terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Exortação e esperança

Oséias 5.15-6.6. Advertência e exortação à fidelidade
4° Domingo na Quaresma

Introdução
Nosso texto nos leva para a terra de Israel, às dez tribos de Israel, ao ano 730 antes de Cristo.
Deus formou o povo de Israel para ser o seu povo. Falou a este povo e habitou no meio deles. O povo experimentou a contínua presença e bênção de Deus. Mesmo assim, parece incrível, este povo voltou-se para ídolos e se precipitou em todos os tipos de pecados. Rejeitaram a Deus e o provocaram à ira. Abandonaram a fonte da água viva e cavaram pata si cisternas rotas que não retém água. (Jr 17.13) Que tristeza!
Somos diferentes? Que caminhos o cristianismo de nossos dias está seguindo?

1. Ameaça e juízo
Por amor ao seu povo, Deus lhe enviou diversos profetas, para advertir e chamar ao arrependimento, para que voltassem a Deus. Um dos últimos profetas, antes de serem castigados por Deus e levados ao cativeiro, foi Oséias. Oséias foi um profeta muito severo na advertência. Mas em vão. O povo continuou no orgulho, na ganância, nos fraudes, oprimindo os pobres e em todos os pecados da luxúria, aberrações sexuais e prostituição. Então Deus lhes anuncia o juízo.
Ele diz: Porque para Efraim serei como um leão, e como um leãozinho para a casa de Judá; eu, eu mesmo os despedaçarei, e ir-me-em embora: arrebatá-los-ei, e não haverá quem livre. (v.14) Palavras terríveis. O que o próprio profeta, que amava seu povo, deve ter sentido e sofrido ao ouvir este juízo de Deus sobre a casa de Israel. O tempo da graça estava chegando ao fim. Era hora do juízo.
Parece inacreditável que tal ameaça pudesse provir do Deus de amor. Deus viria como um leão avançar e despedaçar sua presa.
Ainda havia certa paz, prosperidade que iludia o povo. Eles ridicularizaram o profeta, dizendo: Somos povo de Deus. Deus é amor. Nada nos acontecerá.
Oséias dobra seus esforços para chamar Israel ao arrependimento. Ele elaborou uma liturgia especial para o retorno. Uma verdadeira peça de arte, seguida em sua estrutura até hoje. Vejam.
- O convite: Vinde? Retornemos ao Senhor. Ele se inclui nessa confissão. Quem poderia não se incluir.
- Confissão. Vamos confessar nossos pecados a Deus e lhe suplicar o perdão. Ele nos despedaçou e nos sarará. Ele tenta acordar o povo, pois o castigo já pairava como uma tormenta no horizonte e se fazia sentir. É hora de reconhecer os erros, confessar os pecados a Deus e lhe suplicar perdão. Suplicar, confiando em sua misericórdia e corrigir a vida.
Mas povo não lhe deu ouvidos e continuaram multiplicando pecados. Então veio o juízo de Deus. A paciência de Deus teve um fim. O anunciado juízo veio sobre eles. Uma guerra terrível com muitas mortes e grandes sofrimentos. E os sobreviventes foram levados ao cativeiro Assírio, do qual nunca mais voltaram.

2. Hoje
Hoje qual é a nossa situação. Em seu profundo amor à humanidade, Deus ordenou a seus discípulos pregar o evangelho a todas as nações. Muitas nações reconheceram o amor de Deus revelado em Cristo e creram. Desfrutaram paz e bênção de Deus. Mas, com o passar do tempo, enjoaram do evangelho e voltaram aos pecados antigos.
Se olharmos para a história do cristianismo vemos um quadro assustador. Todo o norte da África era cristã, a Turquia, a Rússia, Europa, a América. E hoje o que vemos. Lutero já dizia no seu tempo: “O Evangelho é como uma chuva de verão. Ele passa rápido. Quem não o aproveita o perde.” Assim é o Evangelho. Quando rejeitado e desprezado, Deus o tira. Hoje vemos o islamismo dominar o norte da África, florescer na Europa e na Inglaterra. Nos Estados Unidos as diversas seitas, aqui no Brasil seitas e o espiritismo.
E que quadro triste de nossa própria igreja. Deus nos confiou sua Palavra e sacramentos e a confissão clara da Palavra. Nossos livros: O Catecismo, as Confissões no Livro de Concórdia, o Sumário da Doutrina Cristã e outros livros. Mas qual é o quadro? Freqüência aos cultos em menos de 30%. Que tristeza. Quanto às finanças, mal conseguimos, com nossas ofertas cobrir 30% do essencial mínimo. Nosso Seminário, que é da responsabilidade da Igreja, vive a mercê da ULBRA, - mesmo devendo muita gratidão à ULBRA – isto é uma vergonha para a IELB. Nossa missão, tirando os trabalhos da ULBRA, está estagnada. Não há dinheiro para aparelhar nossos missionários com o necessário.
Em nosso país crescem as falcatruas, as paixões carnais, passeatas de gays, práticas de aborto, etc. Um país maduro para o juízo de Deus.

3. A promessa
Mas voltemos ao profeta Oséias. Os versículos 2 e 3 merecem nossa atenção. O profeta aponta para o futuro. Daqui há 750 anos Deus visitará o seu povo. Deus voltará a ter compaixão do seu povo, dos remanescentes de Judá e da humanidade, e cumprirá sua promessa, enviando seu unigênito Filho Jesus Cristo, que salvará a humanidade. Para que todo o que se arrepender e confiar em Cristo, receba perdão dos pecados, vida e eterna salvação.
Que mais Deus poderia fazer.
Nós temos o privilégio de ver o cumprimento desta maravilhosa profecia. Neste tempo quaresmal nós contemplamos a paixão e morte de Cristo. Queira Deus por sua graça conceder aos pregadores rica medida do seu Espírito para as mensagens e abrir muitos corações nestes tempos finais, em que o diabo está solto novamente para por muitos falsos profetas obscurecer o evangelho, pois então ele conseguirá enganar a muitos.
Aproveitemos este tempo quaresmal, pois os dias que estão pela frente serão dias difíceis, o diabo tentará enganar os próprios eleitos. Impl e orar, para sermos fortalecidos na fé para podermos ser fiéis e herdar a vida eterna. Amém.

São Leopoldo, 22/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

Obs.: Você poderá encontra esse ou outros sermões meus no meu Blog: kuchenbecker.blogspot.com

A santificação

Romanos 8.1-10. A santificação
4º Domingo na Quaresma

Introdução
A carta aos Romanos é central no Novo Testamento. Nos capítulos 3 a 5, o apóstolo desenvolveu o tema da justificação do pecador pela graça de Cristo. Agora, nos capítulos 6 a 8, desenvolve o tema da santificação. No capítulo 8, o apóstolo Paulo retoma o pensamento do capítulo 6: Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado... de modo nenhum. (6.1,2) A partir dessa afirmação, surgem perguntas, tais como: Eu não quero mais pecar. Infelizmente, peco ainda muito e diariamente. Isto me entristece. Será que sou cristão? Será que minha fé é verdadeira?
Você conhece tais pensamentos? O que fazer nesses momentos? Nesses momentos não devemos olhar para dentro de nós, para a voz de nossa consciência, mas para fora de nós, para Cristo e ouvir sua voz, no Evangelho. A essas pessoas que sentem suas fraquezas e quedas, que estão aflitas, o apóstolo escreve o capítulo 8. Vejamos.

v. 1 - Agora, pois, nenhum condenação há para os que estão em Cristo. O apóstolo fala aos regenerados e diz: Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo. Eles sabem que o pecado é algo terrível, que trás a condenado de Deus. Maldito todo o que não permanece em todas as coisas da lei de Deus. (Gl 3.10) Por isso eles estão tristes, vendo que, como filhos amados de Deus, ainda pecam tanto. Mas o Paulo os consola e diz: Não há nenhum condenação. Como? Sinto a acusação de minha consciência, que me condena. Exclamo com o apóstolo Paulo: Miserável homem eu sou, quem me livrará do corpo desta morte. Pois eu sei que em mim isto é, na minha carne não habita bem nenhum. (Rm 7.24) Mas o mesmo apóstolo nos consola dizendo: Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
Os que estão em Cristo Jesus! Mas essa é minha angústia. Por sentir o pecado e cair tantas vezes, minha consciência me diz: Você não está em Cristo, você o rejeitou, você expulsou o Espírito Santo do seu coração.
O que significa, então, estar em Cristo? Quando o Espírito Santo, pelo batismo nos regenerou e criou a fé em nosso coração, ele nos enxertou em Cristo. Como filhos de Deus pela fé em Cristo, amamos a Deus e queremos servi-lo em amor, mas temos esta fé, este novo homem em nosso corpo pecaminoso, que tem prazer no pecado e luta contra a fé, que não muda. Por isso a luta contra o pecado em nós é árdua. Daí as tentações, fraquezas, quedas e pecados. Mas Deus nos olha conforme o nosso novo homem, abraçado a Cristo e diz: Agora, pois, nenhuma condenação há os que estão em Cristo.
v. 2 - Porque a lei do Espírito da vida em Cristo te livrou da lei do pecado e da morte. A lei do Espírito da vida é o próprio Espírito Santo. O que fez o Espírito Santo? Ele me livrou da lei do pecado e da morte. Esta lei do pecado é o próprio pecado. Como ele me livrou? Cristo Jesus me livrou do pecado e da morte. O Espírito Santo me fez participante da vida de Cristo. De tal forma que agora estou em Cristo Jesus e vivo pela fé. Este é o trabalho do Espírito, por Palavra e Sacramentos ele nos aplica os benefícios de Cristo perdão, vida e eterna salvação.
O que fora impossível à lei. Ela não conseguia nos libertá-la do pecado. Por isso Deus enviou o seu unigênito Filho em semelhança de carne, e condenou na carne o pecado, uma vez para sempre. A lei foi cumprida e não tem mais direito sobre nós.
v. 5 – Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas o que se que inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. O resultado desta salvação é que agora não andamos mais segundo a carne, mas segundo o Espírito, isto é, impelidos e governados pelo Espírito detestamos as coisas da carne e lutamos contra elas, mesmo que ainda em muita fraqueza e quedas; não queremos mais pecar, temos prazer nas coisas de Deus, nos entristecemos quando vemos fraquezas e sofremos quedas. O Espírito nos conduz ao arrependimento diário, nos consola com o perdão e nos reergue com o bom e novo propósito de servirmos a Deus. Assim lutamos, afogando por arrependimento diário nossa natureza carnal e fazendo ressurgir o novo homem, que vide pela fé, diante de Deus em pureza e santidade, vestido com o manto branco da justiça de Cristo. Amém.
São Leopoldo, 22/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

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O pedido de uma mae

Mateus 20.17-28. 4° Domingo na Quaresma

Introdução
Estamos em meados do mês de março. Quem tem filhos na escola, está exausto. Quantas correrias: matrículas, material escolar, etc. Tudo porque queremos o melhor para nossos filhos. Queremos que estejam bem preparados para a vida, pois a vida é uma luta. Vence somente que estiver bem preparado, capaz e audacioso.
Pois bem, nosso evangelho mostra uma mãe que foi pedir um favor a Jesus. Jesus a atende e lhe diz: Que queres? E ela respondeu: Mande que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direta, e o outro à tua esquerda. Um pedido muito natural de uma mãe. Vejamos a história. Ela tem muitas surpresas.

