatamente esta moderação, este amor demonstrado aos inimigos, e esta alegria demonstrada nas horas cruciais que levou muitos a refletirem sobre a mensagem cristã e se converteram ao cristianismo. Dizia-se, com razão, no tempo da perseguição romana: Cada gota de sangue de um cristão derramado, gera centenas de outros cristãos.

4 – Não andeis ansiosos de coisa alguma (v.6) – Quantas vezes já ouvimos as expressões: Tenho medo! Não agüento mais. O que será de mim! Que preocupações. Paulo estava preocupado com o futuro de suas congregações e do cristianismo. Muitos cristãos em Filipos que foram presos, temiam a tortura, estavam preocupados com respeito a seus filhos e parentes. Paulo lhes escreve: Não andeis ansiosos de coisa alguma. Isto é fácil de dizer, mas difícil de viver, mesmo para nós que não fomos provados até o sangue. (Hb 12.4) O apóstolo nos estimula a colocarmos nossas preocupações nas mãos de Jesus. Jesus sabe o que nos está acontecendo. Ele sabe até onde poderá deixar os inimigos zombarem ou martirizarem os fiéis. Ele sabe guiar, proteger e fortalecer sua Igreja. Nesta confiança podemos continuar alegres. Perto está o Senhor. Esta palavra tem dois sentidos. Jesus está perto, conhece os sofrimentos e está pronto a amparar e fortalecer. Por outro, Jesus virá em breve para julgar vivos e mortos. Em breve estaremos com ele nos céus, na bem-aventurança.

5 – E a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus – A paz de Deus. É difícil descrever a paz de Deus, num mundo que fala tanto de paz, mas não tem paz. A razão humana não compreende. Médicos muitas vezes se admiram quando estão diante de pacientes cristãos, e dizem: Estes cristãos têm uma paz interna que não entendemos. Mesmo quando não há mais solução médica e a morte se aproxima, eles estão consolados. Esta paz é operada pelo perdão de Cristo. Pelo perdão, eles têm certeza da comunhão com Deus. Na comunhão com Deus, eles têm certeza da vida eterna, do lar celestial. Tudo isso lhes infunde paz na alma. Por isso o apóstolo diz: A paz de Deus guardará os vossos corações. Não é nossa força, é a força da paz de Cristo. Ela dá forças para suportar todas as adversidades e atrocidades e consola na morte. “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez vos digo, alegrai-vos.”

Mateus 22.1-10. Parábola do banquete de casamento. Na terça-feira da Semana Santa, de manhã Jesus foi com seus discípulos novamente para Jerusalém. Ali passou o dia ensinando no templo. Os fariseus, escribas e saduceus o espreitavam em todos os lugares, instigando o povo contra Jesus. Jesus contou-lhes, ainda na parte da manhã, a parábola do banquete de casamento. Os fariseus compreenderam a parábola e procuraram mais intensamente matá-lo. Esta parábola está ainda em andamento. Vejamos seus ensinos. Deus Pai prepara o banquete de casamento do seu Filho, que casa com sua querida noiva, a igreja, para tê-la consigo por toda a eternidade. Ele anunciou o casamento já a Adão e Eva e por muitos profetas. Quando tudo estava pronto, enviou profetas, dizendo: Vinde que está tudo preparado. Mas muitos em Israel, povo especialmente convidado, rejeitaram o convite. Tinham outras coisas por fazer. Alguns até tomaram os servos do rei os maltrataram e mataram. João Batista proclamou: Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. Jesus e seus discípulos disseram a mesma coisa. Israel, no entanto, rejeitou o amor de Deus. Deus os castigou. O juízo veio no ano 70 após Cristo, quando o general romano Ciro arrasou Jerusalém. Mas o rei enviou os seus servos para becos e valados convidar as pessoas para o banquete de casamento. Esta é a ordem que Jesus deu: Ide, fazei discípulos de todas as nações. (Mt 28.19) Esta ordem está em vigor ainda hoje e vigora até o dia do juízo final, quando o último dos eleitos entrar. Então se fechará a porta. Bem-aventurados os que crêem no evangelho. Mas ai daqueles que rejeitam o convite ou, como o mostra a segunda parte da parábola, tentaram entrar no banquete firmados em sua justiça própria, estes serão condenados. Somo profundamente agradecidos por nos ter convidado, chamado, iluminado e congregado. E enquanto durar o tempo da graça queremos proclamar este convite com todo o entusiasmo. Amém.