domingo, 20 de janeiro de 2008

3° Epifania. 1Co 1.10-17. Divisões

3°Epifania.
1 Co 1.10-17. Divisões
Introdução

Existe um provérbio jocoso entre nos luteranos que diz o seguinte: “Onde dois ou três luteranos, pastores ou leigos se reúnem, ali surgirá uma discussão, que muitas vezes resulta em divisões.” Será verdade? Quantas discussões e até divisões já houve em nossa Comunidade? Quantas discussões em nossas assembléias de membros votantes a ponto de pessoas afirmarem: Não vou mais à Assembléia; vou sair desta Comunidade! Alguns debates, na verdade, são necessários e úteis; outros se desviam do espírito cristão e tornam se confrontos. Deus não quer divisões nas Comunidades. Que Deus em sua graça nos conceda compreensão para o texto, para que Cristo possa orientar nossa vida em todos os sentidos e especialmente nosso atuar na Comunidade, pois o texto nos convida a refletir sobre tema: Divisões na Comunidade e sua cura.

Histórico.
No domingo passado começamos a refletir sobre a primeira carta do apóstolo Paulo aos Coríntios. Vimos como o apóstolo Paulo se apresenta como apóstolo e considera a Comunidade em Corinto, Igreja de Deus. Falamos Também sobre os tesouros que esta Comunidade possuia: a palavra de Deus e os sacramentos, pelos quais Deus oferece perdão, paz e a vida eterna.
Hoje queremos continuar nesta reflexão. Impressionante! Uma Comunidade cristã que tem tão preciosos tesouros e a presença do Espírito Santo que atua por palavra e sacramento deveria ser um lugar de muita paz, alegria e júbilo. Mas o que vemos? A Comunidade é um campo de lutas. Lutas intermináveis. Por que isso é assim? As razões são várias. A primeira é nossa natureza carnal, da qual brota ciúmes, invejas, orgulho. Assim os membros, mesmo sendo pela fé filhos de Deus, ainda lutam com muitas fraquezas. Por outro, estamos no mundo que nos tenta por seu mau exemplo. Em terceiro lugar, porque o diabo procura por todos os meios perturbar e destruir a Comunidade Cristã. Por isso há constante luta à qual todos precisamos estar atentos, ouvir a palavra de Cristo tanto para advertência e arrependimento, para perdão e consolo e para orientação no caminho a seguir.

I – Um problema, as divisões.
O apóstolo Paulo, estava em Éfeso e recebeu ali, pela família de Cloe, a informação a respeito dos problemas na Comunidade em Corinto. Um dos problemas era o surgimento de divisões e partidos na Comunidade. Essas divisões envolviam também o apóstolo Paulo, pois uns dizem: Eu sou de Paulo, eu de Apolo, eu de Pedro e outros: eu sou de Jesus.
Qual a origem dessas divisões? Será que os pastores mencionados: Paulo, Apolo, Pedro, Jesus deram ocasião para tais divisões? Muitas vezes esse pode ser o caso, mas aqui, sem dúvida não o era. Esses pastores tinham dons diferentes, mas eram todos muito fiéis. Paulo era muito estudado, Apolo, um grande orador, Pedro era homem simples, mas muito fervoroso. O fato de mencionarem a Jesus ao lado dos apóstolo, denota o problema.
Muitos pastores, de fato correm o risco de se deixarem dirigir por seu egoísmo, por sua vaidade. Estão preocupados em granjearem a simpatia dos membros, e tentam impressionar, cada qual com seus dons. Então pode acontecer que a forma venha prejudicar o conteúdo, ou como o apóstolo Paulo o coloca: “Sou enviado a pregar o evangelho, não com sabedoria de palavras, para que se não anule a cruz de Cristo” (v.17). Ele era servo e nada deve ofuscar a Cristo.
Na Comunidade de Corinto aconteceu que os membros se apegaram demasiadamente a seus pastores. Isto se constituiu em problema. É verdade que os membros devem respeitar e honrar seus pastores, mas por amor a Cristo. Quando, no entanto, surge um apego demasiadamente sentimental, podem surgir problemas. Por exemplo, elogia-se o pregador, em vez de Cristo e sua palavra. Quando começamos a comparar pregadores: Este tem dons melhores do que aquele. Eu gosto mais deste do que daquele. Valorizamos o servo, o instrumento mais do que o Senhor Jesus e seu evangelho.
Outro problema, quando, como membros, encaramos nosso trabalho na Comunidade com um forte egoísmo: Eu faço. Eu quero. Mesmo quando defendemos a verdade doutrinária com um ímpeto egoísta, sem o devido amor ao próximo. Brigamos. Queremos simplesmente vencer, não importa se estamos certos ou errados. Enquanto que, num debate sadio analisamos pontos de vistas e idéias, para estabelecer a verdade e procurar o melhor caminho na administração para o bem comum.
Quando a cisão se estabelece, restabelecer a unidade não é fácil, mas precisa ser empreendida com urgência, fidelidade à palavra e muita oração. Porque só o Espírito Santo pode iluminar os corações e estabelecer a concórdia.