1. O pedido
Vejamos em primeiro lugar o pedido. A mãe, era Salomé, irmã da virgem Maria. Ela estava acompanhando Jesus em sua última jornada para Jerusalém. Ela percebeu que Pedro, João e Tiago, pertenciam ao círculo mais íntimo dos discípulos de Jesus. Daí o pedido: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos (João e Tiago) se assentem, um à tua direita, e o outro à tua esquerda. (Mateus 20.21 RA)
Interessante, Jesus, que normalmente tinha palavras duras para com pessoas vaidosas, como os fariseus, aqui usa de brandura. Este pedido vinha da fé, mesmo que ela inda não compreendia a natureza do reino de Deus. Por isso Jesus ouve a mulher com paciência e lhe diz: Você não sabe o que está pedindo. (v.22) Mas Jesus não condena o pedido, antes corrige o pedido da mulher.
Que bom se todas as mães, sim pais, estivessem tão preocupados com seus filhos, para que estivessem sempre ao lado de Jesus aqui e na eternidade. Esta deveria ser realmente a preocupação central dos pais na educação. Pois, o temor do Senhor é o princípio de toda a sabedoria. (Pv 1.7)

2. Ciúme
O evangelista mostra também a continuidade dessa história. Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos. (Mateus 20.24 RA) Vejam quanta inveja, ciúme e incompreensão ainda entre os discípulos, que já estavam três anos com Jesus. Assim existem ainda hoje, muitas fraquezas entre os cristãos, nas comunidades.
Jesus reuniu seus discípulos em torno de si, com muita paciência e amor, passou a ensiná-los a respeito do reino de Deus.
Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. (Mateus 20.25 RA) Em primeiro lugar mostrou-lhes como as pessoas procedem neste mundo e nos reinos deste mundo. Ali vale a lei do cão. O mais forte engole os mais fracos. Ou a pessoa é martelo ou bigorna, isto é bate ou sofre as batias.
Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva. (Mateus 20.26 RA) Esta advertência é importante.
Entre vós. Ele está falando de seus discípulos. Aqueles que conhecem, crêem e segue a Cristo. Entre eles, isto é, em seus corações, e entre eles, na família, na comunidade e em relação aos de fora, não será assim. Não será esta lei do cão, este egoísmo, esta vaidade, esta cobiça que deve governar seus corações e dirigir suas vidas e seu relacionamento.
Por que não? Porque eles conhecem o Salvador, que não veio para ser servido, mas para servir Ele tinha todo o direito de ser servido, como Deus. Mas ele se humilhou profundamente e serviu até a morte e morte de cruz. Deu sua vida em resgate por muitos, isto é, todos. Quem nele crer, recebe perdão, volta à comunhão com Deus. Recebe uma nova vida, novo espírito, o espírito de Cristo, uma nova compreensão do propósito de vida e força na luta contra sua própria carne, as tentações do mundo e o diabo não tem mais o direito de acusá-lo diante de Deus.
Uma nova vida não mais impulsionada pelo egoísmo, pelo eu, pela cobiça, mas pelo espírito de Cristo. Sei que estou no mundo para servir em humildade e amor. Este espírito deve nos dominar
como indivíduos. Precisamos orar e pedir que o Espírito de Cristo nos governe e eu possa afogar em mim todo o egoísmo e ter um coração aberto e atento para servir ao próximo em todos os lugares e momento, sim, até amar nossos inimigos.
na família. Quão necessário este espírito de servir, de um procurar o bem estar do outro, se faz necessário na família entre o casal, marido e mulher. Um procurando servir em amor ao outro e não ser, em primeiro lugar servido. Para que os filhos aprendam dos pais também este espírito para que este espírito possa reinar entre irmãos e irmãs.
na comunidade. Não só no relacionamento dos irmãos na Comunidade, onde, assim como entre os discípulos, reinam ainda muitas fraquezas, mas guiados pelas palavra de Deus queremos servir uns aos outros em amor. E dando nos as mãos, em conjunto, servir na missão, como os macedônios dos quais lemos: Deram-se primeiro ao Senhor. (2 Co 8.5)
Entre vós não será assim. Novo mandamento vos dou, (Jo 13;34) que não é outro do que o primeiro, o cumprimento da lei: Que vos ameis uns aos outros. Que Deus nos conceda forças para tanto. Amém
São Leopoldo, 21/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

A cura de um cego de nascença

João 9.1-41 – A cura de um cego de nascença
3° Domingo na Quaresma, 24/02/2008

As leituras deste 3° Domingo na Quaresma nos são uma advertência e consolo. Advertência para, em nossa sabedoria não rejeitarmos a palavra de Jesus, que é luz para iluminar a todos.
O Salmo nos ensina a orar, especialmente em tempos difíceis, que nunca faltam na vida cristã. As outras leituras falam da cegueira física, mental e sobre tudo a cegueira espiritual. O evangelho nos apresenta Jesus como a luz do mundo. Queremos ater-nos, especialmente, ao evangelho.
O evangelho nos fala de um cego de nascença. Que coisa triste a cegeira. (Em Porto Alegre, RS, Brasil, por exemplo, há aproximadamente 100 mil cegos, pessoas que tem seus olhos danificados). Existem, no entanto, diversos tipos de cegueira. A cegueira física como a deste mendigo do evangelho. A cegueira mental, quando uma pessoa que tem olhos perfeitos faz um erro e depois se lamenta dizendo: Como pude ser tão cego. Conhecemos também as expressões: Cego de amor! Cego de raiva! Cegado pela cobiça ao dinheiro. Mas a pior de todas as cegueiras é sem dúvida a cegueira espiritual, bem como o endurecimento contra Deus. A respeito desta cegueira o apóstolo Paulo afirma: O homem natural (como somos por nascimento) não aceita as coisas do Espírito de Deus. (1 Co 2.14)

História
O evangelho nos relata que Jesus veio para Jerusalém para a festa dos Tabernáculos, que os judeus celebram no mês de outubro. Esta festa era celebrada durante uma semana. Quando Jesus saiu do templo passou um cego de nascença, que estava mendigando à beira do caminho. Um quadro triste.
Os discípulos, vendo este cego, perguntaram a Jesus: Quem pecou, este ou seus pais. (v.2) Era muito comum na época, como ainda hoje, qualificar doenças graves, catástrofes como um castigo especial de Deus. Hoje ouvimos exclamações como: Meu Deus, o que eu fiz para merecer isto? Algumas religiões afirmam: Aqui se faz, aqui se paga. Ou como os espíritas afirmam: O sofrimento é um pagamento por pecados cometidos na vida anterior.
1. A graça de Deus.
Jesus respondeu: Nem ele pecou, nem seus pais – isto é, no sentido como os discípulos pensavam ser isto um castigo especial sobre pecados graves. – Pois todos somos pecadores e nascemos em pecado. Não cabe, porém, a nós especular porque Deus permite que um nasça em berço esplendido e outro pobre; porque um sofre muito e outro pouco. Neste caso do cego de nascença Jesus afirma: Foi para que se manifestem nele as obras de Deus (v.3) Aqui está a primeira lição: Deus é um mero expectador que espera que as pessoas se voltem a ele. O cego deveria experimentar o amor de Deus, a luz que ilumina toda a pessoa.
Estas obras de Deus continua a manifestar. O Espírito Santo por Palavra e sacramento continua a chamar, iluminar, santificar, congregar e conservar na fé.
No caso do cego, Jesus o procurou, assim como tem procurado e continua a procurar a cada um de nós.
Jesus, então, cuspiu no chão. Fez lodo. Aproximou-se do cego e passou este lodo nos seus olhos. Isso é bem estranho. Jesus usou um meio te repugnante. Lodo feito de cuspe e de pó da estrada. Mas não nos cabe prescrever a Deus os meios que ele deve usar para dar-nos sua graça e bênção, sua cura. O cego deveria sentir de quem vem a força para a cura. Então lhe ordenou: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que quer dizer Enviado), (v.7) que ficava ao sul de Jerusalém. O tanque de Siloé estava em evidência neta festa dos Tabernáculos. Pois de manhã e à tarde, durante a festa, era derramado no templo em forma de sacrifício um litro dessa água. O cego creu e obedeceu. Tendo-se lavado os seus olhos se abriram e ele estava curado. Júbilos ele foi para sua casa.
Este milagre Jesus realiza ainda hoje pelo batismo, para nos libertar de nossa cegueira natural da alma. Nosso Catecismo, resumindo o ensina da Escritura afirma: O batismo não é apenas água simples, mas é a água compreendida no mandamento (isto é, ordem divina). Água de vida, cheia de graça, e um lavar de renascimento no Espírito Santo, como diz Paulo na carta a Tito: (Deus) nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, a fim de que justificados por sua graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna. (Tt 3.4-7)
Muitos estranham que Deus mandou usar água no batismo, e que pelo derramar da água em nome do Deus triúno, Deus efetua um milagre tão grande, fazendo-nos morrer e ressuscitar com Cristo. Pois somos colocados na morte de Cristo e ressuscitamos com ele. O apóstolo Paulo afirma: Fomos sepultados com Cristo na morte, pelo batismo. Para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. (Rm 6.4)

2) Uma vida difícil sob a graça.
Seus parentes ficaram maravilhados e agitados. Alguns creram, outros duvidaram. Levaram-no ao templo, aos fariseus, como era costume na época. Qualquer coisa extraordinária ou cura teria que ser confirmada e abençoada pela igreja. Levaram o cego curado aos fariseus, que há pouco queriam apedrejar a Jesus. (8.59) No templo houve alvoroço, interrogatórios, chamaram seus pais, e terminaram expulsando-o do templo. Assim o caso tornou-se conhecido em toda a Jerusalém, para a glória de Jesus.
Vede em que resultou o encontro desse cego com Jesus. Ele foi curado de sua cegueira corporal e espiritual, encontrou seu Salvador. Mas isto lhe trouxe muita incomodo. Primeiro seus pais e vizinhos estranharam. Depois a discussão com os fariseus, pois com desprezo eles lhe disseram: Tu queres enxergar (saber) mais do que nós, e finalmente o ser expulso do templo. O que na época significava ser condenado ao inferno. Mas Jesus não o abandonou. Ele o procurou, amparou, consolou e o fortaleceu na fé.

3) Jesus ampara os seus.
O cego ainda tinha pouco conhecimento de Jesus. Ele sabia: o homem que me curou é profeta de Deus, pois me abriu os olhos. Mas precisamos crescer no conhecimento da pessoa e obra de Jesus. Como crianças batizadas precisam ser instruídas e adultos firmados no conhecimento de Cristo.
1.Quanta cegueira, no entanto, da parte dos fariseus, que já haviam ouvido muito a respeito de Jesus, seus ensinos e seus milagres. Por isso o cego lhes diz: Admiro-me que vós não sabeis donde ele é. (v.30) Infelizmente ainda hoje muitos pregadores, até com a Bíblia na mão, sabem pouco sobre a pessoa e verdadeira obra de Jesus, a verdadeira fé e graça.
2.Por outro lado, mesmo tendo recebido de Jesus um grande presente tanto a cura de seus olhos, como a cura de sua cegueira natural, pois conheceu a Jesus, mas faltava-lhe um conhecimento maior a respeito de Jesus. Cheio de gratidão, diante das muitas interrogações, repetiu diversas vezes: Ele me abriu os olhos. Assim é a vida cristã. As aflições da vida visam aprofundar no conhecimento da palavra de Deus.
3.Mas Jesus conhece as aflições dos seus. Ouvindo Jesus que ele tinha sido expulso encontrando-o lhe perguntou: Crês tu no Filho do homem? ele respondeu: Quem é senhor, para que eu nele creia? E Jesus lhe disse: Já o tens visto é o que fala contigo. Então afirmou ele: Creio, Senhor e o adorou. (v.35-38) Jesus o defende. Mostra-lhe quem o curou, para que não haja dúvida. Iluminou sua mente. Assim Jesus procura fortalecer a fé dos que ele chamou. Quer seja pelos pais e/ou Escola Bíblica, pela instrução dos confirmandos, por estudos bíblicos, reunião de grupos e cultos.
4.Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos. (v40) Que palavras!
- Os que não vêem. Jesus se refere à nossa cegueira natural que herdamos de Adão. Jesus veio para nos iluminar e tirar essa cegueira, assim como ele curou o cego de nascença. Usa hoje para tanto o batismo e a palavra de Deus. Leva à fé (pelo batismo) e firma na fé (pela escola bíblica, a instrução de confirmandos, estudos bíblicos e o culto). Nossa epístola diz: Outrora éreis trevas, porém agora sois luz no Senhor, ainda na luz, como filhos da luz (Ef 5.8) Estes recebem perdão e vivem no perdão. Por isso Jesus pôde dizer: Eles não tem pecado.
- Os que vêem, como os fariseus, que se julgam por sábios em sua sabedoria humana e por isso rejeitam a Jesus e sua luz, permanecem na cegueira. Seus pecados não são perdoados.
- Por isso como batizados, confirmados importa que a Palavra de Deus habite ricamente entre nós. Com humildade e oração suplicamos: Ilumina-nos. E assim queremos ouvir, orar, louvar e andar na luz.
São Leopoldo 15/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

O perigo de cair da fé.

3° Domingo na Quaresma, 18/02/2008
Efésios 5.8-14

Se você tivesse que explicar a um cego o que é luz, como você faria isso? Isto só poderia ser feito mediante a descrição de ações concretas, como por exemplo: Bater em alguém e machucá-lo, e dizer: Isto é treva. Ajudar a um ferido e erguê-lo, e dizer: Ito é luz. Guiar alguém pelo bom caminho para o alvo, e dizer: Isto é luz. Guiar alguém para um precipício para que caia, e dizer: Isto é trevas. Pois bem, é isto que o apóstolo Paulo faz em nossa epístola.
Neste trecho da carta aos efésios há uma preocupação: O perigo de cristãos caírem da fé e voltarem ao mundo. Por isso, após o apóstolo exortar os discípulos ao amor, uma exortação à vida santificada. O apóstolo Paulo mencionou pecados contra os quais cada um precisa lutar, se quer permanecer fiel na fé cristã; e a partir do v. 5, o apóstolo menciona pecados mais graves. Se alguém cai nesses pecados, a pessoa perdeu a fé. Esses pecados são adultério, impurezas (isto é, toda a pornografia, homosexualismo, lesbianismo, etc). Outros pecados graves são: a cobiça, a ganância, o amor ao dinheiro, que é idolatria. Por estarmos no mundo, cercado de trevas, as tentações são constante. Se um cristão cede e volta para esses pecados, volta às trevas. Satanás volta a dominá-lo, o Espírito Santo é expulso, a pessoa perde sua fé e a vida eterna, enquanto permanecer no amor a esses pecados. E este é o ponto em nossa epístola: O perigo de cristãos voltarem às trevas, perdendo sua fé. Um problema que se manifesta muito vivo em nossas Comunidades, nessa época da decadência.
No versículo 3, o apóstolo alerta: “Essas coisas nem sequer se nomeie entre vos, como convém a santos” (v.3). Uma tradução melhor é: “Que não haja pecados sexuais, impureza ou ganância entre vocês, isto é, que ninguém seja capaz de acusar a vocês de qualquer dessas coisas.” Sejam tão zelosos, que qualquer conversa e acusação contra vocês nesse sentido morra, emudecendo por si. Pois quem pratica tais coisas não herdará o céu (v.5).
E então o apóstolo lembra três fatos:a) Éreis trevas, 2) Agora sois luz. 3) Andai como filhos da luz.
1. Éreis trevas. Quem? O apóstolo Paulo está falando aos cristãos de Êfeso e diz o que eles eram antes da conversão, trevas. O que é isso? Deus é luz. Estar separado de Deus é estar em trevas, é estar morto. A palavra morto significa estar separado de Deus. Estar no poder de Satanás. Éreis trevas!
Confessamos no Credo Apostólico: Creio que Deus me criou. E Deus nos criou “assombrosamente maravilhosos” (Sl 139.14). Mas o salmista também afirma: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). Não posso acusar a Deus de ter-me criado trevas. Ele nos criou, não diretamente como Adão e Eva, mas por nossos pais, dos quais herdamos o pecado, que chamamos de pecado original. Não que eu leve a culpa de Adão e Eva. Em Adão e Eva todos nós pecamos. O salmista diz: “Eu nasci em pecado.” Nossos pais definiram corretamente o pecado original: “É o pecado que herdamos de Adão, a completa corrupção da natureza humana, inclinada para todo o mal, sujeita á condenação.” O apóstolo diz: “Éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3). Isto a razão humana não quer aceitar, pois “somos inimigos de Deus” (Rm 5.10). Somos hoje a única igreja cristã que permanece neste ensino. E vejam bem, o pecado não é só uma mancha em nós, um defeito, não. Mesmo o mais piedoso, o mais honrado, caritativo, o monge que passa o dia rezando é também assim. Por isso Jesus diz a Nicodemos, um homem religioso, conhecedor do Antigo Testamento, piedoso que se esforçava para cumprir a lei, mas tinham uma compreensão errada da Bíblia: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino dos céus” (Jo 3.5). Por isso confessamos: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele.” Essa é nossa situação por nascimento. Somos todos por nascimento, sem exceção, corrompidos pelo pecado, separados de Deus, réus da eterna condenação, trevas.
2. Agora sois luz. – O apóstolo está falando aos cristãos em Éfeso e isto vale a todos nós. Agora sois luz. Quem? Todos. Quem nos dera. Quem nos dera se todos os membros de nossa Comunidade fossem luz. Ele está falando somente daqueles que renasceram pela água e pelo Espírito e estão na fé em Cristo.
Jesus é a luz do mundo. Ele é “a verdadeira luz que vinda ao mundo, ilumina a todo o homem” (Jo 1.9). Ele venceu as trevas. Ele, como substituto de toda a humanidade, cumpriu perfeitamente a lei de Deus, pagou a culpa da humanidade, venceu o pecado, a morte e a Satanás. E ordenou a seus discípulos proclamassem essa boa notícia, este evangelho, de que em Cristo há perdão dos pecados, vida e eterna salvação, para todo aquele que arrependido de seus pecados, confia na graça de Cristo. Pela palavra de Deus o Espírito Santo chama e ilumina, conduz ao reconhecimento que somos míseros pecadores, perdidos e condenados e nos faz exclamar: Senhor misericórdia! Pelo evangelho, o Espírito Santo chama, atrai a Cristo e opera a fé. Esta fé é a nova vida. Algo que não tínhamos antes. Ele abriu nossos olhos. Temos uma nova visão da vida. De onde viemos, quem somos, qual o caminho da salvação, para podermos confessar: Creio que Jesus Cristo é meu Senhor e Salvador, Creio na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. O apóstolo afirma: “E estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 2.5,6). “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5.17). Vejam, tudo isso, Jesus fez, sem nenhum mérito ou dignidade de nossa parte. Tudo isso é graça. E o que crê, tem o que estas palavras lhe oferecem, dão e confirmam: perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Louvado seja Deus.
3. Andai como filhos da luz. Todos os que crêem, e enquanto estiverem na fé, renasceram, foram feitos filhos de Deus, são habitação do Espírito Santo. Neles foi restituída, parcialmente, a imagem divina, isto é, este bem-aventurado conhecimento de Deus, perfeita justiça e santidade. Parcialmente, porque temos nossa natureza carnal que não muda. Contra a qual precisamos lutar diariamente. Ela será definitivamente afogada no dia de nossa morte, ou se o dia do juízo vier antes.
Agora o apóstolo adverte. Existe constantemente o perigo de sermos enganados por nossa natureza carnal, atraídos pelo mundo, seduzidos por Satanás a voltarmos às trevas, ao mundo, vindo a perder a fé. Este é um dos grandes perigos. Quem não o conhece? Não podemos alertar e vigiar o suficiente.
Agora que temos vida, cooperamos com o Espírito Santo. Como? Não temos luz própria. Vocês conhecem a cruz fosforescente. Ela brilha, na medida em que está em contato com a energia. Assim a luz de Deus entre em nosso coração, para brilharmos. Importa ler, meditar e orar. Vejamos as admoestações.
- Agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (v.8). O primeiro verbo é andar. Fé não é só algo para o domingo, mas para a vida. A nova vida, como filhos da luz. Os frutos são: bondade, justiça e verdade. São qualidades que se revelam na vida individual, na família, na educação dos filhos, na vida profissional, na sociedade.
- Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas, reprovai-as (v.11). Estamos no mundo, cercados de trevas. Não é só na televisão o Big Brother, ou novelas, mas na rua, no estudo no trabalho, somos defrontados com trevas, nas conversas. Não sejamos cúmplices. Ver TV, alegrando e deleitando- nos nos pecados que ali são mostrados. Na rua, ouvir, endossar, participar ou até silenciar, antes reprovar. Ser luz, dizer qual a vontade de nosso Deus. Esta é nossa missão, como filhos de Deus num mundo em trevas, sermos luz aos outros. Refletir a palavra de Deus, não simplesmente para condenar, mas salvar. Vão nos detestar, chamar de chatos, rejeitar, sim, até entre parentes. Mas queremos cumprir nossa missão. Se nós calarmos, quem falará?
- Desperta!(v.14) Desanimar, conformar-nos? Não! Desperta. Está aí o verdadeiro desafio para todos nós constantemente. Desperta! Em que sentido? Arrependimento. Renovado apego à palavra e doutrinas. Súplica para que o Espírito Santo nos fortaleça, luta por vida santificada, testemunho decidido. Que Deus nos fortaleça. Amém.
São Leopoldo, 18/02/2008
Horst R. Kuchenbecker
3° Domingo na Quaresma, 18/02/2008
Efésios 5.8-14

Se você tivesse que explicar a um cego o que é luz, como você faria isso? Isto só poderia ser feito mediante a descrição de ações concretas, como por exemplo: Bater em alguém e machucá-lo, e dizer: Isto é treva. Ajudar a um ferido e erguê-lo, e dizer: Ito é luz. Guiar alguém pelo bom caminho para o alvo, e dizer: Isto é luz. Guiar alguém para um precipício para que caia, e dizer: Isto é trevas. Pois bem, é isto que o apóstolo Paulo faz em nossa epístola.
Neste trecho da carta aos efésios há uma preocupação: O perigo de cristãos caírem da fé e voltarem ao mundo. Por isso, após o apóstolo exortar os discípulos ao amor, uma exortação à vida santificada. O apóstolo Paulo mencionou pecados contra os quais cada um precisa lutar, se quer permanecer fiel na fé cristã; e a partir do v. 5, o apóstolo menciona pecados mais graves. Se alguém cai nesses pecados, a pessoa perdeu a fé. Esses pecados são adultério, impurezas (isto é, toda a pornografia, homosexualismo, lesbianismo, etc). Outros pecados graves são: a cobiça, a ganância, o amor ao dinheiro, que é idolatria. Por estarmos no mundo, cercado de trevas, as tentações são constante. Se um cristão cede e volta para esses pecados, volta às trevas. Satanás volta a dominá-lo, o Espírito Santo é expulso, a pessoa perde sua fé e a vida eterna, enquanto permanecer no amor a esses pecados. E este é o ponto em nossa epístola: O perigo de cristãos voltarem às trevas, perdendo sua fé. Um problema que se manifesta muito vivo em nossas Comunidades, nessa época da decadência.
No versículo 3, o apóstolo alerta: “Essas coisas nem sequer se nomeie entre vos, como convém a santos” (v.3). Uma tradução melhor é: “Que não haja pecados sexuais, impureza ou ganância entre vocês, isto é, que ninguém seja capaz de acusar a vocês de qualquer dessas coisas.” Sejam tão zelosos, que qualquer conversa e acusação contra vocês nesse sentido morra, emudecendo por si. Pois quem pratica tais coisas não herdará o céu (v.5).
E então o apóstolo lembra três fatos:a) Éreis trevas, 2) Agora sois luz. 3) Andai como filhos da luz.
1. Éreis trevas. Quem? O apóstolo Paulo está falando aos cristãos de Êfeso e diz o que eles eram antes da conversão, trevas. O que é isso? Deus é luz. Estar separado de Deus é estar em trevas, é estar morto. A palavra morto significa estar separado de Deus. Estar no poder de Satanás. Éreis trevas!
Confessamos no Credo Apostólico: Creio que Deus me criou. E Deus nos criou “assombrosamente maravilhosos” (Sl 139.14). Mas o salmista também afirma: “Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). Não posso acusar a Deus de ter-me criado trevas. Ele nos criou, não diretamente como Adão e Eva, mas por nossos pais, dos quais herdamos o pecado, que chamamos de pecado original. Não que eu leve a culpa de Adão e Eva. Em Adão e Eva todos nós pecamos. O salmista diz: “Eu nasci em pecado.” Nossos pais definiram corretamente o pecado original: “É o pecado que herdamos de Adão, a completa corrupção da natureza humana, inclinada para todo o mal, sujeita á condenação.” O apóstolo diz: “Éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (Ef 2.3). Isto a razão humana não quer aceitar, pois “somos inimigos de Deus” (Rm 5.10). Somos hoje a única igreja cristã que permanece neste ensino. E vejam bem, o pecado não é só uma mancha em nós, um defeito, não. Mesmo o mais piedoso, o mais honrado, caritativo, o monge que passa o dia rezando é também assim. Por isso Jesus diz a Nicodemos, um homem religioso, conhecedor do Antigo Testamento, piedoso que se esforçava para cumprir a lei, mas tinham uma compreensão errada da Bíblia: “Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino dos céus” (Jo 3.5). Por isso confessamos: “Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele.” Essa é nossa situação por nascimento. Somos todos por nascimento, sem exceção, corrompidos pelo pecado, separados de Deus, réus da eterna condenação, trevas.
2. Agora sois luz. – O apóstolo está falando aos cristãos em Éfeso e isto vale a todos nós. Agora sois luz. Quem? Todos. Quem nos dera. Quem nos dera se todos os membros de nossa Comunidade fossem luz. Ele está falando somente daqueles que renasceram pela água e pelo Espírito e estão na fé em Cristo.
Jesus é a luz do mundo. Ele é “a verdadeira luz que vinda ao mundo, ilumina a todo o homem” (Jo 1.9). Ele venceu as trevas. Ele, como substituto de toda a humanidade, cumpriu perfeitamente a lei de Deus, pagou a culpa da humanidade, venceu o pecado, a morte e a Satanás. E ordenou a seus discípulos proclamassem essa boa notícia, este evangelho, de que em Cristo há perdão dos pecados, vida e eterna salvação, para todo aquele que arrependido de seus pecados, confia na graça de Cristo. Pela palavra de Deus o Espírito Santo chama e ilumina, conduz ao reconhecimento que somos míseros pecadores, perdidos e condenados e nos faz exclamar: Senhor misericórdia! Pelo evangelho, o Espírito Santo chama, atrai a Cristo e opera a fé. Esta fé é a nova vida. Algo que não tínhamos antes. Ele abriu nossos olhos. Temos uma nova visão da vida. De onde viemos, quem somos, qual o caminho da salvação, para podermos confessar: Creio que Jesus Cristo é meu Senhor e Salvador, Creio na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. O apóstolo afirma: “E estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, - pela graça sois salvos, e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 2.5,6). “E assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas” (2 Co 5.17). Vejam, tudo isso, Jesus fez, sem nenhum mérito ou dignidade de nossa parte. Tudo isso é graça. E o que crê, tem o que estas palavras lhe oferecem, dão e confirmam: perdão dos pecados, vida e eterna salvação. Louvado seja Deus.
3. Andai como filhos da luz. Todos os que crêem, e enquanto estiverem na fé, renasceram, foram feitos filhos de Deus, são habitação do Espírito Santo. Neles foi restituída, parcialmente, a imagem divina, isto é, este bem-aventurado conhecimento de Deus, perfeita justiça e santidade. Parcialmente, porque temos nossa natureza carnal que não muda. Contra a qual precisamos lutar diariamente. Ela será definitivamente afogada no dia de nossa morte, ou se o dia do juízo vier antes.
Agora o apóstolo adverte. Existe constantemente o perigo de sermos enganados por nossa natureza carnal, atraídos pelo mundo, seduzidos por Satanás a voltarmos às trevas, ao mundo, vindo a perder a fé. Este é um dos grandes perigos. Quem não o conhece? Não podemos alertar e vigiar o suficiente.
Agora que temos vida, cooperamos com o Espírito Santo. Como? Não temos luz própria. Vocês conhecem a cruz fosforescente. Ela brilha, na medida em que está em contato com a energia. Assim a luz de Deus entre em nosso coração, para brilharmos. Importa ler, meditar e orar. Vejamos as admoestações.
- Agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz (v.8). O primeiro verbo é andar. Fé não é só algo para o domingo, mas para a vida. A nova vida, como filhos da luz. Os frutos são: bondade, justiça e verdade. São qualidades que se revelam na vida individual, na família, na educação dos filhos, na vida profissional, na sociedade.
- Não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas, reprovai-as (v.11). Estamos no mundo, cercados de trevas. Não é só na televisão o Big Brother, ou novelas, mas na rua, no estudo no trabalho, somos defrontados com trevas, nas conversas. Não sejamos cúmplices. Ver TV, alegrando e deleitando- nos nos pecados que ali são mostrados. Na rua, ouvir, endossar, participar ou até silenciar, antes reprovar. Ser luz, dizer qual a vontade de nosso Deus. Esta é nossa missão, como filhos de Deus num mundo em trevas, sermos luz aos outros. Refletir a palavra de Deus, não simplesmente para condenar, mas salvar. Vão nos detestar, chamar de chatos, rejeitar, sim, até entre parentes. Mas queremos cumprir nossa missão. Se nós calarmos, quem falará?
- Desperta!(v.14) Desanimar, conformar-nos? Não! Desperta. Está aí o verdadeiro desafio para todos nós constantemente. Desperta! Em que sentido? Arrependimento. Renovado apego à palavra e doutrinas. Súplica para que o Espírito Santo nos fortaleça, luta por vida santificada, testemunho decidido. Que Deus nos fortaleça. Amém.
São Leopoldo, 18/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Fonte da água viva