II – Procurando sanar o problema.
Paulo sabe que o problema precisa ser sanado o quanto antes. Ele detectou o problema. Os membros tinham uma visão distorcida do trabalho da Comunidade. O centro estava fora de foco. Eles deram mais valor às coisas secundárias do que às coisas principais. Deram mais importância às pessoas do que a Cristo, mais importância à forma do que ao conteúdo, isto é, às ciências humanas, como a retórica, nós diríamos a forma da comunicação e marketing do que ao conteúdo que é a clareza doutrinária, á correta aplicação de lei e evangelho, à centralização da pregação no evangelho de Cristo, a Cristo.
Por isso Paulo começa a chamar a atenção ao que é central e faz uma comparação: “Acaso está Cristo dividido? Foi Paulo crucificado em favor de voz, ou fostes batizados em nome de Paulo?” (v.13).
Desta forma chama a Comunidade a Cristo, tanto pregadores como membros devem ter seus olhos fixos em Cristo e lutar pela difusão da palavra de Deus, cada qual com os dons e as forças que recebeu de Deus. Um tem um dom; outro, outros dons; um é mais forte, outro mais fraco, mas o que interessa é Cristo e que sua palavra seja retamente pregada e os sacramentos administrados conforme instituídos por Cristo. Cristo é o centro, não a sabedoria humana. Cristo deve ser pregado. Em sua palavra está o poder de converter e regenerar alguém, não no poder da arte e ciências humanas. Esses devem estar a serviço da palavra de Cristo e não acima de Cristo. Porque fomos enviados a pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo! (v.17). Sim, “pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus! (v.23).

Conclusão – Que Deus em sua graça nos guie por seu Espírito, para que nos empenhemos com todo o vigor pela causa de Cristo, mas com o espírito de Cristo, com amor, para salvação de muitos, “esforçando-nos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vincula da paz..” Amém.
São Leopoldo, 19/01/2008
Horst R. Kuchenbecker

João 1.29-41, 2° Dom. após Epifania.Presença de Deus

Introdução
Qual é o lema geral de nossa Igreja até o ano 2010? Abençoados pela presença de Deus. Que presença de Deus é essa? Como ele está presente? A presença de Deus não nos enche de medo e pavor?
Quando falamos de Deus, que imagem nós fazemos dele? Doutrinariamente lembramos que Deus é Espírito eterno, é Deus triúno: Pai, Filho e Espírito Santo. Mas que impressão nós temos de Deus quanto ao seu ser, e a sua maneira de agir?
Confessamos que Deus é santo e justo e ao mesmo tempo gracioso e misericordioso. Como vamos entender e combinar essas verdades: santo e gracioso? Pois a palavra santo nos assusta e apavora. Ela nos mostra um Deus severo, um Deus juiz, que nos enche a alma de pavor. Alguns procuram minimizar a lei de Deus. Em vão. Não é pelo minimizar a lei que encontraremos consolo. Precisamos ouvir o evangelho, que nos anuncia o amor de Deus revelado em Cristo. Que nos anuncia a misericórdia de Jesus Cristo, nosso Salvador. Para este Salvador, João Batista apontou ao dizer: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Estas palavras revelam um Deus que castiga, que pune, que fere e ao mesmo tempo um Deus que carrega o nosso castigo, que redime, que salva. Vamos contemplar esse nosso Deus santo e gracioso, que se revelou em Cristo.

1. Deus que castiga.
Mesmo que não gostamos dessa verdade, o nosso Deus é um Deus santo e justo. Ele disse: Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá. (Ezequiel 18.4) E o que essa morte é, Deus o explicou logo após a queda do homem em pecado, ao dizer: Maldito é a terra por tua causa... No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás. (Gênesis 3.19) O Salmo 90 resume essa verdade sob as palavras: Somos consumidos pela tua ira. E o que é a morte, Deus o afirma, dizendo: E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo. (Hebreus 9.27) Por isso o próprio escritor aos hebreus afirma: Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo. (Hebreus 10.31) O que é essa “coisa horrível” é exposto em todas as páginas da Bíblia. Vamos lembrar alguns exemplos: Por causa do pecado e da impenitência, Deus destruiu toda a humanidade na época, pelo dilúvio. (Gênesis 6 – 9) Por causa de seus pecados e impenitência, Deus destruiu as cidades Sodoma e Gomorra. (Gênesis 19.23-29) Lemos na carta de Judas: Como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo vícios sexuais antinaturais, são postos para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição. (Judas 7) Mesmo pequenos erros como a não observância da lei de Deus, foram fulminantemente castigados por Deus. Por exemplo: Ao conduzirem a arca, os levitas se descuidaram. A arca iria cair. Um leigo vendo isso, correu, na melhor das intenções, e segurou a arca para que não caísse, mas Deus o matou na hora, porque Deus havia ordenado: Só os levitas deveriam por as mãos nos objetos sagrados (2 Samuel 6.7) Numa hora de culto, os sacerdotes Nadabe e Abiú, filhos do sumo sacerdote, acenderam erradamente seus incenso e trouxeram fogo estranho diante do altar de Deus, e Deus os matou ali na hora. Lemos: Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR. (Levíticos 10.2) A Bíblia mostra que todo o sofrimento terreno é só uma pequena amostra dos sofrimentos eterno, no inferno. O Salmista afirma: Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus. (Salmo 9.17) Por isso Jesus pergunta aos perversos fariseus: Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? (Mateus 23.33)
Este é o nosso Deus. Ele é fogo consumidor (Hebreus 12.29) Ele pune com a eterna condenação no inferno, o menor pecado. Quem poderá subsistir diante de sua justiça? Assim perguntam os profetas e homens santos. De onde nos virá o socorro? (Salmo 121.1) Feliz quem puder responder: O nosso socorro vem do Senhor que fez os céus e a terra. (Salmo 124.1) Por isso a mensagem de João Batista foi tão consoladora: Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O Deus que castiga é também o Deus que carregou os nossos pecados e nos salva.