João 4.5-26. 2° Quaresma.

Introdução
Jesus a fonte da água viva.
Há nas pessoas uma sede, um desejo ardente por felicidade plena e absoluta. Nem podem dizer bem em que consiste esse desejo, mas elas procuram. No entanto, todo o correr das pessoas, estimulado pela propaganda, é uma busca por felicidade. Mas elas não a encontram. Elas retornam dessa procura cansadas e sobre carregadas de pecados. Verdadeira paz e felicidade nós só encontramos em Jesus Cristo, a fonte da água viva. Isso o presente evangelho nos mostra com muita clareza.

História
Jesus estava-se dirigindo para a Galiléia e resolveu passar pelo território de Samaria, antiga terra das dez tribos de Israel, que foram levadas ao cativeiro e nunca mais se refizeram. Ali morava uma mescla de pessoas de muitos outros povos, que prestavam culto a diversos ídolos. Por isso eram rejeitados pelos judeus, que detestavam os samaritanos e evitavam passar por Samaria. Eles faziam uma volta pelo outro lado do rio Jordão. Mas Jesus tinha um propósito bem especial para passar por ali.
Cansado da viagem, Jesus se assentou à beira do poço de Jacó e enviou seus discípulos para a cidade comprar alimentos. Pois para o diálogo porvir ele queria estar sozinho.
Enquanto Jesus descansava, veio uma mulher buscar água do poço. Era uma hora imprópria para buscar água. As mulheres buscavam água pela manhã e iam juntas. Mas essa mulher buscou um outro horário para não cair no escárnio das outras mulheres, pois sua fama não era boa na cidade.

Um diálogo interessante
Jesus, mesmo ciente das barreiras sociais, culturais, raciais e religiosas existente entre ele e a mulher, dirige-se à mulher e lhe pede água.
A mulher estranha. Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim que sou mulher samaritana? Os judeus desprezavam os samaritanos, por isso a resposta da mulher foi dura. Jesus não se ofende e lhe responde com calma: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: Dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva. Uma interessante maneira de iniciar um diálogo evangelística. Jesus lhe pede um favor. Ele não se identifica logo. Ele procura despertar o interesse da mulher sobre a água que pode saciar a verdadeira cede. Se conheceras o dom de Deus, isto é, o presente que Deus está dando a ti neste momento, nesta oportunidade.
Podemos imaginar a reação da mulher. Ela deve ter olhado para Jesus de alto a baixo. Tinha diante de si um homem comum, cansado, sedento, pobre. O que este pedinte poderia lhe dar algo? Quem é esse homem, Jesus?

Quem é Jesus?
Esta indagação é comum ao longo da história do cristianismo. Quem é Jesus? Pilatos olhou para ele e perguntou zombeteiramente: Tu és rei? O que o apóstolo Paulo poderia oferecer aos romanos em Roma, a este povo orgulhoso e vaidoso? Pois ele era homem alquebrado, prisioneiro, acorrentado a um soldado romano para vigiá-lo? Mas Deus se revela ao contrário do que esperamos. Ele tem-se revelado em Cristo humilhado, ele trouxe vida eterna pela morte de seu Filho. Assim ao longo da história se confirma a palavra: entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo. (2 Co 6.10)
A curiosidade da mulher a leva ao diálogo e ela responde a Jesus: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço? A mulher ainda não compreendeu de que se tratava. Não de água simples, mas da água viva. No entanto, ela revela certo conhecimento religioso.
Ainda hoje é muito comum, em nosso mundo ocidental, que as pessoas são batizadas, conhecem algo sobre o Deus triúno e a Bíblia, e este pouco que conhecem da verdade, eles o têm bem distorcido.

Abrindo a ferida
Jesus aprofunda o conhecimento sobre a água viva e lhe diz: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede, para sempre; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. Que oferta! A mulher responde: Senhor, dá-me dessa água para que não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la. Ela ouviu as palavras de Jesus, mas com seus ouvidos carnais, que mesmo falando da vida eterna, nada entendem da palavra de Deus e interpretam tudo de forma material. Jesus se alegra, pois o diálogo estava estabelecido. Agora poderia começa com a cura desta alma sofrida. E a cura começa pelo o abrir as feridas, para conduzir ao arrependimento, para então poder derramar anunciar o evangelho. Jesus diz a ela: Vai, chama teu marido e vem cá. – Ali estava a ferida da mulher. Surpresa a mulher responde: Não tenho marido. Ela sentiu o impacto, mas foge do assunto. Tenta tapar o sol com a peneira. Jesus lhe diz: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. O que encerra esta simples frase. Por quantas esperanças por uma vida feliz, por quantas ilusões, por quantas brigas e desilusões esta mulher deve ter passado. Uma vida cheia de pecados. Isto precisava ser purificado.
A mulher surpresa por alguém, que ela nunca vira antes, conhecer sua vida tão profundamente, responde: Vejo que és profeta. E passa ao assunto principal que a preocupava, o verdadeiro culto, isto é, como posso colocar esta minha vida em ordem? Pela lei, o Espírito Santo abriu a ferida. Mas e agora, o que fazer? Ela tinha certo conhecimento da religião judaica. Indaga pela verdadeira adoração, Jerusalém ou Samaria? Nossos pais adoraram aqui, mas vocês judeus dizem: Só em Jerusalém. O que devo fazer para obter perdão, para voltar à comunhão com Deus? Eis a pergunta mais importante da vida.

A cura e o verdadeiro culto
Jesus começa a falar do culto. Vai devagar, passo a passo.
- Vós, que olhais para Samaria, adorais o que não conheceis, nós adoramos o que conheceis, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora, e já chegou, quando os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade; porque são estes que o Pai procura para seu adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e verdade. (v.22-24)
Jesus lhe mostra que o verdadeiro culto não é em primeiro lugar uma questão de cerimônias de sacrifícios.
Ainda hoje muitos acham que para o culto ser agradável a Deus, ele precisa ter um lugar próprio, outros dão valor à liturgia, formal ou informal, outros ao canto ou à ênfase emocional, etc., mas Jesus mostra que em primeiro lugar é preciso compreender que o culto é espiritual, a saber, em verdadeiro espírito, que consiste em arrependimento e fé no coração.
A mulher responde: Eu sei, que há de vir o Messias, chamado Cristo; quando ele vier nos anunciará todas as coisas. (v.25) Ela tem uma vaga noção a respeito do Messias por vir. Ela está esperando ansiosa para ouvir a verdade. Feliz a quem o Espírito Santo leva a esse ponto.
Então Jesus lhe diz: Eu o sou, eu que falo contigo. (v. 26) O Espírito Santo lhe abriu a mente. Ela reconheceu em Jesus o Messias, a fonte da água viva. Profundo júbilo, alegria, paz invadem seu coração. Alegria que ela nunca antes experimentara. Esta alegria ela não poderia reter para si.

Alegria e testemunho
A mulher deixou seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: Vinde comigo, e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito. Será este, porventura, o Cristo?! Impressionante: Uma conhecida prostituta, agora convertida, é a primeira missionária em Samaria. E ela foi bem sucedida.
Quando isso acontece, quando uma pessoa reconhece Cristo como o Messias, seu Salvador, há uma mudança, há paz e alegria, e as pessoas o expressam de várias maneiras. Alguns se ajoelham e adoram. Outros, como André e João (Jo 1.4042), correm para anunciá-lo a seus parentes e amigos; assim procederam também, mais tarde, os discípulos de Emaús (Lc 24.13-33). As pessoas não conseguem reter tão grande alegria para si e correm para proclamá-lo.
Por que será que nós testemunhamos tão pouco? Qual o problema? Sem dúvida, falta de reconhecimento de nossa culpa, falta de arrependimento, de reconhecimento melhor de nosso Salvador, falta de fé. Porque a fé movimento ao testemunho. Cri, por isso falei.
Que Jesus em sua graça nos conduza e preserve em arrependimento diário e nos faça crescer no conhecimento da graça de Cristo, na fé. E que o Espírito Santa abra nossos lábios para o louvor confessional. Amém.
São Leopoldo, 09/02/ 2008
Horst R. Kuchenbecker

Deus chama a Abraão

Gênesis 12.1-8. Abraão

A vida humana se agita cada vez mais. Trabalho, notícias, diversões embalam as pessoas. Elas correm cem cessar, cada vez mais velozes, como se vivessem aqui na terra para sempre, e não chegam a lugar nenhum. Elas ignoram o propósito principal da vida, a existência da eternidade, do céu e do inferno.
E nós cristãos? Conhecemos a verdade de que aqui na terra somos forasteiros e peregrinos. (1 Pe 2.11) Conhecemos o caminho para o céu, pela fé em Cristo, mas freqüentemente nos deixamos envolver tanto pelo mundo, que esquecemos o propósito de nossa vida.
Qual é, então, nosso propósito de vida? É o que Deus disse a Abraão: Eu te abençoarei - Sê tu uma bênção! Vamos contemplar a vida de Abraão.

1. Deus chama a Abraão
Abraão viveu na terra de Ur da Caldéia, isto é, no Golfo Pérsico, onde hoje é o Kuwait. Precisamos ter diante de nossos olhos o tempo em que Abraão viveu, quando Deus o chamou.
Quando Abraão nasceu, Noé ainda vivia. Quando Noé faleceu, Abraão tinha 58 anos de idade. Dezessete anos após a morte de Noé, Deus chamou a Abraão.
O que nos impressiona é a idolatria já reinava novamente nesta época. Abraão não foi um homem piedoso, que Deus chamou devido a sua piedade. Na casa dele adoravam idolatria. Josué afirma: Antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e de Nacor, habitaram dalém do Eufrates, e serviram a outros deuses. (Js 24.2) A religião da Babilônia, na região de Nimrod, tinha a mais sublime aparência. Serviam a um deus luz, a mais sublime majestade de Deus e davam valor a uma vida correta, por isso muitos aderiram a essa religião. Era, porém, idolatria. Mesmo sendo o filho de Noé e sua família muito fiel a Deus, e o filho Sem um pregador, que deve ter tido sua comunidade de fiéis, Deus intervém e escolhe, não alguém dos santos da época, mas a um idólatra para se revelar a ele e formar dele o povo de Israel, portador da promessa.
Nosso texto diz: Ora disse o Senhor a Abraão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei. Uma tradução mais exata é: Ora havendo Deus dito a Abraão. Abraão recebeu o chamado em Ur da Caldeia. Foi dali para Harã, no que seu pai e seu sobrinho Lá o acompanharam. Esta viagem a camelo, leva aproximadamente um ano. Ali em Harã seu pai faleceu e Abraão seguiu então com seu sobrinho Ló para o sul, para a terra de Canaã. Este era o quadro. Agora vejamos a ação de Deus.
Em sua graça, Deus resolveu chamar a Abraão, para formar dele o povo de Israel, portador da promessa do nascimento do Salvador. Todos nós sabemos como é difícil levar uma pessoa, que pratica sua religião, a mudar de religião. Digamos, convencer hoje um Islâmico ou um espírita para abraçar o cristianismo. Se o chamado que Deus dirigiu a Abraão foi direto, isto é, se Deus lhe apareceu em visão ou sonho e o chamou, ou de forma indireta, isto é, talvez pelo pregador Sem, não vem ao caso. Este chamado revelou o poder da palavra de Deus. Abraão creu. Deus o levou ao reconhecimento de sua idolatria e ao arrependimento. Deus operou nele fé, sem nenhum mérito ou dignidade da parte de Abraão. Foi pura graça. Mas também o que segue a este chamado, continua ser pura graça.
Que montanhas de dificuldades Abraão teve que vencer para permanecer crendo. Pois da promessa de ser pai de uma grande nação e de reinos, de ser poderoso, nada disso parecia ser verdade nem se cumprir. Abraão recebeu o chamado quando tinha 75 anos. Sua esposa Sara era estéril, não tinha filhos. Ele foi peregrino e forasteiro e continuou não tendo filhos. Por isso Deus teve que constantemente consolá-lo e lhe reafirmar a promessa diversas vezes. (13.14; 15.18;17.8; 23.4) Nisto não podemos esquecer Sara a mulher de Abraão que o acompanhou fielmente, isto é, ela também creu.
Isto tudo é muito consolador para nós, pois Deus também nos chamou quando ainda éramos seus inimigos e pecador, e nos chamou por graça. É ele que nos conserva na fé e nos fortalece na luta contra as diversas atrocidades da vida.

2. De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. - Que promessa? E que força o Espírito Santo deve ter usado para levar a Abraão a crê-lo. Pois era uma promessa contra todas as evidências da vida. E Abraão e Sara creram. Pois é Deus que forma nações e lhes concede força e terra e as deixa dominar, até onde lhe apraz. O profeta Daniel escreveu: É Deus quem muda o tempo e as estações; remove reis e estabelece reis; ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos entendidos. (Dn 2.21) Em outra ocasião Deus disse a Abraão: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade. (15.5) Abraão, na verdade, não viu nada de todas essas promessas. Ele permanece forasteiro. Na sua velhice Deus lhe concedeu um herdeiro, Isaque. Na carta do apóstolo Paulo aos Romanos lemos: Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus (Rm 4.18-20) Mesmo assim esta promessa ainda se referia às coisa materiais. Agora segue a verdadeira promessa:

3. Sê tu uma bênção... em ti serão benditas todas as famílias da terra. (v.2,3) Aqui está a verdadeira promessa, que merece ser sublinhada em nossa Bíblia. Da descendência de Abraão sairá uma bênção para todas as nações da terra. Não somente as nações de sua época, mas todas as nações até aos confins da terra.
Será que Abraão compreendeu bem esta promessa? Esta bênção não virá de sua pessoa, nem por sua força. Mas de sua descendência sairá alguém que será bênção em si, a saber, alguém que é Deus que tem o poder de abençoar, e por ser de sua descendência, também será verdadeira pessoa humana. Portanto, Deus e homem ao mesmo tempo. Que aniquilará a maldição que pesa sobre toda a terra, sobre toda a humanidade. Que vencerá o pecado, a morte e Satanás e nos livrará da maldição de Deus. Sim, Abraão compreendeu esta bênção. Jesus afirma a respeito de Abraão: Vosso pai Abraão alegrou-se por ver o meu dia, viu-o e regozijou-se. (Jo 8.56) Se esta bênção é para todos, Abraão concluiu, é também para mim. Neste Salvador eu também tenho perdão, vida e eterna salvação. Abraão alegrou-se, nesta salvação. Esta salvação Jesus trouxe e ordenou: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. (Mt 16.15,16)
Importante é nota que não diz que todos virão aos judeus e se anexarão à nação judaica, e os judeus dominarão, como muitos pensam hoje. Não a bênção irá a estas nações. A pregação do evangelho.
Desta promessa brotam todas as pregações dos profetas. Esta promessa se cumpriu em Cristo que por sua obediência à lei, sua paixão e morte trouxe perdão, vida e eterna salvação. Bem-aventurado aquele que não se escandaliza em Cristo, mas crê nele. Este tem a vida eterna.
E este por sua vez não poderá ficar em silêncio, mas será, por sua vida e testemunho, uma luz a guiar outros a Cristo. Esta pessoa tem um novo objetivo, propósito de vida. O seu viver é Cristo, sendo assim uma bênção para muitos. Deus nos chamou por sua palavra. Pelo batismo fomos enxertados em Cristo. Vivemos pela força de Cristo e para Cristo, guiados pelo Espírito. Ainda em muitas fraquezas, mas sempre reerguidos e fortalecidos pelo perdão diário de Cristo. Assim, somos uma bênção para os que nos cercam. Amém.
São Leopoldo, 10/02/2008
Horst R. Kuchenbecker

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Abençoados por Deus

Abençoados com a presença de Deus
Lema da IELB para os anos 2005 a 210.

Um tema interessante. Mesmo que esta frase, como tal, não se encontra na Bíblia, a Bíblia tem muito a dizer sobre Deus[1], sua presença[2] e sua bênção[3]. Isto nos leva a uma série de perguntas.

1. Quem é e onde está Deus?
2. Como podemos subsistir diante do santo e justo Deus?
3. O que é o reino de Deus?
4. Formas da presença de Deus.
5. Sob a Cruz.
6. A oração.
7. A bênção de Deus.

1. Quem é e onde está Deus?
Em nosso mundo há muitas opiniões sobre Deus. Isso é assim, porque toda a pessoa sabe, por sua própria consciência e pela natureza, que existe um Deus. Mas, desde a queda em pecado, o homem não sabe mais quem é este Deus e nem pode por sua própria razão descobri-lo. Por isso, ao procurá-lo, disse Lutero, o homem se apega a ídolos.
É preciso que Deus se revele à humanidade. E ele se revelou. Lemos na carta aos hebreus: Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. (Hb 1.1)
Nosso Catecismo Menor resume as afirmações da Bíblia sobre Deus. “Deus é espírito; é eterno, onipresente, onipotente, onisciente, santo, justo, verdadeiro, bondoso, misericordioso e gracioso.” E sobre a pergunta: Quem é o verdadeiro Deus? afirma: “O Deus verdadeiro é o Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas distintas num único ente divino[4].”
Ninguém pode ver a Deus. Ele é um Deus oculto, abscôndito. Ele criou o universo, os anjos e o ser humano pela palavra do seu poder[5], para sua glória. O ser humano foi criado por Deus conforme a imagem divina, isto é, ele possuía o bem-aventurado conhecimento de Deus, perfeita justiça e santidade[6], e vivia em comunhão com Deus. Mas pela queda em pecado, o homem perdeu esta imagem divina. Adão gerou seu filho à sua semelhança, conforme a sua imagem. (Gn 5.3) Em outras palavras, nascemos com o pecado original, que herdamos de Adão, isto é, “a completa corrupção da justiça original, inclinada para todo o mal e sujeita à condenação”[7]. Adão e Eva, após a queda em pecado, foram expulsos do paraíso e perderam a comunhão com Deus. O profeta diz: Mas as vossas iniqüidades (pecados) fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. (Is 59.2)
Por nossa consciência e pela natureza a pessoa sabe que Deus existe, mas ele não sabe mais quem é Deus, nem onde e como podemos encontrá-lo. A consciência também acusa a pessoa de ser culpada diante de Deus, isto infunde medo e pavor e leva a pessoa a fugir de Deus. Por isso, quando, após a queda em pecado, Deus veio ao jardim do Édem para falar com Adão e Eva eles fugiram e se esconderam. (Gn 3.8) A manifestação de Deus em sua santidade infunde medo e pavor de morte, mesmo nos fiéis. Quando Deus veio falar ao povo de Israel no Monte Sinai, o povo fugiu da presença de Deus e disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. (Ex 20.19) Em determinado momento, Moisés pediu a Deus: Rogo-te que me mostres a tua glória. Respondeu-lhe: Farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o nome do Senhor; terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer. E acrescentou: Não me poderás ver a face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá. Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; e tu estarás sobre a pena. Quando passar a minha glória, eu te porei numa fenda da penha, e com a mão te cobrirei, até que eu tenha passado. Depois em tirando eu a mão, tu me verás pelas costas; mas a minha face não se verá. (Ex 33.18-23) Quando o Anjo do Senhor, que é Jesus, veio em forma de homem falar com Gideão e lhe disse: O Senhor é contigo... encarregando-o de livrar Israel da opressão dos midianitas, prometendo-lhe auxílio e vitória, reconhecendo Gideão de repente que era Deus que estava falando com ele, estremeceu e exclamou: Ai de mim, Senhor, pois vi o Anjo do Senhor (que é Jesus) face a face. Porém o Senhor lhe disse: Paz seja contigo! Não temas! Não morrerás! (Jz 6.12,22-23) Momento semelhante o profeta Isaías também passou. (Is 6.5) Assim também os pastores nos campos de Belém ficaram tomados de grande temor quando a glória do Senhor brilhou ao redor deles. (Lc 2.9).
Deus é onipresente. Ele enche céu e terra (At 17.28). Ninguém pode ocultar-se de sua presença[8]. A presença de Deus ou a simples manifestação do seu poder pelas forças da natureza nos enchem de pavor e medo. Também qualquer susto e ameaça à nossa vida, a manifestação de uma doença, bem como o acordar de nossa consciência com lembranças de pecados, que nos enche de remorsos, tudo isso nos enche de medo e pavor de Deus. E exclamamos com o salmista: De onde me virá o socorro. Feliz aquele que puder responder: O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra. (Sl 121.1,2)

2. Como poderemos subsistir diante do santo e justo Deus?
A humanidade está sob a eterna maldição e condenação de Deus. (Gn 2.17; 3.17) Deus afirmou: Todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer... e todo o mundo seja culpado perante Deus. Não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, e a alma que pecar, essa morrerá [9].
Mesmo assim, Deus amou e ama a humanidade e lhe prometeu e enviou o Salvador, na pessoa de seu Filho unigênito, conforme anunciado pelo profeta Isaías: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel, que quer dizer: Deus conosco. (Mt 1.23; Is 7.14) Ele salvará o povo dos pecados dele. (Mt 1.21) Este menino nascido em Belém da Judéia é verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria. Ele afirmou: Eu e o Pai somos um. (Jo 10.30). Quem me vê a mim, vê o Pai. (Jo 14.9) O apóstolo João declara: Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (Jo 3.17,18) Esta verdade de Deus ter-se encoberto e humilhado é um escândalo para nossa razão e só pode ser aceito por fé.
O apóstolo Paulo faz uma declaração muito importante a respeito desse Salvador. Ele afirma:

Portanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória de nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras. (Tt 2.11-14)

Que consolo! De nada nos adiantaria Deus revelar simplesmente seu poder, simplesmente seu amor, ou simplesmente sua presença, isso não nos adiantaria em nada, antes nos mete medo e pavor. Mas Deus nos revelou seu amor salvador, para nos libertar; em primeiro lugar, da maldição da lei de Deus e também de nossos inimigos: pecado, morte e Satanás. O apóstolo Paulo escreve:

Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando (atribuindo) aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos deixeis reconciliar com Deus. (2 Co 5.19-20)

Que mensagem impressionante. O próprio Deus nos reconciliou consigo mesmo. Pois ele não poderia simplesmente perdoar. A lei tinha que ser cumprida, a culpa paga e os inimigos vencidos. Tudo isso ele fez pela humanidade através de seu unigênito Filho, Jesus Cristo. O apóstolo Paulo escreve:

Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho. (Gl 4.4,5)

Agora ele oferece esta salvação a todos por sua palavra e seus sacramentos, para que todo o que crê na graça de Cristo, não pereça, mas tenha a vida eterna. Jesus usa este poder também para proteger os seus e a sua Igreja.