2. O Deus que carrega.
No dia seguinte ao seu batismo, Jesus passou perto de João Batista. Vendo-o o João Batista, apontou para Jesus e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo. Com esta palavra: Eis! João Batista chama atenção de seus ouvintes, de seus discípulos de todos nós sobre Jesus. É hora de deixar tudo de lado e voltar nossos olhos e corações a Jesus, o Cordeiro de Deus. Prestem atenção a ele. Ouçam o que ele tem a dizer, sigam a ele. Só ele pode nos salvar.
Muitos devem ter olhado para ele, como nós, com certo espanto: Este? Esse homem pobre e simples que como um de nós. Este é nosso Salvador, o Messias prometido? Não pode ser! De fato, a humildade de Jesus e sua forma de nos salvar são loucura e escândalo para a razão humana. (1 Co 1.23)
O Messias tão esperado estava entre eles. Ele não veio como muitos se imaginavam com grande majestade e glória. Ele não veio como o leão de Judá, mesmo que o era, mas como cordeiro. Ele não como rei, mesmo que o era, mas como servo. (Mt 20.28)
A figura de cordeiro era bem conhecida ao povo de Israel. Diariamente cordeiros eram sacrificados no templo. Um animal manso, indefeso, que era degolado inocentemente em favor dos pecados do povo. Uma cena até chocante. Mas todos sabiam que o sacrifício diário desse cordeiro, simbolizava a morte do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, que estava por vir. Este Cordeiro tomaria sobre si os pecados de toda a humanidade e Deus lançaria sobre ele toda a ira que a humanidade mereceu por causa de seus pecados e Jesus suportaria tudo. O Cordeiro Divino seria sacrificado na cruz, onde derramaria o seu santo sangue que nos purifica de todos os pecados. Pois sem derramamento de sangue, não há salvação. (Hb 9.22) Ele foi nosso substituto e reconciliou a humanidade com Deus. O profeta diz: O castigo que nos traz a paz estava sobre ele. E ele foi moído por causa de nossas transgressões. (Is 53)
Que tira os pecados do mundo. Ele carregou nossos pecados. Ele suportou a ira de Deus, não só alguns, mas todos, num só instante para sempre. O que significa isto? O que significa tirar o pecado? Em que sentido? Só o pecado ou a culpa também? Pecado e culpa são inseparáveis. Pecado não existe sem culpa. A culpa não é tirada se o pecado não for retirado. Se o pecado é retirado a culpa também é retirada. O tirar o pecado do mundo inclui a inteira obra da salvação de Cristo. Ele tirou o pecado do mundo. Conquistou perdão para todos. Ninguém pode dizer, enquanto viver, para mim não há perdão. Ou o meu pecado é tão grande que não pode ser perdoado. Não, Cristo conquistou perdão para todos.
Que imenso consolo isto é para todos nós. Especialmente quando nossa consciência nos acusa de pecado. Nos momentos de tentações e de aflições.
É por essa razão que cantamos esta frase tão consoladora tantas vezes no culto: Agnus Dei: Ó Cordeiro inocente, etc.
Este perdão ele nos oferece em sua palavra e sacramentos, para que todo o que crê, não pereça, mas tenha a vida eterna. (Jo 3.16)

Conclusão
Que imagem temos do nosso Deus? Ele é um Deus santo e justo, que pune impiedosamente todo e qualquer pecado com a condenação do inferno. Isto nos apavora. Mas, ao mesmo tempo é um Deus de amor, que nos amou e ama em Cristo, o qual carregou todos os nossos pecados e o encravou na cruz, trazendo-nos perdão, vida e salvação. Ele vem a nós por através da Palavra e dos sacramentos para fazer habitação em nós. Para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna. Que consolo! Que tesouro! Não permitam que alguém nos roube essa verdade. Sua presença em Cristo nos é consolo, traz paz à alma e esperança da vida eterna. E enquanto peregrinamos neste mundo, ele prometeu estar ao nosso lado para nos amparar e consolar, estar ao nosso lado nas tribulações. Por este amor queremos louvá-lo aqui e eternamente. Amém.
São Leopoldo, 13/01/2008 Horst R. Kuchenbecker