3. O reino de Deus
Para compreendermos melhor esta graciosa ação pela qual Deus restabeleceu comunhão com a humanidade e sua graciosa presença em todos os que crêem na graça de Cristo, precisamos falar do Reino de Deus.
Quando os Magos do Oriente vieram em busca do Salvador, eles se dirigiram a Jerusalém. Ali estava o templo de Jeová. Sendo eles “nobres”, dirigiram-se ao palácio do rei Herodes, o Grande. Ali perguntaram: Onde está o recém nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo. (Mt 2.2) Em Jerusalém ninguém sabia a respeito do menino Jesus e todos ficaram alarmados com a notícia do nascimento do Rei dos judeus. Herodes convocou os principais sacerdotes e escribas do povo, para que lhe informassem onde o Cristo deveria nascer. (Mt 2.4) Após uma pesquisa, encontraram a resposta no profeta Miquéias: E tu Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá: porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo, Israel. (Mt 2.6; Mq 5.2) Mesmo não tendo os Magos se sentido bem em Jerusalém, eles saíram felizes dali por terem ouvido a profecia. Seguiram para Belém, a procura do descendente do rei Davi, o Guia e Rei que haveria de apascentar a Israel.
Muitos anos depois, quando Jesus foi preso e entregue a Pôncio Pilatos, acusado de dizer-se rei dos judeus (Lc 23.2), Pilatos perguntou a Jesus: És tu o rei dos judeus? (Jo 18.33) Ao que Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo... Logo tu és rei? disse Pilatos. Respondeu Jesus: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz. (Jo 18.33-37) Que reino é este que não é deste mundo, mas está neste mundo? Os fariseus já haviam feito essa pergunta a Jesus. Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Não dirão: Ei-lo aqui! ou: Lá está! Porque o reino de Deus está entre vós. (Lc 17.20,21)[10] O evangelista Mateus afirma: Jesus percorria toda a Galiléia ensinando nas sinagogas o evangelho do reino. (Mt 4.23) Esta pregação era clara: Arrependei-vos e crede no evangelho. (Mc 1.15)
Esta é a boa nova para a qual Jesus veio. Por esta mensagem o Espírito Santo gera a fé no coração humano, que por natureza é espiritualmente cego, morto e inimigo de Deus[11]. Pelo Evangelho, o Espírito Santo ilumina o coração, leva ao arrependimento, a confiar na graça de Cristo, a aceitar a verdade e confiar na palavra salvadora de Deus. Pelo Evangelho, Cristo vem ao coração e habita pela fé no coração humana. O apóstolo Paulo escreveu: E assim habita Cristo nos vossos corações, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor. (Ef 3.17) Aos colossenses o apóstolo Paulo escreveu:

O mistério que estava oculto dos séculos e das gerações, agora todavia se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós a esperança da glória; a qual nos anunciamos. (Cl 1.26-28)
E: Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o Espírito é vida por causa da justiça. (Rm 8.10)

Em outras palavras: Cristo habita nos fiéis, mas o corpo deles ainda precisa carregar a carga do pecado e suas conseqüências, doenças, sofrimentos e rumar para a morte. Na morte se completa o batismo, isto é, o corpo será libertado definitivamente do pecado; pois Deus os aceitou, por amor a Cristo, e os declarou perdoados e justos, receberam a adoção de filhos e o Espírito. Isto significa a vida eterna.
Jesus expressou esta verdade assim: Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. (Jo 15.5)
Agora, se Cristo está em nós pelo poder da sua Palavra, então todas as três pessoas da Trindade estão em nós e fazem morada em nós. Fomos batizados em nome do Deus Triúno.
Jesus disse: Se alguém me ama, guardará as minhas palavras; e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele morada. (Jo 14.23) E: O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós. (Jo 14.17) Como o conhecemos? Por sua Palavra. Por esta palavra o Espírito de Cristo trabalha, gerando e mantendo a fé.
Concluindo esta primeira parte sobre a presença de Deus, podemos dizer:

a) Deus é onipresente e enche céu e terra. Ninguém pode ausentar-se de sua presença.
b) Sendo ele um Deus santo e nós pecadores, a manifestação de sua presença nos enche de pavor, medo e desespero.
c) Na sua graça (evangelho) encontramos consolo. Pela fé na graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, voltamos à comunhão com Deus, como o afirma o apóstolo Paulo: Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Co 3.16) Por isso também a advertência: Não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção. (Ef 4.30)

4. Formas da presença de Deus
Ao falarmos das formas da presença de Deus, precisamos lembrar o que nosso Catecismo Menor diz sobre os três reinos de Cristo: o reino do poder, o reino da graça e o reino da glória.
Reino do poder – No reino do poder, Jesus governa com poder irresistível sobre todas as coisas, crentes e incrédulos, a bem de sua igreja.
Neste sentido, Cristo, como Deus e homem, está presente em todas as partes, como santo e majestoso Deus e governa todas as coisas com poder. Ninguém pode resistir à sua vontade e determinação. Assim, por exemplo, Deus libertou o povo de Israel do cativeiro egípcio. Moises declarou: Senhor, ó Senhor! Passaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua poderosa mão: porque, que deus há nos céus ou na terra, que possa fazer segundo as tuas obras, segundo os teus poderosos feitos. (Dt 3.24) Assim protegeu na Babilônia, os três homens na fornalha de fogo ardente (Dn 3); libertou a Daniel da cova dos leões (Dn 6); levou o imperador romano, César Augusto, a decretar o recenseamento, para levar Maria e José a Belém, onde deveria nascer o menino Jesus. Jesus diz a seus discípulos:

E sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos; e matarão alguns dentre vós. De todos sereis odiados por causa do meu nome. Contudo, não se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça. (Lc 21.16-18)

No reino do poder, Jesus governa com poder irresistível sobre todas as coisas.
Quando nos dirigimos em oração a ele, pedindo sua proteção, seu auxílio, ajuda na doença, sua bênção, em fim qualquer bem material, dizendo humildemente: Seja feita a tua vontade, certos de que nos ouve e fará o que melhor nos convém. Nestes momentos contando com o seu poder.
Reino da Graça - No reino da graça, Jesus governa seus fiéis, sua Igreja, com sua graça, que é oferecida e selada por sua Palavra e pelos sacramentos, batismo e santa ceia. Por esses meios, Jesus edifica e expande o seu reino, a sua Igreja aqui na terra.
Esta Palavra é resistível, pois Jesus não edifica sua Igreja pela força, pela espada, mas pelo evangelho. Os meios da graça podemos ver, mas o reino de Deus, por ser fé no coração, é invisível. Só o Senhor conhece os seus. (2 Tm 2.19)
Neste reino distinguimos entre três formas diferentes de sua presença: pela Palavra, no sacramento da santa ceia, e sua habitação nos fiéis. Em si é a mesma presença do Jesus, mas em formas diferentes.
a) Pela Palavra - O apóstolo afirma: Pois a fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo. (Rm 10.17) Jesus disse: Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles. (Mt 18.20) Reunido em seu nome é estar reunido para ouvi-lo em sua Palavra, pela leitura, estudo, meditação e culto. E ele ordenou pelo apóstolo: Habite ricamente entre vós a palavra de Cristo. (Cl 3.16) A seus discípulos Jesus disse: Quem vos der ouvidos, ouve-me a mim, e quem vos rejeitar, a mim me rejeita. (Lc 10.16) E: As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço e elas me seguem. (Jo 10.27) Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. (Jo 8.31,32) Na Palavra temos a voz audível de Cristo, pela qual ele nos fala, admoesta, consola, orienta. Nela devemos procurá-lo e não fora dela. Por meio dela o Espírito Santo opera e mantém a fé, dá força, coragem e sabedoria de vida.
b) A forma sacramental da presença de Cristo na santa ceia - Aqui temos uma forma diferente. Recebemos com, em e sob o pão e o vinho o verdadeiro corpo e sangue de Cristo. Mas que corpo? Jesus disse: Isto é o meu corpo, dado e derramado por vós para remissão dos pecados. Portanto, em si, não recebemos o Cristo todo em sua glória, mas o corpo e o sangue dados e derramados por nós na cruz, a saber, o preço pago para nossa salvação, para selar o perdão dos pecados. Mesmo sendo seu verdadeiro corpo e sangue, este comer é um comer sobrenatural. Isto foge à nossa compreensão. Nós o recebemos em fé. Aqueles, no entanto, que não o crêem, também recebem o corpo e o sangue de Cristo, mas para juízo e condenação[12].
c) A graciosa habitação de Cristo em nós - Ele realmente habita nos fiéis. Pelo batismo somos enxertados em Cristo. Renascemos, somos novas criaturas. Nosso corpo é santuário de Deus. A respeito dessa habitação, Jesus disse palavras impressionantes, diante das quais muitos se escandalizaram e o abandonaram, dizendo: Duro é esse discurso. (Jo 6.60) São, no entanto, palavras de puro evangelho. Jesus disse: “Quem comer a minha carne e beber meu sangue.” Essa passagem não se refere, em si, à Santa Ceia. Jesus está falando do “crer nele”. Quem crer, tem a vida eterna. (Jo 6.47) E continuou: Eu sou o pão da vida... Eu sou o pão vivo que desceu do céu, se alguém dele comer viverá eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne... Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue, tem a vida eterna. (Jo 6.51-54) Nesse trecho Jesus fala do comer espiritual, isto é, do recebê-lo pela fé, de que Jesus, verdadeiro Deus e homem, que deu sua vida por nós, que derramou seu sangue na cruz em resgate para muitos, quer agora ser recebido e ter íntima comunhão com os seus, como o ramo enxertado na videira. Se não recebermos nem nos apegarmos a este alimento espiritual para nossa alma e isto de forma contínua, não teremos a vida eterna. Se rejeitarmos este alimento, essa verdade de que Cristo se sacrificou por nós na cruz, não teremos vida em nós mesmo e não alcançaremos vida eterna. Mas quem o crer de coração, terá comunhão com Jesus que afirmou em sua oração sumo sacerdotal. Eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade. (Jo 17.23; Jo 15.4) E Jesus conclui: As palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. (v.63)
Este Evangelho, que nossos pais resumiram magistralmente no Credo Apostólico, Niceno e Atanasiano, Jesus por seu Espírito vem ao nosso coração para consolar por sua graça, nos iluminar com seus dons e fortalecer a fé e orientar. Precisamos dessa palavra para alimentar a fé. Por isso o comer sua carne e beber seu sangue, absorver esta graça, isto tem o mesmo sentido que: Habite ricamente em vós a palavra de Cristo, (Cl 3.16) que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê. (Rm 1.16), porque traz o Espírito Santo ao coração. O apóstolo escreve: Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou da parte de Deus sabedoria e justiça, e santificação e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se glorie, glorie-se no Senhor. (1 Co 3.30,31)
Permanecei em mim! O apóstolo Paulo escreve aos gálatas: Estou crucificado com Cristo, logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim (Gl 2.19,20) Isto não é um privilégio do apóstolo, mas a realidade para cada cristão. Precisamos lembrar também que a expressão “estou crucificado com Cristo” é um ato continuo. A vida cristã é um diário morrer e crucificar a nossa natureza carnal e pecaminosa e um ressurgir diariamente novo homem. ( Gl 5.24)
E Jesus nos admoesta a permanecermos nele. Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos libertará. (Jo 8.31,32) Este permanecer é uma luta árdua. Satanás nos agride pelos meios de comunicação, atrai pelos maus exemplos do mundo e nos coloca ciladas. Muitos se deixam atrair a programas nefastos por curiosidade e quando menos vêem, Satanás os enredou como uma aranha amarra sua presa. Muitas são as admoestações que nos conclamam à luta e à fidelidade para permanecermos fiéis a Cristo. Se fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida eterna. (Ap 2.10)
Reino da Glória. No reino da glória, Jesus governa com glória, sobre os que estão com ele na glória celestial. Ali o veremos face a face, mas isto somente após a nossa morte, se permanecermos fiéis até ao fim. No dia do Juízo Final, todos verão a Cristo em sua glória e majestade. Os salvos o louvarão, os incrédulos estremecerão de pavor, pois ouvirão dele as palavras da condenação: Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. (Mt 25.41)

5. Sob a Cruz. O que as pessoas esperam da presença de Deus, ou da religião e de Deus? A grande maioria olha para Deus como um “socorro sobre natural”. Quando todas as possibilidades materiais fracassaram e as forças humanas se esgotaram, então apelam para Deus. E se Deus não ajudar logo, afirmam: “Não creio mais em nada.” E há religiões que endossam esse pensamento e dizem: “Se tu tiveres fé, nada te será impossível. Deus é amor e não quer que ninguém sofra, tenha problemas, viva doente ou pobre.” Será? Será que Deus prometeu isto? De fato temos muitas passagens maravilhosas na Bíblia nas quais Deus prometeu estar com os seus, protegê-los, abençoá-los e dar-lhes a vida eterna. Por exemplo, o salmista afirma: O Senhor é o meu refúgio. Fizeste do Altíssimo a tua morada. Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordem a teu respeito. (Sl 91.9-10) Ou: Trazei todos os dízimos à casa do Senhor, para que haja mantimento na minha casa, e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós bênção sem medida. (Ml 3.10) Algumas passagens, na verdade, como a de Malaquias, (3.10) tem endereço bem específico, o povo de Israel. Deus prometeu bênçãos especiais porque ele queria que seu povo de Israel se destacasse também materialmente, diante das outras nações, como sinal da presença de Deus. Mas não podemos ignorar outras passagens, nas quais Deus mostra que seus filhos são peregrinos aqui no mundo, peregrinos ainda em humilhação, com fraquezas devido à sua natureza carnal, tentados pelo mundo e por Satanás, odiados pelo mundo e que importa, por muitas tribulações, entrar no reino de Deus. (At 14.22; Jo 4.18-20)
Aqui estamos ainda sob a cruz, não na glória. Jesus, que aqui na terra andou pobre e sofreu, disse a seus discípulos: Não é o servo maior do que seu Senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros. (Jo 15.20) Deus age muitas vezes ao contrário do que esperamos. Por exemplo, Deus se revelou em Cristo ao contrário: não em majestade, mas humildade; não em poder, mas em fraqueza. Jesus nasceu e viveu pobre, deixou-se martirizar e pregar na cruz. Assim procede com os seus. Aqui estamos em humilhação, sob a cruz. Chamamos isto de “A teologia da Cruz”. Isso precisa ser bem entendido por nós cristãos, para compreendermos a presença de Deus em nossa vida. Vejamos alguns aspectos dessa verdade.

Fé e experiência
Muito se fala em nossos dias da experiência da fé e do sentir a presença de Deus. Precisamos, no entanto, afirmar que a fé cristã é algo bem diferente do que a consciência moral, do que um sentimento, ou uma experiência extraordinária. “A fé cristã está em oposição ao sentimento e luta contra a experiência.” Pois o primeiro passo da fé, e este passo é uma luta contínua, é negar-se a si mesmo, (Mt 16.24) renunciar a si mesmo, isto é, a seus sentimentos, suas experiências e seus desejos. É um renunciar a tudo o que possuímos e que tem valor próprio para nós, a eliminação radical de toda glória própria, e nascer de novo. (Jo 3.5) O crer e o ver encontram-se em oposição, excluem-se mutuamente. Isto vem especialmente à tona no fim da vida, na hora da morte, quando nosso corpo e nossa mente fracassam e precisamos dar o passo bem sozinho para o desconhecido. A fé cristã consiste exatamente em confiar cegamente na palavra de Deus, sem nada ver nem sentir; em apegar-se ao evangelho contra tudo o que vemos, sentimos e/ou gostaríamos. Nisso Abraão foi exemplo. Ele abriu mão de sua vida em Ur da Caldeia e render-se inteiramente à ordem e promessa de Deus. Mas Deus não lhe revelou todo o plano, só passo após passo, parte por parte. Abraão entregou-se totalmente à condução de Deus. Essa fé cristã é loucura e escândalo para o mundo. (1 Co 1.23) Como os olhos de Deus estão sempre voltados para seus filhos, esses podem e devem fechar seus olhos e deixarem se dirigir por Deus. Mas isto não os exime de sua responsabilidade de luta na vida. Por exemplo: Deus ordenou a Josué conquistar a terra e deu-lhe a promessa de que entregaria as cidades às suas mãos, que poderiam ser conquistadas somente pela força de Deus. As forças dos israelitas seriam insuficientes. E Deus lhe disse: Tão-somente sê forte e corajoso. (Js 1.7) Forte e corajoso em que? Na confiança na ordem e promessa de Deus para executar a obra que Deus lhe confiou. Josué teve que pensar, planejar e lutar. O que ele fez sob muita oração. E ele sabia: Cada vitória é um presente de Deus. Mas, quando sofreu a derrota diante da cidade de Ai, ele ficou alarmado, prostrou-se com os anciãos diante da Arca de Deus e disse: Ah! Senhor Deus por que fizeste passar a este povo o Jordão... Ah! Senhor! Que direi. (Js 7.7,8) Então Deus lhe disse: Levanta-te; por que estás prostrado assim sobre o teu rosto? Israel pecou. (Js 7.10,11) No seguir a Deus importa observar sua lei, andar diante dele em arrependimento e fé, e lutar por vida santificada.
Satanás, no entanto, procura, constantemente, quebrar nossa confiança em Deus para confiarmos no que nos parece razoável, compreensível e palpável.
Por isso o “entender” da fé não é outra coisa do que “entrar na escuridão, na qual nos cabe subjugar nossa percepção, razão, mente e intelecto à palavra de Deus. Este é o caminho árduo e estreito da fé. (Mt 7.13) Abandonar todas as coisas visíveis, ser despojado de todos os sentimentos, afastado de todos os hábitos; afinal, isto é morrer e descer para o inferno. Pois a própria pessoa tem a impressão de sucumbir totalmente; pois tudo a que se apegava e a sustentava lhe é tirado, para viver exclusivamente da fé, na graça de Cristo, da esperança. Vemos isto no malfeitor na cruz. Ele sentiu o castigo, a maldição de Deus e da justiça humana. Ele confessou: Recebemos o que nossos atos merecem. (Lc 23.41) Jesus, no entanto, lhes prometeu a graça de Deus e o céu, mas não lhe tirou os sofrimentos, esta agonia do último momento. Nesta agonia ele não olhou para o que sentia e via, mas confiou cegamente na promessa de Jesus: Deus, por Cristo, me perdoou tudo e em breve estarei no céu. Isto lhe deu forças para suportar as agonias do momento final. É isto que Paulo afirmou: Quando estou fraco (não tenho mais força, nada vejo, nada sinto), então sou forte (firmado na palavra, na graça, na esperança). (2 Co 12.10) Não sentir, mas crer. Cremos no que não vemos, nem sentimos, contra a experiência verificável, psicológica e empírica. Cremos no contrário do que sentimos e vemos ou gostaríamos de ter. Não entendemos os caminhos de Deus, mas confiamos de olhos fechados na condução de Deus, que nos conduz por um caminho desconhecido. Isto significa crer. (Lutero)

A experiência da fé. – No apego à palavra surge para a fé a força para crer contra a esperança (Rm 4.18) e experiência. Mesmo assim, a fé não exclui a experiência, pois a fé é uma realidade. A fé é confiança, isto é perceptível. Da fé brota a confiança e o amor, que são experimentáveis. Pois o que é a experiência? O ser atingido. Na fé, Cristo está presente. Fé e Cristo são inseparáveis. Cristo é a base, o conteúdo da fé. Crer é vestir Cristo. Pela fé nos tornamos membros do seu corpo. Mas isto em fé, ainda não no ver nem sentir, mesmo havendo certo sentir. Pois fé é vida. Da fé brota o amor a Deus que se revela pelo amor ao próximo, “o mais doce afeto do coração”. Neste sentido Lutero chama a experiência de a escola do Espírito Santo. Sempre que experimentamos algo da bondade e do amor de Deus, sempre que alguma alegria santa enche nosso coração, temos uma experiência sobrenatural, pois a razão humana carnal não se alegra em Deus. A experiência da fé é uma parte da nova vida, é a expressão da fé na realidade. Mas a nova vida sob a cruz é uma experiência sofredora. O apóstolo Paulo afirma: Vossa vida está oculta juntamente com Cristo. (Cl 3.3) O Senhor conhece o caminho dos justos. (Sl 1.6) Um caminho que nem eles próprios, os fiéis, conhecem, somente o Senhor.
Assim o cristão vive numa contradição entre percepção e realidade. A vida oculta do cristão é realidade, mas não é perceptível. A nova vida não é experiência empírica, e com bastante freqüência está em contradição a ela.
Por exemplo, a pergunta: Quem é cristão, quem é ímpio? Não podemos julgar pela aparência. Só o Senhor conhece os seus. (2 Tm 2.19)
O pecador é justificado, declarado justo, pela graça de Cristo, mas ele ainda é pecador e tem muitas fraquezas e quedas, que são visíveis. A realidade de Cristo é superior à realidade do pecado. No entanto, ela é realidade de fé, realidade oculta. Assim o cristão é um santo pecador.
O homem espiritual está sepultado com Cristo. Ele morreu para o mundo, e o mundo morreu para ele. Em contra partida, ele tem compreensão para o que o mundo jamais é capaz de entender, de que a cruz é uma bênção para os fiéis. Ele tem a sabedoria do alto, mesmo que o novo homem está oculto no velho.
Nisto o cristão é em tudo igual ao Mestre, Deus e ao mesmo tempo homem sofredor[13].

Paz, alegria e felicidade. Um outro aspecto da presença de Deus, muitas vezes destacado e testemunhado, são os termos: paz, alegria e felicidade. Os pentecostais acentuam isso muito e deturpam esses conceitos.
Paz, a mais sublime bênção que o cristão recebe de Jesus. Paz seja convosco, disse Jesus a seus discípulos. (Jo 20.21) Mas que paz era essa? Eles estavam com medo, trancados atrás de portas e janelas fechadas. Seus corações tumultuados pela dúvida. E isso continuou ainda por semanas. Esta paz é objeto da fé e por isso oculta. É a paz com Deus, pela graça de Cristo. O mundo nada vê, nossos sentidos e nossa experiência ficam sem nada. O caminho da paz é o caminho da cruz. O próprio Deus está oculto sob a cruz.
Alegria. A fé que se apega à paz de Cristo que nos é revelada e oferecida pela Palavra, traz a alegria ao coração, não uma alegria carnal, mas alegria no Espírito. (Gl 4.4) A razão da alegria são as promessas de Deus. Essas promessas, no entanto, não se baseiam no que vemos e sentimos, mas na esperança. Esta alegria o mundo não compreende: como mártires podem entrar cantando na morte sob terríveis dores. (Hb 11) Pois nesta alegria, falta ao mundo tudo o que para o homem carnal é motivo de alegria.
Felicidade. Também a felicidade do cristão é oculta. Todos querem ser felizes. Somente a vida sob a cruz de Cristo traz verdadeira felicidade. E esta vida está oculta. O que é felicidade? É estar livre do mal. Teu prazer está na lei do Senhor. (Sl 1.2) Isto deve ser compreendido, diz Lutero, “não na realidade presente, porém, na fé, numa esperança escatológica”.
Vemos isto na forma que Deus dirige a Igreja. Paulo chega a Roma como a saúde abalada, fraco, preso e algemado, mas para os romanos não havia nada mais indigno do que isto. Eles valorizavam a saúde física, a liberdade individual, e a honra de uma pessoa. Como dariam crédito a um homem nessas condições de Paulo? Mas foi exatamente nesse caminho do sofrimento, da perseguição que o evangelho se expandiu, venceu e continua vencendo.
Por isso confessamos nossa fé, dizendo: “Creio na santa igreja cristã, a comunhão dos santos.” Dizemos creio, porque não a vemos. Ela está oculta sob a cruz. No entanto, a igreja cristã é o mais precioso tesouro neste mundo, mas o mundo o considera nada. Só a quem o Espírito Santo abre os olhos, verá este tesouro.

6. Oração.
Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei e tu me glorificarás. ( Sl 50.15)
Somos pela fé na graça de Cristo, raça eleita... povo de propriedade exclusiva de Deus..., que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz. Mesmo assim, somos ainda peregrinos e forasteiros neste mundo em trevas, (1 Pe 2.9,11) e o diabo procura por todos os meios nos desgraçar. Por isso a admoestação do apóstolo: Sede sóbrios e vigilantes. (1Pe 5.8) Nesta luta somos guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para salvação preparada para revelar-se no último dia. Nisso exultais, embora no presente século para breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações. (1 Pe 1.5-6) Por isso não nos cansamos de orar noite e dia. (1 Ts 3.10; 5.17) E Jesus admoesta: Vigiai e orai. (Mc 14.38) Pelo salmista Deus diz: Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás. (Sl 50.15) É nos dias de angústia que ficamos desnorteados e clamamos: De onde me virá o socorro? E respondemos com fé: O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. (Sl 128.4) Sim, voltar-se para nosso Deus Criador, Redentor e Santificador, este é o caminho.
Mas é fácil invocar a Deus nos momentos de angústia e de aflição? Sabemos que é difícil. Porque é nesses momentos em que nossa consciência desperta e passa a nos acusar, lembra-nos de pecados passados. Ficamos apavorados. Nossa consciência nos diz: Tudo isso está te acontecendo por causa de teus pecados. Deus está-te castigando. E perdemos a coragem para nos dirigir a Deus em oração. O só pensar na presença de Deus já nos apavora. Esses pensamentos são muitas vezes piores do que a própria angústia que nos aflige.
Nesses momentos precisamos tomar a Bíblia e ler algum Salmo, trechos do Novo Testamento, tomar um devocionário, um livro de orações, ou pedir a um amigo que nos leia algum Salmo e algumas promessas de Deus e ore conosco. Em tempos passados as pessoas iam ao pastor e pediam a absolvição, confessando seus pecados, os pecados que lhes pesavam na consciência.
E como é confortador ouvir as preciosas promessas do amor de Deus em Cristo, e a ordem: Invoca-me no dia da angústia: eu te livrarei, e tu me glorificarás. Esta ordem e promessa de Deus são como um abraço paterno que nos assegura a misericórdia de Deus Pai. Em Cristo temos perdão, vida e eterna salvação.
Pelo profeta Deus diz: Ainda que vossos pecados sejam como a escarlate, elas se tornarão brancos como a alva lã. (Is 1.8) Que convite maravilhoso. Isso nos anima a corrermos aos braços de Jesus, que nos recebe e diz: Tem bom ânimo, filho, teus pecados estão perdoados. (Mt 9.2) Para isso ele ordenou que nossos irmãos nos consolem, anunciando-nos o evangelho. De pais para filhos, de irmão para irmão. E especialmente no culto público, no qual, após a confissão de pecados, o pastor deve anunciar:

Em virtude desta vossa confissão, eu, ministro da Palavra, chamado e ordenado, vos anuncio a graça de Deus, a vós que vos arrependeis verdadeiramente dos vossos pecados, credes em Jesus Cristo e tendes a sincera resolução de corrigir a vossa vida pecaminosa pelo auxílio de Deus Espírito Santo, e da parte de Jesus Cristo, meu Senhor, vos perdôo todos os pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Que mensagem! Lutero acrescenta: “Onde há perdão dos pecados, há também vida e eterna salvação.” Por isso cantamos após a absolvição: Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora é e por todo o sempre há de ser. Amém. Sim, a comunhão com Deus foi restabelecida. Nada temos a temer. Podemos jubilar confiantes e derramar nosso coração diante de Deus.
Assim o fazemos na firme confiança de que o Pai celestial nos ouve e atende. Sejam lá quais forem os problemas. Para Deus não há impossíveis. Seu braço não é curto para nos ajudar. (Is 59.1) Ao pedirmos coisas materiais, dizemos humilde e confiadamente: Seja feita a tua vontade. E Deus diz: Eu sei que pensamentos tenho a vosso respeito, pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar o fim que desejais. (Jr 29.11) Sabemos que ele nos quer bem e fará o que lhe apraz para o nosso bem e o bem daqueles que nos cercam.
Em tudo isso nos lembramos que somos peregrinos e forasteiros neste mundo. Temos desejo de estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. (Fp 1.23) No lar celestial, Deus enxugará toda a lágrima e nos cobrira com alegria sobre alegria. Maranata,vem Senhor Jesus. (1 Co 16.22)

7. A bênção
Precisamos falar ainda da bênção de Deus. Nisso vamos focalizar a bênção chamada araónica. (Nm 6.22-27).
A bênção, papai! Assim os filhos pediam ao saírem de casa para o trabalho ou para uma viagem. Um costume antigo, que hoje está caindo em desuso.
Na despedida de alguém lhe desejamos, normalmente, a bênção e a proteção de Deus, com as palavras: “Deus te guarde e te abençoe!”
Quando o patriarca Jacó lutou com Deus, ele disse: Não te deixarei ir, se me não abençoares. (Gn 32.26)
Mas o que é a bênção? O que ela significa para nós? O que acontece quando o pastor, no final do culto, levanta suas mãos e profere a bênção sobre a congregação? Vejamos.

Histórico
A primeira vez que a palavra “bênção” aparece na Bíblia é quando Deus, após ter criado Adão e Eva e os colocado no jardim do Édem, os abençoou. (Gn 1.28) A segunda vez que lemos sobre a bênção, quase dois mil anos depois, ao abençoar a Noé que havia saído da arca. (Gn 9.1)
Dali por diante, vemos como Deus abençoou a Abraão e os patriarcas, portadores da promessa do Salvador.
Quando o povo de Israel saiu do Egito, após receber a lei de Deus no monte Sinai, eles receberam de Deus também a ordem precisa de como deveriam prestar culto a Deus, uma ordem minuciosamente elaborada por Deus. Tanto quanto ao lugar de culto, a vestimenta dos sacerdotes e suas funções, formas de purificações e dos sacrifícios. Entre essas ordens estava também a ordem de, no final do culto, despedir o povo com a bênção, colocando sobre eles o nome do Senhor. Esta bênção deveria ser pronunciada por Arão, o sacerdote principal, com o levantar das mãos. A fórmula deveria ser pronunciada no singular, com as palavras: O Senhor te abençoe... Cada um que estava ali deveria saber: Estou diante de Deus e Deus promete me abençoar. E quem cria, sabia: Deus me acompanhará como meu gracioso Pai celestial. Que consolo.
Isto parece tão fácil de crer, mesmo assim, não o podemos por força própria. Diariamente nossa fé é posta à prova. Deus diz: Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos. (Is 55.8)
Uma senhora saiu alegre do culto. Na saída cumprimentou o pastor e lhe agradeceu pela mensagem, dizendo: Saio muito confortada. Deu mais alguns passos, falseou o pé e caiu na escadaria da igreja. Quebrou a bacia e a clavícula. A dor foi grande. Mais tarde, no hospital, ela disse ao pastor: “O que eu fiz para merecer isso? Por que Deus me castigou assim? Isto ele não poderia ter feito comigo, logo na saída do culto. Será que a bênção não valeu para mim?” – O que vamos responder? Vemos como é difícil crer na graça e no amor de Deus em todos os caminhos, mesmo quando ele permite desastres e aflições e nos põe a prova.
O Senhor te abençoe! Quem é este Senhor que aparece três vezes nesta bênção? Este é o Deus Criador de céu e terra, que diz no Primeiro Mandamento: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da casa da servidão (Hoje: que te salvei da escravidão do pecado, do poder de Satanás e da morte) Não terás outros deuses diante de mim. (Ex 20.2-3) Ele disse: Eu sou o Senhor, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra às imagens de escultura. (Is 42.8) Ele afirmou pelo profeta: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor. (Jr 17.5)
Expressamos nossa fé neste Deus triúno nas palavras do Credo Apostólico.

Creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terá. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Cristã – a comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna. Amém.

Vejamos os detalhes desta bênção.

a) O Senhor te abençoe e te guarde. – Aqui temos a bênção de Deus Pai, a primeira pessoa da santíssima Trindade. A ele é atribuída especialmente a obra da criação e manutenção do universo. Confessamos isto na explicação de Lutero do 1° Artigo do Credo Apostólico:

Creio que Deus me criou a mim e a todas as criaturas; e me deu corpo e alma, olhos, ouvidos e todos os membros, razão e todos os sentidos, e ainda os conserva; além disso me dá vestes, calçados, comida e bebida, casa e lar, esposa e filhos, campos, gado e todos os bens. Supre-me abundante e diariamente de todo o necessário para o corpo e a vida; protege-me contra todos os perigos e me guarda de todo o mal. E tudo isso faz unicamente por sua paterna e divina bondade e misericórdia, sem nenhum mérito ou dignidade da minha parte. Por tudo isso devo dar-lhe graças e louvor, servi-lo e obedecer-lhe. Isto é certamente verdade.

Nosso querido Pai celestial promete estar ao lado dos seus e guardá-los, isto é, protegê-los. Por isso o apóstolo diz: Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8.31) O salmista, certo dessa verdade e bênção compôs o Salmo 91, onde lemos: O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em que confio. E: Elevo os meus olhos para os montes de onde me virá o socorro. O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra. (Sl 121)
Ele nos sustenta. Em ti esperam os olhos de todos, e tu, a seu tempo, lhes dás o alimento. Abres a tua mão e satisfazes de benevolência a todo vivente. (Sl 145.16) O amoroso Pai celestial promete nos guiar e acompanhar em todos os caminhos. Ele, como Bom Pastor, nos guia pelo melhor caminho ao lar celestial, mesmo que nem sempre compreendemos os seus caminhos. Que bênção!

b) O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti. A expressão do rosto de uma pessoa nos diz muito. A expressão séria pode nos assustar, uma expressão serena nos inspira confiança, uma expressão sorridente nos faz sorrir também.
A expressão do rosto de uma pessoa adquire ainda maior significado quando se trata de uma autoridade. Por exemplo, se um professor entra na sala de aula com um rosto fechado, os alunos sabem: hoje todo o cuidado é pouco.
Que quadro consolador, quando as crianças brincam no pátrio e a mãe, mesmo fazendo tricô, está ali de olho em todas elas, para que nada de mal lhes possa acontecer. Isto dá segurança às crianças.
Que bênção para nós pecadores indignos saber que Deus faz resplandecer seu gracioso rosto sobre nós. Expressamos o significado disso na explicação do 2° Artigo do Credo Apostólico:

Creio que Jesus Cristo, verdadeiro Deus, gerado do Pai desde a eternidade, e também verdadeiro homem, nascido da virgem Maria, é meu Senhor. Pois me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança, assim como ele ressuscitou dos mortos, vive e reina eternamente. Isto é certamente verdade.

O Salvador nos olha com compaixão, bondade e misericórdia e nos acompanha assim, perdoando abundante e diariamente todos nossos pecados. Que consolo. Certos dessa bondade, sabemos que Jesus, como Bom Pastor, nos apascenta, nos guia, vigia, acolhe os feridos, cura, conduz por pastagens verdejantes e águas tranqüilas. E ainda que andemos no vale da sombra da morte, não precisamos temer. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre. (Sl 23.6)

c) O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz. – O Senhor que nos dá a paz é o Espírito Santo. Ele nos leva e conserva na verdadeira e única fé. Confessamos a seu respeito na explicação do 3° Artigo do Credo Apostólico.

Creio que por minha própria razão ou força não posso crer em Jesus Cristo, meu Senhor, nem vir a ele. Mas o Espírito Santo me chamou pelo evangelho, iluminou com seus dons, santificou e conservou na verdadeira fé. Assim também chama, congrega, ilumina e santifica toda a cristandade na terra, e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. Nesta cristandade perdoa a mim e a todos os crentes diária e abundantemente todos os pecados, e no dia derradeiro me ressuscitará a mim e a todos os mortos, e me dará a mim e a todos os crentes em Cristo a vida eterna. Isto é certamente verdade.

O apóstolo João escreve: Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. (1 Jo 3.2)
Pela fé na graça de Cristo somos filhos de Deus, não somos mais deste mundo, mesmo estando ainda nele. Não queremos mais pecar, mas devido à nossa natureza carnal, fraquejamos ainda muito e precisamos lutar para, “em verdadeiro arrependimento, afogar nossa natureza pecaminosa e fazer ressurgir o novo homem, que vive em justiça e pureza diante de Deus eternamente. (4ª Parte do Batismo) Nesta luta o Espírito Santo nos ampara, nos certifica do perdão, no qual temos paz com Deus, nos dá forças para a luta contra o pecado, nos consola e nos concede sabedoria para a vida em Cristo. Que bênção!
Tendo ouvido a palavra de Deus no culto, louvado, derramando nosso coração em oração diante de Deus, suplicado em favor de todos nossos queridos, da família de Deus no mundo, pela igreja, pela pátria e suas autoridades, orado pelos doentes e aflitos, abandonados e desamparados, saímos do culto e nosso Deus, Criador, Redentor e Santificador promete tomar-nos pela mão e nos acompanhar, para nos guiar com segurança através desse mundo no qual somos peregrinos ainda em humilhação, sob a cruz, sim mártires. Ele quer estar ao nosso lado na alegria e na dor, no vigor da vida como no momento da morte e nos guiar ao lar celestial.
Quão preciosa é a graciosa presença de Deus em nós e ao nosso lado. Temos razão para louvá-lo constantemente. Aqui nosso louvor ainda é mui fraco e imperfeito, na eternidade será perfeito, quando o veremos face a face e estaremos em sua presença por toda a eternidade. Amém.
São Leopoldo, 14/01/2008
Horst R. Kuchenbecker
[1] Jo 4.24; Sl 90.1,2; Sl 102.27; Jr 23.23,24; Lc 1.37; Sl 139.1-4; Is 6.3; Dn 9.7; Sl 33.4; Sl 145.9; Êx
34.6,7; 1 Jo 4.8; Rm 1.19,20. – Dt 6.4; Mt 28.19; 2 Co 13.13; Nm 6.24.26.
[2] Cf.: Ex 23.14; 1 Cr 16.11; Ed 9.15; Sl 16.11; 51.11; 97.5; 105.4; 140.13; Jr 23.39; Lc 13.26; At 10.33;
1 Co 1.29.
[3] Gn 1.22; 12.2; 22.17; 24.1; 26.3; 49.25; Nm 6.24; Sl 67.1; 72.17; At 3.25; 2 Co 13.13.
[4] Dt 6.4; Mt 28.19; 2 Co 13.13; Nm 6.14,15.
[5] Hb 11.3; Jo 1.1.
[6] Gn 1.26; Cl 3.10; Ef 4.24.
[7] Rm 5.19; Sl 51.5; Jo 3.6; Rm 7.18; Gn 8.21; Ef 2.3; 1 Co 2.14; 1 Pe 2.24
[8] Jr 23.13m14; Sl 139.7,8
[9] Rm 3.12,19,22,23; Ez 18.20.
[10] Obs.: Ou “dentro de vós.” As duas traduções são possíveis. Mas por Jesus estar falando com os fariseus incrédulos e hipócritas, é certo que o Reino de Deus não estava dentro deles. Por isso a tradução só poderá ser: “entre vós”. O Rei Jesus está entre eles, Jesus estava entre eles com sua Palavra. E onde a palavra de Deus está sendo pregada corretamente, Deus Espírito Santo atua, levando ao arrependimento e fé. E quem é da verdade, ouve a sua voz, isto é, a quem Deus Espírito Santo chama, ilumina com seus dons para reconhecerem em Cristo o Salvador e Rei de Israel; quem renasceu pela Palavra e o Espírito. Ali está o reino de Deus.
[11] 1 Co 2.14; Ef 2.1; Rm 8.7; 1 Co 12.3.
[12] Cf.: John Theodore Mueller, Dogmática Cristã, Editora Concórdia e Ulbra, 2004, p. 492.
[13] Cf.: Walther von Loewenich. A Teologia da Cruz de Lutero. Editora Sinodal, São Leopoldo, 1987.